Em artigo no jornal The Guardian, o jornalista Meron Rapoport constata que a opinião pública israelense sobre a guerra em Gaza está mudando. Antes, a maioria da população se mostrava favorável ao conflito diante da possibilidade de acabar com o Hamas.
Porém, os familiares dos reféns lideram as manifestações pelo cessar-fogo, diante da falta de perspectiva de resgatar seus entes queridos. Após 220 dias de guerra, o exército israelense conseguiu libertar apenas três dos 240 civis sequestrados pelo Hamas.
Este número contraria a ideia massivamente propagada pelo governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de que apenas a pressão militar libertará os reféns. Até porque o Hamas libertou cinco pessoas e outros 104 foram soltos após acordos.
A opinião pública, então, percebeu que a única forma de trazer de volta os reféns é por meio do fim da guerra, posicionamento que, até semanas atrás, era visto como um tabu em Israel.
Mas o clamor público pelo fim do conflito tem um grande entrave: o próprio Netanyahu, que mantém o discurso de que a invasão em curso a Rafah, que concentra mais de um milhão de refugiados, faz parte do plano de destruir os últimos quatro batalhões do Hamas, a fim de forçar o grupo a libertar os reféns.
O primeiro-ministro, no entanto, sabe que o fim da guerra representa também o fim do seu governo.
E está evidente, também, que as investidas contra o Hamas não tiveram um efeito permanente. Na última semana, cinco soldados israelenses foram mortos no bairro de Zeitoun, no sul da Faixa de Gaza, área sobre a qual as tropas de Netanyahu declararam vitória ainda em novembro de 2023.
Desta forma, a população se convence, cada dia mais, de que o “esmagamento do Hamas” é um objetivo improvável, até porque mesmo depois da morte de 35 mil palestinos, o oponente recuperou o controle civil sobre as áreas de onde Israel se retirou e também porque não demonstrou sinais de que vai se render levantando uma bandeira branca.
Diante de todo este contexto, a dor do luto dos parentes de reféns está se tornando raiva e, como as famílias lutam pela liberdade dos entes queridos, considerada uma causa legítima, as manifestações públicas estão mais frequentes e ganham a simpatia da opinião pública. “Liberte os reféns num acordo e acabe com a guerra”, pedem os familiares.
Revolta
No ultimo domingo (12), Israel comemorou o Memorial Day, considerado o dia nacional de união e que homenageia soltados e vítimas de terrorismo.
Manifestantes, liderados pelas famílias de vítimas, hostilizaram Netanyahu e demais autoridades do governo. Além de dar as costas durante o discurso do primeiro-ministro, os civis xingaram membros do alto escalão do governo.
“Saia daqui criminoso. Lixo, você não nunca pertenceu ao Exército”, gritaram parentes de mortos em Ashdod para Ben Gvir.
“O sangue deles está em suas mãos”, dizia um cartaz diante de Yoav Gallant, ministro da Defesa.
“Ao menos, faça um esforço monumental por aqueles que ainda estão vivos, por aqueles que ainda podem ser salvos”, afirmou a mãe de um refém ao ministro das Finanças.
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