21 de maio de 2026

Entre a disputa eleitoral e a pressão sobre o STF, por Paes de Sousa & Avritzer

Um período de elevada incerteza, onde a dinâmica eleitoral, a possível delação de Vorcaro e as tensões entre instituições se retroalimentam.
Foto de Joedson Alves - Agência Brasil

Prazo para desincompatibilização e delação de Vorcaro marcam as próximas duas semanas na política brasileira.
Ratinho Jr. surge como terceira via eleitoral, enquanto Flávio Bolsonaro ganha intenção de votos.
STF enfrenta pressões internas e externas, com ministros sob desgaste e tensão institucional crescente.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Entre a disputa eleitoral e a pressão sobre o STF: um teste crítico para a estabilidade do Estado brasileiro

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por Rômulo Paes de Sousa e Leonardo Avritzer

As próximas duas semanas estarão condicionada por um fato de ampla relevância política: o a aguardada delação de Vorcaro.

A delação que Vorcaro pretende que seja superpremiada aterroriza o Congresso, preocupa o Palácio do Planalto, incensa a Polícia Federal e revela um Supremo Tribunal Federal (STF) em seu maior nível de fragilidade, em décadas. Apenas parece ter entusiasmo uma mídia corporativa que acredita poder controlar a relação entre delação e vazamentos seletivos. Na última semana, o STF esteve sob fortes tensões internas quanto a natureza de sua atuação, que possuem forte impacto político e social.

O STF tem sido pressionado por diferentes frentes: críticas à sua atuação investigativa, questionamentos éticos envolvendo ministros e disputas institucionais com o Legislativo. Ao mesmo tempo, a Corte mantém forte protagonismo na definição de agendas estruturais do país, consolidando-se como ator central no cenário político brasileiro contemporâneo.

Pelo menos quatro dos dez ministros do Supremo estão sob a mira, ainda que por razões distintas das editorias de política. Os ministros Toffoli e Alexandre de Moraes já estavam sob ataque, desde os primeiros momentos do ocaso de Daniel Vorcaro. A semana que passou, teve o filho do ministro Kassio Nunes exposto, por contratação duvidosa, e o ministro Gilmar Mendes criticado pelo seu voto garantista quanto a prisão preventiva de Vorcaro e seu operador. Ainda assim, quando observamos os dados da pesquisa AtlasIntel sobre o nível de confiança em ministros do STF, percebemos três niveis distintos de desgaste de imagem, com Dias Toffoli liderando a categoria com 81% de respondentes declarando ter uma imagem negativa. Alexandre de Moraes, supostamente envolvido no escândalo master, que apresenta alto desgaste (59% de percepção negativa segundo a AtlasIntel), mas contando ainda com 37% de imagem positiva, nível próximo a Flávio Dino e Carmen Lúcia. Assim, é importante diferenciar os níveis de desgaste experimentados pelos ministros.

No momento, André Mendonça é o ministro mais bem avaliado do STF devido à suas ações no escândalo Banco Master e ao fato de ele ter sido poupado pela mídia corporativa. Ele apresentou 43% de imagem positiva no levantamento AtlasIntel. A questão é: como ele se comportará, quando a delação de Vorcaro chegar aos membros e apoiadores do governo Bolsonaro e a imprensa não puder subestimar o fato? Afinal, por que o homem que, com dinheiro, sexo e violência, queria submeter o Brasil pouparia o setor político mais afinado com estes temas? Na semana que passou, quando os vazamentos atingiram o bolsonarismo e o Centrão, ele decretou sigilo demandado por outros ministros do STF.

Neste momento de desarranjo institucional, é de se esperar que:

  1. A Polícia Federal conduza uma delação em que Vorcaro não comande o espetáculo, fazendo uma delação seletiva; 
  2. O STF recupere a unidade básica para dar funcionalidade em seu papel de árbitro dos conflitos sociais que ameaçam a Constituição, sem o qual a corte caminhará para um enfrentamento fraticida tal como o voto de Gilmar Mendes com críticas a André Mendonça no pedido de suspensão da prisão de Vorcaro parece ter anunciado;
  3. O Congresso encerre a CPI do INSS, que perdeu seu objeto ao buscar os holofotes proporcionados pelo escândalo do Banco Master, e se concentre nas agendas que interessam ao bem-estar da população,
  4. E o Executivo realize as substituições relativas aos que irão para a disputa eleitoral e continuem em suas entregas de políticas públicas.

O país ingressa em um período de elevada incerteza, no qual a dinâmica eleitoral, a possível delação de Daniel Vorcaro e as tensões entre instituições tendem a se retroalimentar. O escrutínio crescente sobre o Supremo Tribunal Federal e a expectativa em torno de revelações com potencial disruptivo cria um ambiente de instabilidade. A capacidade das instituições de conter excessos, evitar instrumentalizações e preservar sua legitimidade será decisiva para impedir uma escalada de crise. O componente mais importante é a forma como Polícia Federal, Congresso, Judiciário e Executivo reagirão a esses fatos. É esse manejo institucional que definirá se o país atravessará esse momento como um ajuste turbulento, porém funcional, ou como mais um episódio de deterioração institucional.rá se o país atravessará esse momento como um ajuste turbulento, porém funcional, ou como mais um episódio de deterioração institucional.

Rômulo Paes de Sousa é coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

Leonardo Avritzer é cientista político e professor aposentado da UFMG.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Leonardo Avritzer

Leonardo Avritzer – Cientista político, escritor, pesquisador e professor universitário brasileiro. Considerado um dos maiores politólogos do Brasil na atualidade, graduou-se na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), procedendo ao doutorado na New School for Social Research e, posteriormente, ao pós-doutorado em Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

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2 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    25 de março de 2026 12:57 pm

    De acordo com artigo publicado na Folha de São Paulo:

    “Pessoas próximas a Vorcaro chegaram a indicar a autoridade que o ex-banqueiro não estaria disposto a envolver magistrados do STF na sua delação. Isso desagradou os investigadores. Por fim, advogados do ex-banqueiro afirmaram a autoridades que ele não pouparia ninguém, o que destravou a negociação na sua etapa inicial”.

    https://averdade.org.br/wp-content/uploads/2022/01/2a97b242-cinco-dificuldades-no-escrever-a-verdade.pdf

    Porque a Folha não dá nome a pelo menos uma das pessoas próximas a Vorcaro que chegou a indicar a autoridades que o ex-banqueiro não estaria disposto a envolver magistrados do STF na sua delação?

    Vorcaro não pode fazer nada que desagrade aos investigadores, ao contrário, tem que fazer apenas o que agrada aos tais investigadores. Alia´s, que investigadores são desses que dependem de delação para concluírem suas investigações?

    O Vorcaro vai terminar comendo pizza tamanho família com o Nikolas, o Rueda e o Ciro Nogueira, entre outros santos do pau oco.

  2. Rui Ribeiro

    25 de março de 2026 2:08 pm

    “Advogados abandonam defesa de Zettel, cunhado de Vorcaro, e abrem caminho para delação”

    Pelo andar da carruagem, haverá mais delatores do que delatados. Se todos forem premiados em decorrência de suas delações, principalmente os Chefes, que foram os maiores beneficiários dos produtos dos crimes da quadrilha, tudo terminará em pizza.

    Ou então teremos delatores dedurando delatores.

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