20 de maio de 2026

O Que Não Pode Ser Dito, por Nadejda Marques

Quando as universidades e centros de pesquisa se excluem do que supostamente não pode ser dito, deslegitimam todas as outras pesquisas.
Reprodução iStock

Pesquisas em saúde pública documentam danos graves a hospitais e restrições em Gaza, afetando direitos à saúde.
Universidades de elite enfrentam pressão para silenciar estudos que denunciam impactos da ocupação em saúde palestina.
Mais de 609 profissionais de saúde palestinos foram mortos; hospitais em Gaza seguem atacados e fechados.

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O Que Não Pode Ser Dito

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por Nadejda Marques

Quando me perguntam sobre o meu trabalho em saúde pública e direitos humanos, tento explicar que faz parte das minhas pesquisas a avaliação de sistemas de saúde, a identificação de riscos possíveis e como prevenir doenças e sofrimento, sempre explicitando a responsabilidade do Estado com base no Direito Internacional. Essa metodologia não é diferente em momentos de ajuste econômicos, em caso de pandemia, ou em situações de conflito ou guerra. A documentação de abusos, de insuficiência, de barreiras estruturais, culturais ou impostas que impeçam as pessoas de realizarem o seu direito à saúde é ao que se propõe o campo da saúde pública e direitos humanos.

São essas pesquisas que nos ajudam a entender como o racismo estrutural gera desigualdades na saúde nos Estados Unidos; Como melhorar o acesso a tratamentos especializados para crianças com síndrome congênita associada à infecção pelo vírus Zika no Brasil e como diminuir os casos de incidência de tuberculose na Índia. No entanto, quando essas pesquisas denunciam que mais de 90% dos hospitais em Gaza foram destruídos ou seriamente danificados, inclusive o seu maior hospital, Al-Shifa. Quando soam o alarme porque a população sofre sem o abastecimento de alimentos, água, eletricidade e medicamentos, o rigor científico desse trabalho é minimizado e rotulado como ativismo. Exemplo disso é o fato de que há pouco mais de um ano, a Diretora do Centro FXB de Saúde e Direitos Humanos da Faculdade de Saúde Pública da Harvard, onde trabalhei por dois anos e meio implementando um projeto sobre o custo da inação, conceito desenvolvido pelo Prof. Amartya Sen, foi forçada a deixar o cargo. Mary T. Bassett foi forçada à resignação devido à forte pressão contra a posição do Centro sobre saúde e direitos humanos na Palestina e os trabalhos que documentavam o impacto da ocupação e violência militar na saúde dos palestinos.

Nesse ponto chegamos, universidades de elite que deveriam zelar pelo rigor científico e a liberdade e independência acadêmica, acabam se acovardando e ajudando a perpetuar contradições, desigualdades e injustiças para proteger o interesse de seus financiadores/doadores e de certos governos, no que se convencionou chamar de exepcionalidade palestina.  Além disso, quando as universidades e centros de pesquisa se excluem do que supostamente não pode ser dito, deslegitimam todos os outros trabalhos de pesquisa porque passam a não ser vistos como espaços independentes com princípios universais.

Enquanto isso, forças israelenses continuam a atacar o sistema de saúde em Gaza seja por ataques diretos seja por imposição de restrição nutricional e acesso a serviços de saúde. Em vigor, mantém-se várias restrições à entrega de remédios essenciais. E, apesar de o Direito Internacional Humanitário garantir proteção especial aos profissionais de saúde, hospitais e unidades médicas em situações de conflito armado proibindo, inclusive, ataques e exigindo respeito à sua função humanitária, mais de 609 profissionais da saúde foram mortos durante a ocupação e dezenas de profissionais da saúde palestinos seguem presos, inclusive o pediatra Hussam Abu Safiya.

Em dezembro de 2024, o Dr. Hussam Abu Safiya, diretor do hospital Kamal Adwan no norte de Gaza, frente a sua iminente prisão pelo exército israelense que fechava um cerco contra o hospital com escavadeiras e tanques, se recusou a abandonar seus pacientes pedindo que protegessem o sistema de saúde. Hoje, o que sobrou do hospital após tantos ataques armados está fechado. O Direito Internacional esclarece que a destruição do sistema de saúde é uma violação aos direitos humanos. A pesquisa em saúde e direitos humanos vai além e pergunta: quem são os responsáveis pela descontinuidade de tratamentos, atendimentos, internações, cirurgias? Quem são os responsáveis pelo sofrimento desnecessário, pelas doenças evitáveis e pelas mortes injustificáveis? E, quem paga pela geral inação do pacato cidadão do mundo?

Nadejda Marques é escritora e autora de vários livros dentre eles Nevertheless, They Persist: how women survive, resist and engage to succeed in Silicon Valley sobre a história do sexismo e a dinâmica de gênero atual no Vale do Silício e a autobiografia Nasci Subversiva.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. AMBAR

    15 de março de 2026 1:54 pm

    Quando a articulista diz ” Nesse ponto chegamos, universidades de elite que deveriam zelar pelo rigor científico e a liberdade e independência acadêmica, acabam se acovardando e ajudando a perpetuar contradições, desigualdades e injustiças para proteger o interesse de seus”,
    ela toca no ponto central da questão: ELITE.
    Não há elite entre os iguais. Para que se mantenha ELITES tem que haver os inferiores em escala, até o limite dos desiguais miseráveis, obsoletos e dispensáveis.
    As entidades de cunho social existentes e patrocinadas pelas elites são apenas NOMENCLATURA , PARA GARANTIR A APARÊNCIA DE JUSTIÇA SOCIAL
    e promessas de equidade de modo que os inferiores não desistam de servir e nem percam as esperanças de “alcançar a elite”.

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