
“O falante negocia a linguagem”.
por Letícia Sallorenzo
Ouvi essa frase do meu orientador de mestrado durante uma aula. E nunca me esqueci dela (da aula e da frase).
Trago a frase aqui para tentar mostrar o que vem acontecendo nas últimas semanas, com a iminência da condenação e prisão definitiva do Bolsonaro. E também o que vem acontecendo com este país desde, pelo menos, 2020.
Ah, “Alexandre de Moraes tornou-se radical demais. Muito duro, desmedido.” As palavras contam apenas um lado da história: a REação de um juiz a uma série de ações dos réus. É pra destacar o RE, mesmo. Juiz não age, REage.
E, do lado de lá do Xandão, não temos nenhuma Hello Kitty. Temos milicianos, que buscam coagir, intimidar, amedrontar, ameaçar e mesmo exterminar quem fica no caminho deles. Pra isso, vale de tudo – até mesmo falar que Xandão tá gordo, como o Netinho Pocotó disse na sexta-feira.
Fato é que, há muito tempo, os falantes bolsonaristas negociam muito bem a linguagem que lhes convém. Ninguém mais lembra das frases de Daniel Silveira contra ministros do STF (“O que acontece, Fachin, é que todo mundo já está cansado dessa sua cara de filho da puta que tu tem. Essa cara de vagabundo, né(…) Por várias e várias vezes já te imaginei tomando uma surra) E Silveira tornou-se um pobre coitado, perseguido político, vítima dos excessos e abusos do Xandão.
Romeu Zema chegou ao cúmulo de afirmar que “Xandão é réu (sic), vítima, juiz e acusador”. E, mais uma vez, no processo de negociação das palavras, jogam-se todos os holofotes para cima do Xandão, e nenhum em cima do que aconteceu de fato.
Sempre que se fala dos excessos do Xandão, se cala sobre o plano para assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes.
Fala-se nas velhinhas com bíblias na praça dos três poderes, e se cala sobre os kids pretos.
Fala-se em perseguição do Xandão contra o Bolsonaro, e se cala o “Sai, Alexandre de Moraes, deixa de ser canalha!” que ele vociferou naquele longínquo 7 de setembro de 2021, com aquele ambiente golpista que fungou no cangote do Brasil no 8 de janeiro e volta a fungar nos nossos cangotes via Trump, seu tarifaço e sua Magnitsky.
É a linguagem em constante negociação.
O problema dessa negociação torta é que não há uma relação de perde e ganha, mas uma escala que varia do convencimento racional à manipulação de ideias. E como “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, de tanto se repetir que Xandão é excessivo, radical, abusivo, ditador etcetcetc sem nenhum contraponto, a imagem do ministro da Suprema Corte acaba distorcida.
Não há por que se falar em excessos do Xandão. O ministro da Suprema Corte está apenas e tão somente exercendo todos os poderes que lhe confere a Constituição Federal, os códigos legais brasileiros e o Regimento Interno do STF.
Todos os réus presos estão em endereço conhecido, ao pleno alcance de seus familiares e advogados. Todos tiveram e ainda têm direito ao contraditório, ao devido processo legal. A isso dá-se o nome de Estado Democrático de Direito.
Achar que todos os que Xandão manda pra prisão devem ser imediatamente libertados porque “isso sim é justiça” é acabar com o Estado Democrático de Direito, é acabar com o devido processo legal, é permitir e ser leniente com o crime.
Achar que mandar recadinhos via imprensa vai coagir, intimidar ou mesmo fazer Alexandre de Moraes mudar de ideia não vai adiantar de nada. Nunca adiantou.
Letícia Sallorenzo é Mestra (2018) e doutoranda (2024) em Linguística pela Universidade de Brasília. Estuda e analisa processos cognitivos e discursivos de manipulação, o que inclui processos de disseminação de fake news.
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