5 de junho de 2026

“É uma quase anistia”, diz Lênio Streck sobre acordão entre Congresso e STF

“É negociar com o inegociável. Drible da vaca. Estão fazendo não apenas uma lei com efeito concreto, mas desfazendo coisa julgada", diz o jurista
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

As articulações entre o Congresso Nacional e o STF (Supremo Tribunal Federal) pela aprovação de uma lei que reduza as penas dos envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro — sem aliviar para os líderes da trama — se tratam de “uma quase anistia” na visão do jurista Lênio Streck.

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“Sobre o acordão: isso é negociar com o inegociável. Drible da vaca. Estão fazendo não apenas uma lei com efeito concreto, mas desfazendo coisa julgada. Ainda que a lei penal mais favorável possa retroagir, essa lei vem para beneficiar certos condenados. É, portanto, uma quase anistia”, manifestou Streck em sua conta no X.

A proposta em discussão

Patrocinada pelo presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a proposta prevê a criação de uma tipificação penal para os crimes cometidos por aqueles que estiveram presentes durante a depredação das sedes dos Três Poderes, mas não participaram do planejamento ou financiamento dos atos.

A lógica da proposta é tratar os atos de vandalismo como crime coletivo, diluindo a responsabilidade individual, e Alcolumbre diz que o objetivo é “despolitizar” o debate e corrigir supostos excessos.

Porém, a manobra abriria caminho para a redução automática das penas de parte dos condenados, principalmente daqueles que cumprem de dois a seis anos de prisão.

Ao rebaixar a gravidade dos atos golpistas, o projeto de Alcolumbre abre um precedente perigoso: o de que é possível negociar, retroativamente, as consequências de um ataque à democracia. A anistia explícita foi evitada, mas o “acordão” em curso pode produzir exatamente o mesmo efeito.

Costura em andamento

A costura da proposta tem o apoio de alguns setores do governo federal, que enxergam na medida uma forma de encerrar o ciclo judicial e diminuir tensões com o Congresso. O texto já deve ser discutido nos próximos dias.

O líder do PT na Câmara, deputado Lindbergh Farias (RJ), defendeu a proposta como alternativa à anistia ampla, com o argumento de que seria possível isolar o núcleo duro do bolsonarismo e evitar o perdão a líderes e financiadores dos atos golpistas.

Contudo, Lênio Streck afirma que essa tentativa de acomodação pode sair cara: “O governo deve achar que alimentar o crocodilo fará com que seja comido por último. Binguíssimo”, ironizou, referindo-se à advertência atribuída a Winston Churchill sobre concessões a regimes autoritários: “Um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser o último a ser comido.”

Em outras palavras, o governo busca apaziguar seus adversários com concessões mas, ao fim, será inevitavelmente atacado por eles — apenas mais tarde.

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Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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12 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    29 de abril de 2025 8:51 pm

    Se os crimes contra a democracia deixarem de existir ou as penas deles forem reduzidas duas coisas ocorrerão:
    1- a Lei mais benéfica retroagirá para beneficiar os réus porque assim determina a Constituição;
    2- assim que a nova Lei entrar em vigor o golpismo ganhará nova força, porque os interessados numa ruptura da legalidade poderão recrutar aliados entre cidadãos, policiais e militares porque todos terão certeza de que o risco será muito pequeno.

  2. evandro

    29 de abril de 2025 10:00 pm

    E já armando para levar o Glauber para julgamento em plenário. Já comentei em outras postagens, o Nassif esquece o legislativo e o judiciário que temos. Está quase um Poliana.

  3. Rui Ribeiro

    30 de abril de 2025 8:09 am

    No Caminho com Maiakóvski
    (Eduardo Alves da Costa)

    Na primeira noite eles se aproximam
    e roubam uma flor
    do nosso jardim.
    E não dizemos nada.
    Na segunda noite, já não se escondem:
    pisam as flores,
    matam nosso cão,
    e não dizemos nada.
    Até que um dia,
    o mais frágil deles
    entra sozinho em nossa casa,
    rouba-nos a luz e,
    conhecendo nosso medo,
    arranca-nos a voz da garganta.
    E já não podemos dizer nada.

  4. Rui Ribeiro

    30 de abril de 2025 8:21 am

    Prá golpista, anistia; prá anti-golpista, cassação.

    “Hugo Motta adotou conduta atípica em sessões de cassação de Glauber
    Presidente da Câmara iniciou trabalho mais tarde nos dois dias que foram chave para psolista, o que permitiu avanço do processo contra deputado”.

    Até a Folha de São Paulo, que é reacionária, chegando ao ponto de chamar a ditadura de ditabranda, tá vendo a conduta atípica do Motta para prejudicar o Gláuber. A perseguição aos progressistas tá muito escancarada.

  5. Rui Ribeiro

    30 de abril de 2025 8:50 am

    Sacrificar? Desde quando ser punido pelos crimes cometidos se tornou sacrifício?

    “Todos os golpistas deveriam cumprir integralmente suas penas. Melhor sacrificar alguns em benefício da pátria”. – Elias Ribeiro (Belo Horizonte, MG)

  6. Rui Ribeiro

    30 de abril de 2025 8:57 am

    “Todos os golpistas deveriam cumprir integralmente suas penas. Melhor sacrificar alguns em benefício da pátria”. – Elias Ribeiro (Belo Horizonte, MG)

    Melhor não sacrificar/prejudicar um país inteiro em benefício de meia dúzia de golpistas.

    Elias Ribeiro, se você fosse o Warren Buffet ou o George Soros, por exemplo, você investiria num país em que meia dúzia de criminosos não só promovem um quebra-quebra das instituições, cagam na Suprema Corte, etc, mas ficam impunes?

    Isso é um país ou um ajuntamento, Affonso Romano de Sant’Anna?

  7. Rui Ribeiro

    30 de abril de 2025 10:43 am

    A lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada.

    Esse dispositivo vai virar letra morta? É o jeitinho brasileiro.

  8. Rui Ribeiro

    30 de abril de 2025 10:46 am

    Os mandantes serão rigorosamente punidos. Já os jagunços…

  9. EVERALDO LUIZ BONFIM FERNANDEZ

    30 de abril de 2025 2:26 pm

    Nessa o Streck “esticou” o argumento. A lei penal retroage para beneficiar ainda é um princípio válido.

    1. Rui Ribeiro

      1 de maio de 2025 10:05 am

      Quer dizer que ao se condenar penalmente um criminoso poderoso, apesar do trânsito em julgado da sentença penal condenatória, a sua impunidade tá garantida, bastando aprovar uma lei que descriminaluze sua conduta. Isso traduz suprema $egurança Zurídica e facilita a vida e a prosperidade de uma nação. Palmas

      1. Jicxjo

        2 de maio de 2025 7:10 am

        O Parlamento tem esse poder, não só aqui mas em qualquer país democrático; é um corolário do princípio da legalidade do Direito Penal. Vergonha é o STF participar de “negociações”, conduta completamente estranha a suas funções; rasga a toga e se assume abertamente como um ator político. Conduta estranha mas condizente com a filosofia utilitarista professada por vários de seus ministros, Barroso à frente. Se pensam assim, não podem reclamar das decisões do tribunal serem vistas como políticas, não jurídicas.

  10. EVERALDO LUIZ BONFIM FERNANDEZ

    30 de abril de 2025 2:30 pm

    Churchill também apaziguou. Não se engane, Streck.

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