21 de maio de 2026

A França em Colapso Silencioso, por Maria Luiza Falcão

Não é apenas mais uma turbulência parlamentar, mas o colapso de um modelo de governança que já não responde às demandas de seu povo.
Reprodução

A França em Colapso Silencioso

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por Maria Luiza Falcão Silva

A França da Liberdade, Igualdade e Fraternidade

A França, berço da liberté, égalité, fraternité, foi por séculos a bússola moral e intelectual do Ocidente. De suas revoluções nasceram valores universais de cidadania e direitos humanos; de seus cafés e praças, ideias que moldaram o mundo moderno.

Hoje, o país que inspirou democracias e movimentos sociais em todos os continentes mergulha em uma crise que corrói o coração de sua identidade. A promessa de liberdade convive com o medo social; a igualdade cede espaço à desigualdade crescente; e a fraternidade, antes orgulho nacional, se dilui na polarização e no desencanto.

Um país à deriva

A França vive um momento de esgotamento político, econômico e simbólico. Não é apenas mais uma turbulência parlamentar, mas o colapso de um modelo de governança que já não responde às demandas de seu povo.

O país que outrora se via como a alma da Europa hoje parece caminhar sem direção. Enquanto o desemprego e o custo de vida aumentam, o Estado se mostra incapaz de oferecer respostas consistentes. Preso a uma Assembleia fragmentada e a coalizões frágeis, o governo alterna promessas e renúncias. A cada novo gabinete, renova-se a mesma sensação de paralisia: a França se acostumou a ver “governos que caem antes de começar.”

Paris, que sempre simbolizou o esplendor europeu, hoje dá sinais de cansaço. O Champs-Élysées, antes sinônimo de elegância e prosperidade, exibe fachadas fechadas, vitrines abandonadas e turistas menos deslumbrados. O comércio definha sob o peso de um consumo enfraquecido, aluguéis impagáveis e uma economia que simplesmente não reage.

A França vive o que os economistas chamam de crescimento rastejante — expansão quase nula em 2025 —, estagnação da produtividade, endividamento crescente e déficits fiscais acima do limite europeu. A economia francesa, antes sustentada pelo vigor industrial e pelo consumo interno, hoje se apoia em bases frágeis: serviços precários, turismo em retração e um Estado sem fôlego fiscal para impulsionar o investimento. Economistas alertam que apenas reformas profundas podem romper esse ciclo.”

O mal-estar de uma sociedade exausta

A lentidão econômica é apenas o reflexo de um mal-estar mais vasto. Há anos a sociedade francesa se mostra saturada de promessas quebradas e reformas que, sob o pretexto de “modernizar”, resultaram em perda de direitos, desemprego disfarçado e desvalorização do trabalho.

A juventude — outrora motor da inovação e do pensamento crítico — agora se vê desiludida, com empregos temporários, renda instável e aluguel impossível. As periferias vivem uma tensão permanente, alimentada por desigualdades raciais, econômicas e geográficas.

É nesse contexto que as forças de esquerda retomam fôlego, com sindicatos nas ruas, greves em setores estratégicos e um discurso que volta a falar de justiça social, redistribuição e dignidade.

Ao mesmo tempo, o desencanto generalizado abre espaço para o crescimento da extrema-direita, que explora o medo, a nostalgia e a frustração de uma classe média que já não acredita em promessas europeias.

Macron e o fim do centrismo encantado

O presidente Emmanuel Macron, que chegou ao poder como o símbolo de uma nova política — moderna, liberal e tecnocrática —, agora encarna o oposto: um governante isolado, sem base, sem narrativa e sem aliados sólidos.

Sua aposta no chamado “centrismo racional” revelou-se um equívoco de época. Macron imaginou que poderia pairar acima das ideologias, conciliando capital e trabalho, mercado e Estado, Europa e soberania. O resultado foi um impasse: perdeu o apoio da esquerda, foi abandonado pela direita tradicional e enfrenta uma Assembleia Nacional fragmentada que não lhe concede estabilidade.

Os episódios recentes — como a renúncia relâmpago de Sébastien Lecornu, primeiro-ministro que durou menos de um dia — expuseram a fragilidade de um poder que já não governa, apenas sobrevive.

A renúncia de Lecornu — o quarto primeiro-ministro a deixar o cargo em menos de um ano — revelou um padrão de colapso que já se tornou familiar. A França se acostumou a ver governos que caem antes de começar. Cada novo gabinete assume sem maioria parlamentar, enfrenta resistência imediata e perde legitimidade antes mesmo de governar. O país vive um ciclo de coalizões frágeis e derrotas prematuras, reflexo de uma República que ainda concentra poder no presidente, mas já não consegue converter esse poder em estabilidade.

A Europa observa, apreensiva

A crise francesa tem implicações que vão além de Paris. Como segunda maior economia da zona do euro e uma das principais forças diplomáticas da União Europeia, a instabilidade política e fiscal da França ameaça o próprio equilíbrio do continente.

Os mercados já reagiram: aumento dos juros dos títulos franceses, queda da confiança dos investidores e alertas das agências de risco sobre a sustentabilidade da dívida.

Internamente, o governo tenta aplicar cortes orçamentários para conter o déficit, mas enfrenta protestos e paralisações que lembram os “coletes amarelos” de 2018 — um movimento que pode ressurgir a qualquer momento.

Na esfera internacional, a França também perde protagonismo. Enfraquecida, já não lidera debates estratégicos na União Europeia e vê sua influência diminuir na África e no Oriente Médio, onde antes exercia um papel decisivo. A Alemanha olha com preocupação e o eixo franco-alemão, pilar da integração europeia, dá sinais de esgotamento.

O país que já não se reconhece

O que mais impressiona na crise francesa não é a violência das disputas partidárias, mas a sensação de esvaziamento. As ruas de Paris, antes fervilhantes de cultura, ideias e vanguardas, hoje refletem um clima de desalento coletivo. O fechamento de lojas na Champs-Élysées é metáfora perfeita: o símbolo da abundância virou vitrine do declínio.

As praças que um dia celebraram a Revolução agora ecoam o murmúrio de um povo que perdeu a fé no futuro.

O modelo francês, que durante décadas inspirou o mundo com seu Estado de bem-estar e sua economia mista, parece ter perdido o rumo. Nem liberal nem social, nem central nem periférico, ele vaga entre contradições que o paralisam.

Enquanto isso, o país assiste a um presidente que se multiplica em discursos, mas se ausenta das ruas, incapaz de compreender a gravidade da desconexão entre o Palácio do Eliseu e o cotidiano da população.

O tempo das reconstruções

Toda crise carrega uma semente de recomeço. A França ainda é uma potência cultural, científica e moral, e guarda em sua história a capacidade de reinventar-se. Mas, para tanto, será preciso reconhecer que o modelo de poder personalista e tecnocrático se esgotou.

O novo ciclo — seja ele conduzido por uma esquerda renovada ou por uma coalizão democrática mais ampla — terá de enfrentar três desafios simultâneos: recuperar o dinamismo produtivo, restaurar a coesão social e reconstruir a confiança institucional.

A França precisa voltar a falar de justiça, solidariedade e futuro — não apenas de juros, déficits e austeridade. E Emmanuel Macron, se quiser deixar algo além de uma biografia de colapsos, precisará entender que governar é escutar, e que nenhum poder resiste quando perde o coração do seu povo.

Maria Luiza Falcão SilvaMSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    7 de outubro de 2025 3:51 pm

    Macron é um produto do neoliberalismo. O prazo de validade dele terminou. Mas o neoliberalismo não chegará ao fim com a esquerda (caso do Syriza na Grécia) nem com a extrema direita (Meloni na Italia, Trump nos EUA). Só uma guerra nuclear livrará o mundo do neoliberalismo… e da humanidade também.

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