24 de julho de 2026

Seguindo a tradição, PCO sai em defesa das bets (2), por Francisco Ladeira

A busca do PCO por engajamento junto à extrema direita baseia-se em um fenômeno chamado de “assimilação discursiva”.
Reprodução

PCO defendeu apostas online na Copa, vinculando lucro do partido a anúncios no Diário Causa Operária.
O partido criou falsas dicotomias entre bets e inimigos como Globo e sistema financeiro.
Rui Costa Pimenta justificou propagandas de apostas, ignorando pesquisas sobre endividamento.

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Seguindo a tradição, PCO sai em defesa das bets – parte 2

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por Francisco Fernandes Ladeira

Nas últimas edições da Copa do Mundo, o Partido da Causa Operária (PCO) chamou a atenção no debate público pela histérica apologia ao jogador Neymar. Um dos objetivos dessa empreitada é atrair indivíduos de extrema direita, principal público que consome as publicações do partido nas redes sociais, a partir de frases como “não aguento mais concordar com o PCO” e “sou de direita, mas o PCO tem meu respeito”.

No Mundial recém-terminado, o partido acrescentou outra obsessão ao seu repertório grotesco: a defesa das bets, as apostas online. Diferentemente do endeusamento do Menino Ney, a defesa das bets gera lucro direto ao PCO, uma vez que há anúncios de apostas online na página do veículo de imprensa do partido, o Diário Causa Operária (DCO). Aliás, não há “causa operária” nenhuma.

Nessa lógica, nos últimos dias, foram publicadas várias matérias e produzidos artigos de opinião no DCO em defesa das apostas online. A estratégia discursiva para defender o indefensável é criar falsas dicotomias entre bets e um inimigo repugnante, como o Grupo Globo ou o capital financeiro. Para qualquer cidadão pensante, isso é apenas um delírio; mas para os militantes do PCO tratam-se de verdades absolutas, uma vez que refletem a “posição iluminada” do presidente do partido, Rui Costa Pimenta.

Em texto assinado por Gabriel Araújo, as plataformas digitais de apostas são apresentadas como “novo fantoche para desviar o foco da agenda política do país do enfrentamento ao imperialismo e do combate ao parasitismo dos grandes monopólios do sistema financeiro nacional e internacional”. Ou seja, propõe-se a dicotomia entre bets e sistema financeiro, numa espécie de torcida por um dos lados. Um debate extremamente pueril.

Outro texto, não assinado (na prática, isso significa aquilo que o presidente do partido pensa), insinua que as bets são perseguidas pela CIA e pelos banqueiros. A mesma estratégia discursiva que o PCO utilizou para alegar que Bolsonaro é “perseguido pelo sistema”. Fora do mundo maniqueísta, é possível ser contra a CIA, os banqueiros e as bets ao mesmo tempo.

Já na “Análise Política da Semana”, equivalente do PCO ao cercadinho bolsonarista, Rui Costa Pimenta defendeu os jogadores da seleção brasileira que fazem propagandas de apostas online, afirmando ser “uma coisa normal” e “só uma oportunidade de ganhar dinheiro”. Não importa se várias pesquisas apontam para o endividamento de milhões de brasileiros por causa das bets. Tal como o bolsonarismo, para o PCO “estudos científicos” não possuem nenhum valor.

Por fim, o texto “Que fiquem as Bets, que a Globo vá embora”, também sem autoria, traz o argumento de que as ofensivas contra as apostas online são uma campanha contra a população pobre. Só faltam dizer que a revolução do proletariado será liderada pelas bets.

Como bem apontou o professor Guilherme Howes, em vídeo no Canal “Chimarrão Marxista”, a busca do PCO por engajamento junto à extrema direita baseia-se em um fenômeno chamado de “assimilação discursiva”. Incapaz de atrair a classe trabalhadora, de unir a teoria à prática concreta do movimento operário e de construir uma relevância teórica ou política no seio da própria esquerda, o partido recorre à criação de polêmicas artificiais, defesas controversas e acenos a pautas bolsonaristas ou libertárias. Trata-se da estratégia pautada pelo lema “falem mal, mas falem de mim”.

A diferença é que nomes como Olavo de Carvalho se assumiam enquanto direitistas, enquanto o PCO ainda se vende sob a máscara de ser ideologicamente à esquerda.

***

Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV)

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