
Cármen Lúcia e o Judiciário não são a Justiça
por Aldo Fornazieri
Cármen Lúcia, presidente do STF, afirmou na semana passada que “o que é inadmissível e inaceitável é desacatar a Justiça, agravá-la ou agredi-la. Justiça individual, fora do direito não é Justiça, senão vingança ou ato de força pessoal”. Antes de tudo, é preciso dizer que nem ela, nem o STF, nem os tribunais e nem os juízes são a Justiça. Eles são integrantes de um poder do Estado e, como tal, no sistema republicano e democrático, são passíveis de críticas e precisam responder pelos seus atos perante a nação e perante a opinião pública. A toga não lhes confere poderes divinos ou angelicais. Pelo contrário – com exceções, claro, porque existem bons juízes – o Judiciário brasileiro está mais próximo da encarnação do mal.
Como se disse, o Judiciário não é a Justiça. A Constituição o define como um dos poderes da União, sendo um de seus atributos e objetivos distribuir a Justiça, algo que o Judiciário não faz bem pela sua incompetência, pela sua parcialidade, pela sua arbitrariedade, pelos seus privilégios e pela sua corrupção. Se há alguém que aplica a Justiça de forma individual, fora do direito, como ato de vontade moral ou imoral, são muitos juízes, como vários juristas vêm denunciando. A caso do julgamento de Lula é emblemático neste sentido. Mas, diariamente, juízes decidem a partir de suas presunções e fora do direito, de forma enviesada, contra os pobres, contra os negros, contra as mulheres, contra os índios e contras várias outras minorias. Se isto não é vingança, é perseguição e é aplicação de força pessoal, respaldada por um Estado injusto.
No Brasil, mal se tem acesso ao Judiciário. E ter acesso ao Judiciário não significa ter acesso à Justiça. Pelo seu caráter elitista, pervertido e corrompido, o Judiciário é um obstáculo ao acesso à Justiça. No Brasil, definitivamente, o Judiciário não garante a tutela jurisdicional efetiva aos direitos dos cidadãos, pois somos uma sociedade em que a imensa maioria não tem direitos garantidos. Ter acesso à Justiça, segundo doutrinadores de renome internacional, é um direito humano básico e preeminente e requisito fundamental de um sistema jurídico modero e igualitário que não se acomoda na mera proclamação dos direitos, mas que se empenha para garanti-los. Isto o nosso sistema não faz.
Se Cármen Lúcia quis se referir ao Judiciário quando falou em Justiça, também se engana. De John Locke, pai do liberalismo moderno, aos Federalistas, de Henry David Thoreau a Martin Luther King e tantos outros, o direito à resistência e à desobediência civil a leis injustas e a poderes arbitrários é um direito consagrado no pensamento liberal-democrático dos Estados modernos e é uma forma de exercício da cidadania. No Brasil, temos várias leis injustas e os poderes, incluindo o Judiciário, degradados e perversos, a serviço de uma elite predatória. Locke conferiu estatuto de dever a desobediência a poderes arbitrários, arbítrio que se vê em muitas decisões do STF e de vários juízes.
O STF não merece respeito porque não se dá o respeito. O STF agride a democracia de várias formas: magistrados são assessores informais do presidente da República a quem julgam; ministros do STF não se respeitam entre si, ofendendo-se mutuamente; o Tribunal é uma casa da mãe joana, sem regras, sem colegiado, funcionando sob a batuta do arbítrio individual, com a discricionalidade de um ministro poder paralisar um processo indefinidamente com um pedido de vistas; muitas de suas decisões seguem, não a lei e a Constituição, mas a vontade arbitrária aplicando decisões diferentes para casos semelhantes e assim por diante. O STF não merece respeito porque não respeita os cidadãos, as leis e a Constituição.
O Judiciário é um poder notadamente corrupto. Juízes como Moro e os desembargadores que julgaram Lula, assim como o juiz Bredas, que se apresentam como paladinos do combate à corrupção, são moralistas sem moral. Todos eles recebem acima do teto constitucional e lançam mão de privilégios inescrupulosos e inaceitáveis, que ofendem a consciência nacional e a decência pública. O auxilio moradia é expressão da mais degradada e inescrupulosa forma de privilégios de uma casta, que merece repulsa pelo seu caráter odiento.
O salário normal dos juízes já os coloca na faixa dos 1% de privilegiados, cujos rendimentos são mais do que 36 vezes superiores aos dos 50% que integram a população mais pobre do país. A renda média dos brasileiros é de R$ 1.242. Cem milhões vivem com até um salário mínimo. Já 90% têm renda inferior a R$ 3.300. O valor do auxilio moradia dos juízes é de R$ 4.377, fora os outros privilégios, chamados penduricalhos. Ou seja, somente esse auxilio é superior à renda de 90% dos brasileiros. Trata-se de um crime, de uma violência inaceitável contra a sociedade brasileira. Trata-se de um vergonhoso escândalo praticado por muita gente que tem casa própria. Mesmo que não a tivessem, o auxilio não se justifica porque é uma imoralidade, uma agressão ao interesse público. Esses privilégios todos, nas diversas formas de penduricalhos, atentam contra o princípio da moralidade pública inscrito na Constituição. Portanto, não são só imorais, mas também ilegais, pois se algum dispositivo os abriga, ele inconstitucional.
Anarquia judicial
O que se tem é uma profunda crise de legitimidade do Judiciário, que funciona praticando graves irregularidades: mantém presas pessoas que não deveriam estar presas, violando direitos; muitos juízes não julgam conforme o direito, mas segundo sua vontade arbitrária; muitos juízes são racistas e preconceituosos, ministram uma justiça contra os pobres e protegem os ricos; o Judiciário é incapaz de garantir uma tutela efetiva dos direitos dos cidadãos; o Judiciário é caro, moroso e ineficaz; juízes constituem uma casta de privilegiados, ofendendo os princípios republicanos e democráticos da Constituição; vários juízes, inclusive ministros do Supremo, violam recorrentemente a Lei Orgânica da Magistratura; o STF não só não vem exercendo o controle constitucional na atual crise, mas viola a própria Constituição em várias decisões.
Isto tudo já não são formas de ativismo judicial. Trata-se de um poder degradado, que degrada a democracia e se autodegrada a si mesmo. O STF é o carro-chefe dessa degradação. Degradação que se alastra para as esferas inferiores, onde juízes de primeiro grau passaram a buscar a fama, destruindo a prudência, julgando com critérios midiáticos, ideológicos e moralistas. Ao se revelarem moralistas sem moral, por serem beneficiários de privilégios que são formas de corrupção, passam a ser alvos do desprezo e do ódio da opinião pública, deslegitimando a instituição que deveria ser a garantia do funcionamento legal e constitucional do país nesta grave crise política.
O juiz Moro foi um dos artífices do golpe contra a democracia e o STF dele também participou de forma ativa e pela omissão. Ali está a raiz da degeneração e da degradação desse poder. O horizonte que se tem pela frente é o da anarquia judicial, da insegurança jurídica, das bravatas de juízes a exemplo desse que tomou o passaporte de Lula, das conspirações na emissão de sentenças a exemplo dos três desembargadores do TRF-4, da perseguição jurídica como a praticada por Moro e da fanfarronice como a praticada por Bredas ao se apresentar portando um fuzil. Se a perda da sacralidade pelos homens e mulheres de toga é um ganho para a cidadania, a anarquia judicial é um estímulo crescente para a violência social e poderá sê-lo para a violência política, pois as instituições mediadoras estão desmoralizadas.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).
Carlos Henrique Pereira
5 de fevereiro de 2018 11:33 amFalou TUDO!
Perfeito, nem uma vírgula a ser inserida.
Juliano Santos
5 de fevereiro de 2018 11:35 amAcabei de ver no Azenha,
Acabei de ver no Azenha, juízes também recebem “auxílio material escolar” para filhos até 24 anos. Daqui a pouco descobrem “auxílio goró” para juizes beberões, auxílio shampoo para juizes que cultivam a cabeleira (né Fux?), auxílio pet para os cachorrinhos das excelências, que afinal também fazem parte da família.
Deve estar lá no portal da transparência, é só dar uma olhada para conferir. Diante disso quem de fato precisa de auxílio somos nós os cidadãos ordinários e de segunda classe
ze sergio
5 de fevereiro de 2018 11:37 amCármen…..
Não são a Justiça? Masmorras Medievais? Só viram agora, que visitaram não como Cúmplices do Horror, mas como prováveis Inquilinos? Estão aí há 40 anos e antes. Brasileiros e Brasileiras nascidos na Redemocratização, sob uma Constitução Cidadã, sob as bençãos de Governos Socializantes as lotam. Agora que nossa Elite Progressista (a que é e finge não ser) constatarm a putrefação? O Brasil é de muito fácil explicação.
LUIZ DE MATTOS
5 de fevereiro de 2018 12:24 pmBOM DIA. ALGUNS FALAM EM
BOM DIA. ALGUNS FALAM EM DESOBEDIÊNCIA CIVIL,NÃO DEVEMOS SER DESOBEDIENTES O MOMENTO EXIGE SERMOS INSURGENTES,REVOLTOSOS E REVOLUCIONÁRIOS. A PÁTRIA CLAMA POR SOCORRO,ELA SANGRA E CHORA PELO DESTINO DE NOSSOS FILHOS E NETOS E NÓS NÃO PODEMOS NOS ENVERGONHAR NO FUTURO POR ASSISTIRMOS A DESTRUIÇÃO DE UM PAÍS E O ENTERRO DE UMA NAÇÃO IMPASSÍVEIS. VAMOS A LUTA DE VERDADE,VAMOS DERRUBAR OS PODRES PODERES SEM ESQUECER DO PODER MIDIÁTICO MAS O PRIMEIRO A CAIR TERÁ DE SER O JUDICIÁRIO.
Wilton Santos
5 de fevereiro de 2018 12:55 pmExiste por parte da maioria dos membros do Poder Judiciário um i
Existe por parte da maioria dos membros do Poder Judiciário uma idéia deturpada de justiça. Para muitos membros do Poder fazer justiça significa oprimir e humilhar os fracos como demonstração de força e autoridade. Quando a Carmem Lúcia se preparava para assumir a presidência do STF foi receber prêmio da Globo, a responsável pelo golpe de estado que o páis acabara de sofrer.
No seu discurso de posse, a nova presidentA do STF não perdeu a oportunidade de agredir a Dilma, que estava sendo vítima de uma injustiça histórica e sofrendo linchamento do país inteiros. Ao se posicionar sobre questões polêmicas, a ministra Carmen Lúcia corre para baixo do abrido dos proderosos que estão se esbaldando no golpe em curso e agride o PT e os dirigentes petistas.
Esse golpe poderia ter acabado e evitado todo esse caos se o STF declarasse inconstitucional o impeachment sem crime de responsabilidade. Com a volta da presidentaA legítima ao Planalto tudo seria resolvido da forma mais simples e correta. Mas não foi essa a escolha da presidentA Carmen Lúcia, ela escolheu os poderosos ao invés da justiça!
Elton farah
5 de fevereiro de 2018 12:58 pmPrivilégios do judiciário
Excelente matéria!
Expressa o entendimento e o sentimento de milhões de trabalhadores brasileiros que mantém a máquina deste país…
O Poder Judiciário e o Ministério Público são os parasitas das verbas repassadas as duas instituições, com o fim de fazer as tais funcionarem, porém, os repasses se tornaram, em grande porcentagem, penduricalhos a magistrados e membros do MP…
Michel
5 de fevereiro de 2018 1:03 pmNeste exato momento (11h)
Neste exato momento (11h) este artigo do Aldo Fornazieri está nos TT’s (Trending Topics) como os 10 assuntos mais comentados do Twitter.
Parabéns ao Aldo extensivo ao Nassif. Obs.: outro dia o nome “Luis Nassif” também subiu nos TT’s e até levei susto pensando que era aquela coisa de difamação que sai em jornalão. Mas era por causa de um artigo (não lembro qual) do Nassif que “bombou”.
naldo
5 de fevereiro de 2018 1:11 pmUm desse disse que recebe o
Um desse disse que recebe o tal auxílio, que, apesar de vergonhoso, não é o principal motivo que faz salarios atingirem 150, 200 mil, disse que o recebia por querer um salario justo? O que é um salario justo para eles? No fundo são funcionarios publicos porque concursados, dessa forma justo seria comparar com salarios do proprio funcionalismo, se ministro do stf recebe determinada quantia, o topo do justo é esse. Se querem ganhar como advogados que possuem altos honorários que saiam do serviço publico e vão advogar, aliás, como alguns fizeram……..
mauro silva 1
5 de fevereiro de 2018 1:17 pma degradação começou antes.
de fato, o texto é uma síntese do que alguns comentaristas deste blogue, desde sempre, acusam o judiciário: o mais corrupto dos poderes.
assim, tão ou mais constrangedor que chamar de “revolução” a quartelada de 64, é nominar o judiciário brasileiro de “justiça”.
não faz e nunca fez, por isso deve ser expurgado: todos no olho da rua sem direito a nada, e obrigados a devolver ao erário o que receberam ilegalmente.
peculatários!
vera lucia venturini
5 de fevereiro de 2018 2:04 pm“Antes de tudo, é preciso
“Antes de tudo, é preciso dizer que nem ela, nem o STF, nem os tribunais e nem os juízes são a Justiça. Eles são integrantes de um poder do Estado e, como tal, no sistema republicano e democrático, são passíveis de críticas e precisam responder pelos seus atos perante a nação e perante a opinião pública.”
Quando as excelências pomposas sequer tem noção do que representam numa República, nós os brasileiros, ficamos a merce desses tiranetes ignorantes fantasiados de toga.
Beijos, Aldo.
Viktor
5 de fevereiro de 2018 2:24 pm17 mil indivíduos dão as cartas no Phoder Judiciário do Brasil.
LUCIANO DA ROS | PESQUISADOR UFRGS
“Não há um poder Judiciário no Brasil, mas 17.000 magistrados”
Para Luciano Da Ros, autonomia sem transparência está na raiz de ações de juízes contra jornalistas
https://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/16/politica/1466099536_355126.html
Maria Luisa
5 de fevereiro de 2018 2:29 pmSera que vai cair a ficha?
“O STF não merece respeito porque não respeita os cidadãos, as leis e a Constituição.”
Professor Aldo o senhor foi direto ao âmago do disfuncionamento do Judiciario brasileiro. Eu não sei o que mais precisa ser dito apos tantos artigos (este aqui e o de Conrado Hübner são demolidores), tantos xadrezes didaticos sobre o caos no judiciario para que o STF enfim se dê ao respeito e passe a respeitar os cidadãos brasileiros, nossas leis e constituição. Sem o carro chefe dando a direção e baliza, a escola de samba vem na algazarra. Eh o que temos no Judiciario brasileiro. Era essa a Era do Judiciario do qual falou Lewandowski? Acho que não.
Fernando Oliveira
5 de fevereiro de 2018 2:39 pmE viva a Surubacracia !!!!!
E viva a Surubacracia !!!!! Viva moro!! Viva beira mar!!! Viva temer!!!! viva marcola!!! Viva carmen lucia!!!!! Viva marcinho vp!!! viva gilmar!!!! Viva youssef!!!! Viva aécio!!! Viva demóstenes!!!! Viva sérgio machado!!! Viva serra(o dos diplomas ideologicamente falsos)!!!! viva daniel dantas!!!! Viva fhc(o mendigo intelectual)!!!!! Viva jucá!!!! Viva abdelmasih!!!! Viva os generais amassa bosta!!!! Viva o ministério publico!!! Viva a polícia federal!!! Viva toda essa pústula que está levando “ESSA PORRA” para o abismo!!!
J. Conselheiro
5 de fevereiro de 2018 2:57 pmRenuncia Já!
Um comentário desses pela sua clarivid~encia e veracidade deveria fazer com que todo STF e os juízes de Curitiba tivessem vergonha na cara e renunciassem a seus cargos imediatamente. ual o cidadão normal que tem acesso ao excelentíssimo Gilmar Mendes, ao excelentíssimo Luis Fux e companheiros? Ninguém. Só a elite da elite. A Globo e politicos de influência. Essa turma é uma dinastia da pior espécie e o mais grave, pagos com o nosso suado dinheiro.
Auxiliadora
5 de fevereiro de 2018 4:55 pmPoder arbitrário
“Antes de tudo, é preciso dizer que nem ela nem o STF, nem os tribunais e nem os juízes são a justiça.Eles são integrantes de um poder do Estado e, como tal, no sistema republicano e Democrático, são passíveis de críticas e precisam responder por seus atos perante a nação e perante a opinião pública. A toga não lhes confere poderes divinos ou angelicais. Pelo contrário com exceções, claro, porque existem bons juízes – o judiciário brasileiro está mais próximo da encarnação do mal”.
Vamos ver até quando imperará, a insegurança jurídica, a seletividade do poder punitivo, à vontade pessoal dos ministros do Superior Tribunal Federal, dos ministros dos Tribunais Superiores, dos juízes e juízas do judiciário brasileiro. Até quando?
Valcionir Corrêa
5 de fevereiro de 2018 5:47 pmArtigo sobre o Judiciário de Aldo Fornazieri
Parabéns, Fornazieri!
Teu artigo sobre o Judiciário está ótimo. Faz tempo que esse poder de casta mantém os privilegiados do Brasil. Está na hora de combatermos essa elite de toga. A maiorida da população não tem acesso aos seus direitos fundamentais. Basta vermos quem são os presos no sistema penitenciário brasileiro. Rico não está lá, mas apenas pobres e negros que não tem acesso à Justiça. Devemos lembrar o episódio da desembargadora que tirou pessoalmente da prisão o filho traficante e nada foi feito. E milhares de mulheres trabalhadoras presas com filhos menores e nunca deram o direito a elas de prisão domiciliar, mas quando uma burguesa é condenada, a sensibilidade da elite de toga logo vem à tona e, como passe de mágica, aparece uma lei que permite a ela prisão domiciliar. Essa injustiça, desses que se dizem da Justiça, precisa acabar!
C.Poivre
5 de fevereiro de 2018 11:27 pmRecado aos tribunais “superiores”
Os ataques da mídia dominante aos ex-queridinhos Bretas e Moro, fazem parte da estratégia da cúpula golpista estadunidense. Estão dando um recado aos seus sócios na ditadura midiático-judicial: se derem alguma chance de Lula concorrer todos os podres dos “ministros” dos tribunais ditos “superiores” serão expostos também.