2 de setembro de 2026

Pacientes chegavam ao consultório achando que tinham uma síndrome criada por Augusto Cury, revela psiquatra à TV GGN

Psiquiatra Elisa Brietzke questiona conceitos difundidos pelo escritor e alerta para os riscos da desinformação em saúde

Antes mesmo de as redes sociais transformarem a saúde em terreno fértil para diagnósticos feitos por conta própria, os livros de Augusto Cury já chegavam aos consultórios médicos. E, em alguns casos, chegavam junto com os pacientes.

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A psiquiatra brasileira Elisa Brietzke, professora do Departamento de Psiquiatria da Queen’s University, no Canadá, conta, em entrevista ao programa ‘TVGGN 20H’ desta terça (1º/9), que era comum receber pessoas convencidas de que seus sintomas não eram depressão ou transtorno bipolar, mas a chamada “síndrome do pensamento acelerado”, conceito criado e popularizado por Cury.

“Ele tem o seu registro no CRM, como eu, como todos os colegas, ele tem o que a gente chama de registro de qualificação de especialista, o RQE, mas ele se dedica, principalmente, depois de 2010, a escrever livros que ganharam a alcunha de ‘livros de autoajuda’. A gente pode até conversar até que ponto isso é correto ou não, mas do ponto de vista do conteúdo desses livros, ele tem afirmações que são bastante problemáticas, na minha opinião, por não serem embasadas cientificamente no melhor conhecimento, na melhor evidência científica disponível.”

O fenômeno que chegou às casas

A popularidade de Cury não nasceu com as redes sociais, foi construída pelos livros de autoajuda e por uma estratégia de distribuição que levou suas obras diretamente às casas de milhares de brasileiros. Os livros passaram a ser vendidos por consultoras da Avon, aproveitando a extensa rede de revendedoras da empresa. A estratégia ajudou a espalhar as obras por diferentes regiões do país, especialmente Norte e Nordeste, a preços acessíveis.

A estratégia ganhou força em um país onde o acesso à saúde mental ainda é limitado. Segundo a OMS, entre 70% e 80% das pessoas com problemas psiquiátricos comuns, como depressão, nunca chegam a um profissional.

“Os livros do Augusto Cury foram, inclusive, dos primeiros produtos que a Avon começou a vender que não eram cosméticos. Então, você tinha uma capilaridade enorme. Aí bate uma pessoa na sua casa te oferecendo um livro que, de alguma forma, propõe ou promete algum conforto emocional. As pessoas se atiravam nisso”, afirma Elisa.

Para a psiquiatra, a imprensa também teve responsabilidade ao não fazer o contraponto necessário naquele período. “Pessoas como Augusto Cury, como o Lair Ribeiro, surfaram muito livres. Eles surfaram sem a imprensa fazer contraponto algum”.

Da autoajuda à política

A trajetória de Cury ganhou outro capítulo por volta de 2017. Segundo Elisa, o escritor, que se declarava ateu, afirmou ter se convertido ao cristianismo e publicou um livro sobre a mente de Jesus.“Eu posso estar especulando aqui com você, mas acho que isso pode ter tido a ver com esse momento dos livros, da ascensão dos chamados livros devocionais.”

Agora, a entrada de Cury na política acrescenta outra camada à trajetória pública do escritor. Elisa questiona se a candidatura representa um projeto político ou uma estratégia para recuperar espaço no mercado editorial. “Eu fico até em dúvida se essa candidatura vem a partir de um desejo real de fazer parte da vida política ou se isso é uma estratégia para voltar a vender.”

Durante a entrevista, o jornalista Luis Nassif comparou o movimento à trajetória do coach Pablo Marçal, em que a exposição política também se transforma em instrumento de projeção pessoal.

Tecnologia sem esquecer o básico

A entrevista também abordou propostas de automação e telemedicina associadas a Cury. Elisa reconhece o potencial dessas ferramentas, sobretudo para levar especialistas a regiões onde eles não estão disponíveis, mas faz uma ressalva: tecnologia não resolve sozinha problemas estruturais.

“Às vezes, eu acho que se parte para soluções mirabolantes sem fazer o básico, sem pensar como que a gente vai melhorar o SUS, como que a gente vai investir numa estratégia de saúde da família, como que vai melhorar o acesso a especialista.”

Vale lembrar que a pandemia de Covid-19 mostrou o tamanho que a desinformação em saúde pode alcançar, com médicos que passaram a divulgar conteúdos sobre “desvacinação” e a incentivar medicamentos inapropriados.

Para a psiquiatra, a responsabilidade de um médico não termina quando ele deixa o consultório. A autoridade profissional também pesa quando se fala em livros, cursos ou redes sociais. “Eu não posso usar minha autoridade de médica e começar a escrever um livro ou fazer um curso ou criar um perfil numa rede social e disseminar informações que não são cientificamente validadas ou que são grosseiramente exageradas.”

Assista a um trecho da entrevista pelo link abaixo:

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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