O mundo não é um jogo, a história não é um conto
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Com várias adaptações para o cinema, “Children of the Corn” é um conto de Stepehen King publicado originalmente em 1977. A obra é resumida assim na Wikipedia (original em inglês):
“Burt e Vicky, um casal disfuncional, estão dirigindo por uma área rural do Nebraska quando atropelam acidentalmente um menino que sai correndo de um milharal para a estrada. Ao examinar o corpo, Burt descobre que a garganta do menino já havia sido cortada, e que a mala dele continha apenas algumas roupas e um crucifixo feito de palha de milho. Burt e Vicky concordam em denunciar o incidente à polícia em Gatlin, a cidade mais próxima, e colocam o corpo no porta-malas do carro.
Ao chegarem, Burt e Vicky encontram Gatlin deserta. Comércios locais abandonados exibem preços e calendários desatualizados em mais de uma década, e o carro do casal é o único funcionando. O único som que Burt e Vicky ouvem é o riso distante de crianças. Incomodada com o silêncio sinistro, Vicky exige que eles vão embora, mas Burt insiste em continuar sua busca por alguma autoridade. Após uma discussão acalorada com Vicky, Burt pega as chaves do carro dela e entra em uma igreja bem conservada.
Dentro da igreja, Burt encontra as teclas e as tampas do órgão de tubos arrancadas e os tubos entupidos com palha de milho. Ele também encontra uma Bíblia King James com várias páginas arrancadas do Novo Testamento, além de um livro de registros com os nascimentos e mortes de várias pessoas. Burt percebe que, há 12 anos, as crianças de Gatlin mataram os adultos da cidade e, desde então, ninguém na cidade sobreviveu aos 19 anos.
Vicky começa a buzinar do carro do lado de fora. Burt corre para fora e encontra o carro cercado por crianças e adolescentes vestidos com roupas no estilo Amish e armados com ferramentas agrícolas. Eles destroem o carro e arrastam Vicky para fora. Burt tenta intervir, mas se distrai se defendendo antes de perceber que Vicky sumiu. As crianças então perseguem Burt até que ele as despista, escondendo-se em um milharal vazio.
Ao pôr do sol, Burt vagueia até descobrir o corpo de Vicky amarrado a uma cruz com arame farpado, seus olhos arrancados e substituídos por fios de cabelo de milho, e sua boca recheada com palha de milho. Ele também vê os esqueletos crucificados do pastor e do chefe de polícia de Gatlin. Após essa descoberta, Burt se vê encurralado pelas fileiras do milharal que se fecham sobre ele e logo é morto por “Aquele Que Caminha Atrás das Fileiras”, uma entidade que habita os milharais ao redor da cidade. Pouco depois, uma lua cheia surge no céu.
No dia seguinte, as crianças de Gatlin se reúnem. Como “Aquele Que Caminha Atrás das Fileiras” está descontente por elas não terem conseguido matar Burt, ele as pune reduzindo a “idade de graça” para 18 anos e ordena que “sejam fecundas e se multipliquem”. Naquela noite, todos os jovens de 18 anos entram no milharal e desaparecem. A história termina dizendo que o milharal ao redor de Gatlin está satisfeito.”
Essa é uma história de terror opressiva por dois motivos. Ninguém sabe exatamente quem ou o que é “Aquele Que Caminha Atrás das Fileiras”. O autor não dá nenhuma pista sobre como esse personagem chegou a Gatlin e o que ele fez para corromper as crianças para convencê-las a matar seus pais e os outros adultos. A tragédia sem início e o suspense sem resolução tem um grande efeito. Ao terminar de ler o conto o leitor fica só com seus temores e dúvidas.
Décadas depois, as dúvidas e temores que dominam a realidade são muito diferentes daquelas presentes em “Children of the Corn”. A insegurança generalizada está associada a popularização da tecnologia de IA e a incorporação dela em robôs humanoides. Isso tende a aumentar o desemprego e a exclusão econômica.
Carreiras profissionais já estão sendo interrompidas ou, no mínimo, profundamente perturbadas. Diplomas universitários obtidos com grande esforço e despesa subitamente se tornaram ou podem se tornar irrelevantes. Nos países ricos as gerações mais novas parecem ter consciência de que não terão as mesmas oportunidades ou direitos que seus pais. Bolsões de miséria já podem ser vistos ao redor das grandes cidades do hemisfério norte. Crianças passam fome nos EUA. Arrastões organizados por adolescentes pobres e desesperados na Inglaterra.
Os estragos psicológicos e pedagógicos criados pelos algoritmos de redes sociais em todos os países, inclusive no Brasil, tem sido objeto de estudo e denúncia. Reféns das novas tecnologias, os Estados oscilam entre tentar regular seu uso e financiar o desenvolvimento de algo que reforça as possibilidades de vigilância e de estatística à medida que perturbam a paz social.
No conto de Stepehen King, “Aquele Que Caminha Atrás das Fileiras” pode ser um demônio ou um alienígena. A realidade não imitou a ficção, a reescreveu com características mais assustadoras. Entre nós, “Aquele Que Caminha Atrás das Fileiras” é a tecnologia de IA utilizada para matar crianças inocentes. Pressionados pela acusação de crime de guerra por causa do bombardeio contra uma escola de meninas no Irã, os militares dos EUA disseram que o alvo foi selecionado pela IA da Anthropic.
Stephen King disse que o governo Trump é muito pior do que qualquer coisa que ele tenha escrito. Ele tem razão.
A desculpa dada pelo Pentágono para tentar impedir a criminalização de um crime de guerra é esfarrapada, mas parece ter convencido a maioria dos norte-americanos. Eles não se importam nem mesmo com as crianças dos EUA que passam fome e ficarão sem creche e/ou assistência médica. Os EUA é muito grande e não pode cuidar dessas coisas, como disse Donald Trump. A China não é maior do que os EUA, mas tem cuidado muito melhor das suas crianças. Até o Irã estava tentando fazer isso até os mísseis norte-americanos começarem a despedaçar crianças iranianas nas escolas.
Ninguém mais se pergunta o que aconteceu com as crianças que cresceram nas cidades, aldeias e vilas devastadas do Iraque e do Afeganistão durante a ocupação norte-americana. As que cresceram na Síria durante a longa guerra civil financiada e fomentada pelos EUA certamente não tiveram uma existência muito melhor. Dezenas de milhares de crianças em Gaza foram mortas pelo exército israelense. Não existe milho transgênico capaz de curar os traumas causados pela guerra. Pouco importa realmente se o conflito é conduzido por tropas dos EUA ou de Israel ou contra os invasores norte-americanos e israelenses.
Gaza, Palestina e Minab, Irã, são as mais novas versões transfiguradas de Gatlin, Nebraska. Onde Donald Trump plantará mais Children of the Corn? Em Cuba, ele disse.
Na Europa, centenas de milhares de imigrantes muito desejados nos anos 2000 por causa de sua força de trabalho são agora odiados por causa de sua cor, sua língua, religião e costumes. Em alguns países, os filhos dele são tratados como se fossem alienígenas ou impuratus. Após terem sido deslocados por algumas décadas os “valores europeus” estão retornando às suas origens coloniais.
“Aquele Que Caminha Atrás das Fileiras” nos datacentes das Big Techs norte-americanas que prestam serviços ao Pentágono certamente abençoa qualquer coisa que Donald Trump decide e Pete Hegseth executa. Quando vomita respostas, a IA as vezes parece um alienígena. Ela não é um demônio, mas pode ser demoníaca nas mãos de militares que aceitam quaisquer sugestões automatizadas acerca de quem vai morrer, quando e onde com que tipo de munição.
Enquanto a guerra se expande, o comércio internacional diminui. Em breve a produção de alimentos será comprometida, os preços deles tendem a disparar. Mais fome não significará mais segurança e felicidade, por certo. Mas essas são questões irrelevantes para o rei-presidente dos EUA. Donald Trump joga outro jogo e ele não se preocupa muito com as consequências histórias de suas decisões.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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