Paulo Santos evoca sons da floresta e a nossa ancestralidade, por Arnaldo Cardoso

O evento com Paulo Santos deve ser percebido num benfazejo contexto de reconstrução da cena cultural brasileira

Paulo Santos evoca sons da floresta e a nossa ancestralidade

por Arnaldo Cardoso

Com extraordinária beleza e força, os sons emanados da pluralidade de instrumentos tocados com maestria e criatividade pelo multi-instrumentalista Paulo Santos acompanhado por Josefina Cerqueira e Daniel Nunes, no palco do teatro Anchieta do Sesc Consolação, na última terça-feira (25), ao evocar os sons da floresta e nossa ancestralidade, arrebatou a plateia com uma obra de arte completa.

Mesmo antes do artista contar para a plateia o contexto no qual foi desenvolvido seu álbum Chama –o do confinamento exigido pela pandemia do coronavírus que, concomitante à escalada autoritária e destrutiva do governo Bolsonaro (nome não pronunciado pelo artista) provocou horror e sensação de impotência diante de violências como a expressa na fala de quem deveria cuidar do meio ambiente mas propunha “passar a boiada” –, o apelo político contra o desmatamento e em favor dos povos originários ecoava entre os presentes, dado ao poder evocativo de imagens que aquele orquestrado encontro de sons desencadeou.

Como informa o site do Sesc “Lançado pelo selo Sesc, o disco [Chama] é dedicado à temática ambiental com referências ao alarmante ritmo de destruição dos biomas brasileiros, em especial a floresta amazônica”.

Completando o evento apoiado pelo Sesc, uma Masterclass foi oferecida no dia seguinte, na qual Paulo Santos contou sobre sua carreira e compartilhou descobertas na experimentação com novos instrumentos. A atividade interativa com o público tira a arte do lugar da sublimação, deslocando o problema refletido por Nietzsche e Freud, para o plano do fazer, da ação educativa dos sentidos e de seus potenciais impactos.

Reconstrução da cena cultural

O evento com Paulo Santos deve ser percebido num benfazejo contexto de reconstrução da cena cultural brasileira que, desde a recriação em janeiro do Minc (Ministério da Cultura) atualmente conduzido pela ministra Margareth Menezes, tem reavivado as artes no país e estimulado projetos onde arte e educação se integram para o fortalecimento da cidadania com diversidade e liberdade.

Nesse sentido, merece nota a atual programação do MAR (Museu de Arte do Rio) cuja principal exposição apresenta elementos do processo de criação do livro “Um defeito de cor”, da escritora Ana Maria Gonçalves, trazendo uma belíssima pesquisa sobre a ancestralidade africana de nosso povo. Outra notável exposição é “Carolina Maria de Jesus – Um Brasil para os brasileiros” sobre a escritora brasileira cujo livro “Quarto de despejo” já foi traduzido para doze idiomas. Sobre essa exposição, anteriormente abrigada pelo IMS de São Paulo publiquei artigo neste Jornal GGN (https://jornalggn.com.br/luisnassif/maria-carolina-de-jesus-deu-voz-ao-sentimento-do-absurdo-por-arnaldo-cardoso/ )

O MAR tem como parte de sua estrutura regular a Escola do Olhar que é “um polo de pensamento e de formação permanentes, voltado especialmente para a prática e a reflexão a partir das relações entre educação e arte”.

Outro equipamento cultural do estado do Rio de Janeiro, o MAC (Museu de Arte Moderna) de Niterói, em seu belo prédio projetado por Oscar Niemeyer, conta em sua atual programação com a exposição “Invasão: A arte da democracia” que reúne obras dos artistas Frans Krajcberg e Athos Bulcão, que tiveram seus trabalhos vandalizados na invasão do dia 8 de janeiro de 2023 às sedes dos Três Poderes em Brasília. A exposição propõe uma reflexão sobre memória, patrimônio e democracia.

E em Paraty, pouco antes da cidade abrigar mais uma edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) o Sesc abriga a exposição de pinturas “Retratos e Relatos, subvertendo a dor” de Panmela Castro que põe em foco as violências de gênero perpetradas sob a sombra do patriarcalismo.   A artista realizou um processo de escuta junto a dez mulheres e sintetizou suas histórias através da pintura, com o intuito de difundir uma cultura de direitos.

E tem crescido a expectativa em torno da 35ª Bienal de Artes de São Paulo, intitulada Coreografias do Impossível, a ser aberta em setembro e que conta com a excepcional curadoria de Diane Lima, Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel. Sobre Grada Kilomba, artista multidisciplinar cuja obra mundialmente conhecida problematiza o colonialismo, o patriarcado e o racismo, o público brasileiro já teve oportunidade de conhecer seu trabalho na Bienal de 2016 e em exposição na Pinacoteca de São Paulo. Neste Jornal GGN publiquei artigo sobre a artista (https://jornalggn.com.br/direitos-humanos/a-violencia-so-sera-interrompida-se-varias-vozes-e-corpos-contarem-a-sua-historia-diz-grada-kilomba/ ). 

A arte nos salva

Saindo do espetáculo musical de Paulo Santos ainda reverberando aqueles sons e emoções compartilhados com a amiga Carolina Marchiori, economista, professora e Assessora de Advocacy em assuntos de Economia Verde (IDS). lembramos da avaliação de que “A arte nos salva” e reconhecemos aliviados que às artes no Brasil estão sendo restituídos os espaços, apoios e o legítimo reconhecimento de seu papel para pôr em curso as transformações no plano da cultura, tão necessárias para o desenvolvimento democrático, plural e justo de nossa sociedade.

Arnaldo Francisco Cardoso, sociólogo e cientista político (PUC-SP), escritor e professor universitário

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