O cinegrafista e a liberdade de imprensa

                                                                                                                                                                                                                           Por Sergio da Motta e Albuquerque

 

Muitos jornalistas e órgãos de classe de profissionais da imprensa entenderam o ataque contra Santiago Ilídio Andrade, o cinegrafista morto por um rojão em um protesto recente no Rio de Janeiro, como um “ataque a liberdade de imprensa”. O vice-presidente da Associação Nacional de Jornais, Francisco Mesquita Neto, disse ao periódico “O Globo” (08/02, pg.14) que o fato constitui um grave atentado “à liberdade de imprensa, ao direito da população de ser livremente informada e ao cidadão de exercer sua profissão”.

O delegado do caso, Maurício Luciano de Almeida (17ªDP) desmentiu este argumento: o rojão foi disparado contra a polícia. Que avançava contra os manifestantes. Foi quando o manifestante apontou e acendeu o artefato que matou o cinegrafista. Santiago era veterano em coberturas violentas. Aprendeu muito nos protestos de junho no Rio. E foi pego no fogo cruzado entre polícia e os manifestantes. O diário carioca também apontou também para queixas de jornalistas da grande imprensa:

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 “O fotógrafo Marco de Paula, do jornal “Estado de São Paulo” declarou que passou por ‘outro momento de tensão, na Central do Brasil’. Um integrante das mídias alternativas, todas engajadas nas manifestações, apontou um repórter de uma grande empresa e começou a chamar um grupo para agredi-lo. Houve tumulto”.

                            Mídia alternativa versus grande imprensa

Se a coisa for comprovada, vai ser uma confrontação lamentável: mídia alternativa contra grande imprensa. Há algo suspeito no ar. Não acredito que os jornalistas das grandes empresas jornalísticas ou das redes de TV sintam-se ameaçados pela nova mídia de massas popular. Mas nas ruas, tudo pode mudar quando os humores se alteram e a violência impera. Os marxistas vão dizer que há uma luta de classes entre os ativistas da mídia independente e os profissionais contratados da grande imprensa. As acusações devem ser investigadas. Alguns membros da mídia independente têm que entender a diferença entre ativismo e informação.

Examinando friamente, profissões com cinegrafista e fotógrafos de conflitos são muito perigosas, e tem visto muitas baixas entre seus membros pelo mundo afora. Robert Capa, o fotógrafo genial dos anos de 1940 e 50, morreu ao pisar numa mina enquanto cobria o conflito na então chamada Indochina no dia 25 de maio de 1954 em Thai-Binh. No Vietnã, muitos cinegrafistas foram mortos em ambos os lados. Em todo conflito no planeta, eles são os primeiros a dar seu sangue no exercício da profissão que  tanto amam.

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                                     Uma profissão perigosa

Eu tenho um enorme respeito por esses profissionais que trabalham no centro de conflitos violentos. Ao fazê-lo, ficam cegos como o rei João I da Boêmia. Que foi conduzido ao centro da batalha de Crécy (1346) por seus cavaleiros mais valiosos. Eles tombaram ali, ao lado de seu rei cego.

O cinegrafista é um profissional que desafia indefeso o perigo. Sua atenção está totalmente voltada para a próxima cena. Ele não vê muito bem o que se passa perto dele. Ele precisa de maior proteção pessoal e equipamentos de proteção como capacetes e coletes à prova de balas. Esta é a realidade para quem cobre protestos hoje em dia, seja o profissional de qualquer mídia; é preciso saber se defender e contar com o apoio de gente nas ruas.  Os protestos não irão embora porque são derivados de manifestações legítimas. Que não podem ser usadas para abusos e atos de terrorismo.

O fogueteiro letal tirou uma vida preciosa e vai ter o que merece. Pelo menos eu espero que sim. Mas ignorar a nova face brutal dos protestos no mundo contemporâneo é ignorar a História recente. Os black blocs e ativistas radicais são parte do nosso dia a dia. Eles não vão embora porque a sociedade não gosta deles. Pelo contrário. Eles vão continuar por causa disso.

 

 

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