A Folha de S.Paulo – Notas de uma sociedade deteriorada, por Camila Koenigstein

O jornal dito progressista vem deslizando há muito tempo entre o reacionarismo perverso com doses de progressismo, destilado por seus colunistas

A Folha de S.Paulo – Notas de uma sociedade deteriorada

por Camila Koenigstein

São tempos difíceis, quando pedir coerência parece quase impossível. Diariamente vemos minguar o pensamento crítico, investigações mais aprofundadas. Com isso, observamos o aumento de fake news e microanálises que não pretendem outra coisa a não ser gerar polêmica e manter o quadro de anomia que cresce constantemente na sociedade brasileira. Tal cenário vem criando uma configuração complexa, algo que ainda não conseguimos dimensionar, na verdade, não conhecemos a amplitude dos danos, só sabemos que estamos vivenciando tempos de rompimento profundo com o saber e o conhecimento, para dizer o mínimo.

O período da pandemia evidenciou o que até então era visto de maneira sintomática, mas agora já ganha traços patológicos. O negacionismo virou uma realidade para aqueles que sempre menosprezam o conhecimento acadêmico e científico.

Os diversos movimentos antivacina que se expandem por vários países, com adeptos que não pertencem necessariamente a um grupo social específico, mas que fazem ruído, não só põem em risco o sistema sanitário de muitas nações, como também espalham ideias ilógicas sobre o espaço da ciência na vida dos cidadãos.

A expansão de todo um mercado voltado para o campo místico e esotérico, que vemos com frequência substituindo a medicina e os estudos feitos por cientistas nos mais variados campos do saber, cresce de maneira vertiginosa, um corpo social que se deixa conduzir pelo movimento dos astros, tal como no século XI.

Esse cenário não é visto somente no âmbito da ciência, e de forma contundente na medicina, mas também na própria relação do indivíduo com a sociedade. Tudo é rapidamente mutável, teorias são criadas e fatos históricos ignorados em nome de uma verdade inventada ao gosto do escritor e do seu séquito. A liquidez, tão difundida por Bauman, vem prevalecendo, formando uma massa que não sabe distinguir fato e imaginário, real e simbólico, materialidade e revisionismos baratos. Mas quem são os responsáveis por essa onda que tem fortes vínculos com o avanço do neoliberalismo?

Sem dúvida nenhuma o advento das redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter) auxiliou e muito na desvalorização das ciências biológicas e sociais. O que antes era respeitado foi perdendo a força frente ao que se denomina de pós-verdade. Um novo mundo está surgindo e com ele a possibilidade de ações individuais e coletivas que manipulam intencionalmente a realidade, quase sempre guiadas por interesses econômicos e políticos.

Não é de hoje, porém, que a manipulação das informações é um tema perigoso e analisado por estudiosos de diferentes âmbitos. Desde 1923, a Escola de Frankfurt, inicialmente chamada Instituto de Pesquisas Sociais, desenvolveu diversas análises sobre o tema. O grupo, composto de filósofos, sociólogos, economistas, historiadores e psicólogos, buscou desenvolver trabalhos sobre a modernidade ocidental e capitalista, além de pesquisas sobre o papel dos meios de comunicação e a denominada indústria cultural.

Adorno observa que, apesar da aparência mais benigna, a indústria cultural e totalitária gera e consolida preconceitos e não o pensamento autônomo e a livre faculdade de julgar; não porque imponha conclusões, mas por impedir que sejam formadas. A indústria cultural e a mídia, ao contrário da cultura humanista, se consolidam por não romperem hábitos mentais e expectativas, fortalecendo-os, pois a pacificidade é seu elemento […] Em outras palavras, a indústria cultural e misóloga se pauta pela desinformação, a qual é o verdadeiro antagonista da cultura como experiência agregadora e civilizatória.

Olgária Matos (filósofa)

O que a Folha tem com isso?

A Folha de S.Paulo é considerada por muitos um veículo de comunicação progressista. Para o professor e jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, a Folha é um dos jornais mais importantes do Brasil, e ele ressalta que, nos últimos 37 anos, a publicação tem sido o diário com maior circulação paga do País. “Além disso, o jornal se destacou, principalmente nos últimos 40 anos, por uma atitude editorial muito ousada e frequentemente bastante defensora dos princípios da democracia”, afirma.

Tal afirmação possibilita pensarmos em diversos aspectos sobre os meios de comunicação de massa e seu papel dentro da sociedade atual. Se antes, como bem escreveu Antonio Gramsci, cada grupo social criava seus intelectuais e de certa forma era sabido a qual grupo cada um pertencia, hoje, já não sabemos mais quem tem verdadeiramente credibilidade. Desconhecemos quem escreve por convicção ou aqueles que somente buscam espaço, destaque e ganâncias econômicas, o que não é surpreendente em uma sociedade fragmentada e deteriorada, em que é possível se reconhecer progressista e ainda assim colaborar para um jornal que há alguns anos afirmou que no Brasil ocorreu uma ditadura branda.

“No editorial de 17 de fevereiro de 2009, o jornal Folha de S.Paulo deu uma mancada sem tamanho ao chamar a última ditadura brasileira (1964-1985) de ‘ditabranda’. O objetivo era criticar o presidente Hugo Chávez e sua recente vitória política obtida através de plebiscito que lhe deu a possibilidade de disputar mais um mandato em 2012. A ideia era fazer um contraponto com os regimes da década de 70 e 80 na América Latina para afirmar que a situação na Venezuela de hoje é muito pior.”

O jornal dito progressista vem deslizando há muito tempo entre o reacionarismo perverso com doses de progressismo, destilado por seus colunistas, quase sempre estudiosos oriundos de universidades e centros de pesquisas renomados. De certa maneira, o jornal “usa” tais articuladores para criar um espaço de desinformação, ou seja, é possível encontrar um texto altamente crítico ao governo Bolsonaro e ao mesmo tempo um artigo que nega o racismo estrutural, prega o racismo reverso e joga no lixo a história do país, publicando uma série de informações desconexas, o que obviamente marca uma posição política e ideológica carregada de intencionalidade.

Muitos dirão que isso é pluralidade de pensamento e uso da liberdade individual, mas a realidade e o negacionismo sobre os fatos sociais ganham adeptos constantemente quando esse tipo de artigo e publicado.

Assim, percebemos que a afirmação da Escola de Frankfurt de que “a indústria cultural e misóloga se pauta pela desinformação, a qual é o verdadeiro antagonista da cultura como experiência agregadora e civilizatória”, está presente em nossa cotidianidade, ainda que muitas vezes de maneira sutil.

Artigo de opinião do antropólogo Antonio Risério publicado na Folha no último dia 15 de janeiro difundiu mentiras, espalhando ódio e racismo, mas ainda assim foi aceito pelo veículo, encaixando-se na linha editorial do jornal, que aparentemente joga com o conceito de liberdade e reveste todos os discursos com o manto da pseudodemocracia.

Em 5 de novembro de 2021, o colunista da Folha Gustavo Alonso publicou, logo após a morte trágica da cantora sertaneja Marília Mendonça, um artigo com um forte conteúdo misógino, um texto infantilizado e agressivo, que teoricamente não teria espaço em nenhum meio de comunicação sério, quanto mais em um jornal considerado comprometido com o respeito ao outro, no entanto passou pelo crivo do corpo editorial.

“Nunca foi uma excelente cantora. Seu visual também não era dos mais atraentes para o mercado da música sertaneja, então habituado com pouquíssimas mulheres de sucesso – Paula Fernandes, Cecília (da dupla com Rodolfo), Roberta Miranda, Irmãs Galvão, Inhana (da dupla com Cascatinha)”, escreve o articulista.

Por outro lado, os colunistas defensores dos direitos humanos que fazem parte da Folha são constantemente usados como escudo pelo jornal. A cada artigo absurdo que surge, eles escrevem notas de repúdio, mas seguem colaborando com o veículo, o que seria minimamente estranho em outros tempos, tempos em que os intelectuais assumiam uma posição ativa diante dos descalabros impostos pelo poder hegemônico.

Para o historiador Enzo Traverso, a imagem do intelectual pode ser descrita pela imagem de George Orwell com um fuzil no ombro durante a Guerra Civil Espanhola, Marc Bloch durante a resistência francesa, Edward Said, eminente professor de literatura pela Universidade de Columbia, lançando pedras contra os postos de controle israelenses na fronteira com o Líbano. Em suas palavras: “Na história do século XX, a noção de intelectual não pode estar dissociada do compromisso político”.

Bem, já não estamos no século XX, e a figura do intelectual perde força, é passiva e banhada por todos os signos do neoliberalismo, até mesmo aqueles que se dizem radicais.

No dia 19 de janeiro, mais de 180 jornalistas da Folha, incluindo colunistas, assinaram uma carta direcionada ao conselho editorial. Nela rechaçam o artigo de Risério e a linha que o jornal vem adotando nos últimos tempos. No entanto, cabe uma reflexão mais importante: notas de repúdio são suficientes? Seguir em um veículo de imprensa permissivo com tudo o que há de mais nefasto é válido? Retirar-se quando já não há concordância não é digno? Quem são os verdadeiros intelectuais da sociedade brasileira atual?

Já não temos total clareza. O que sabemos é que não podemos deixar morrer a intelectualidade que não se vende, essa simbolizada por Benjamin, Said, Césaire e tantos outros, que perderam muito, mas mantiveram os princípios daqueles que escrevem buscando verdadeiramente mudanças sociais.

Bibliografia

https://drive.google.com/drive/my-drive

https://revistaforum.com.br/brasil/texto-machista-gordofobico-folha-marilia-mendonca-repudio/

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/jornalistas-folha-detonam-artigo/

https://jornalggn.com.br/opiniao/o-que-restou-da-intelectualidade-por-camila-koenigstein/

Camila Koenigstein – Graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica – SP e pós graduada em Sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Política – SP. Atualmente faz Mestrado em Ciências Sociais, com ênfase em América Latina y Caribe pela Universidade de Buenos Aires (UBA). Colaboradora da Agência latino América de información e do Jornal Resumen latinoamericano. Colunista do Jornal GGN, portal de notícias Pragmatismo Político.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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