
Os pusilânimes paspalhos perdidos no espaço do Congresso, por Fernando Castilho
Sou do tempo do seriado Perdidos no Espaço que passava na TV todo domingo. Lembro bem do famigerado Dr. Smith, sempre aos berros com o robô: “Pusilânime paspalho!”
Intrigado, fui atrás do significado. “Covarde”, “medroso”. E, para ser justo, também cabe “omisso”. Curiosamente, o Dr. Smith xingava o robô pelos erros que ele mesmo cometia — o verdadeiro pusilânime paspalho era ele próprio, claro.
Pois bem. Ao acompanhar o desempenho de Hugo Motta à frente da Câmara dos Deputados, eis que o bordão me volta à memória com força: pusilânime paspalho. Que outro termo seria mais apropriado para quem insiste em ignorar os reiterados casos que clamam pela cassação de seus colegas? Não há nesse comportamento os ingredientes perfeitos para ostentar tal adjetivo?
Como pode Carla Zambelli, a bolsonarista que correu de arma em punho atrás de um homem pelas ruas de São Paulo, já condenada a 10 anos de prisão pelo STF por invadir o sistema do CNJ e falsificar decisões judiciais — além de protagonizar uma fuga cinematográfica para a Itália — continuar blindada contra a cassação, como se fosse apenas uma turista desavisada?
Como pode Eduardo Bolsonaro, há mais de seis meses nos Estados Unidos, conspirando contra o país que lhe concedeu um mandato parlamentar? Condicionando o fim do tarifaço de Trump à anistia do próprio pai, como se estivesse negociando no boteco do fim da rua e não atuando nas relações internacionais? Já não era para estar na Comissão de Ética?
Como pode Nikolas Ferreira, aos berros em carro de som, xingar e ameaçar um ministro do STF — e depois sair correndo como personagem de comédia pastelão — sem enfrentar qualquer consequência no Parlamento?
Outro exemplar digno do adjetivo é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Como pode o senador Marcos do Val, sob medidas cautelares, viajar para os EUA com passaporte diplomático e de lá insultar o ministro Alexandre de Moraes? Sua volta ao Brasil foi digna de reality show jurídico: tornozeleira eletrônica e constrangimento zero. Mas continuará senador porque Alcolumbre é pusilânime.
Em novembro de 2022, uma audiência da Comissão de Transparência do Senado pretendia discutir supostas irregularidades em propagandas de rádio denunciadas por Bolsonaro. O que se viu, no entanto, foi uma ode à contestação eleitoral — coroada pela presença do terrorista George Washington de Sousa, aquele que tentou explodir um caminhão-tanque no aeroporto de Brasília. E o Congresso? Nada. Nenhuma reprimenda. Nenhum processo. Nem uma nota de rodapé constrangida. Silêncio ensurdecedor.
Rodrigo Pacheco, então presidente do Senado, e agora o sempre ausente Alcolumbre, se limitaram ao papel decorativo. O Congresso, ao que tudo indica, reinventou sua missão institucional: atuar como espectador de luxo no circo democrático. O desgaste, como sempre, ficou para o Judiciário. Os pares, pusilânimes paspalhos, por sua vez, seguem blindando seus próprios pares. E a democracia — essa, sim — vai ficando cada vez mais… perdida no espaço.
Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.
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