Paradoxos e contradições do bolsonarismo pós-Bolsonaro
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Em meados de 2021, aqui mesmo no GGN, fiz um pequeno ensaio sobre o Fake Militarism:
“Bolsonaro é um gênio mais terrível que Karl Marx, Lenin, Gramsci e Scooby-Doo. Além de perder o “timing” para dar o bote, ele criou uma situação que impedirá as Forças Armadas de voltar a interferir politicamente nos destinos do país por um bom tempo. Ele era o homem errado no lugar errado no momento errado. Uma escolha obviamente errada dos generais que desprezaram outro fato importante da história militar: Bolsonaro havia sido expulso do Exército e seu desejo de vingança da corporação ficou soterrado profundamente em sua personalidade.
A vingança do capitão não é nem desejada nem consciente. Ela é um subproduto da incapacidade do Exército de reconhecer o bom senso daqueles que expulsaram de suas fileiras um capitão ambicioso, mentiroso, covarde e amalucado. A falta de memória do Exército fez o Brasil mergulhar no Fake Militarism, cuja principal característica é o “comandante em chefe” e seus generais subalternos ficarem batendo o pé, xingando, fazendo ameaças e escrevendo notas de repúdio para amedrontar a plateia incauta. Obviamente isso não está funcionando.”
O resultado da eleição foi desfavorável às pretensões dos militares que apoiavam Bolsonaro, mas o golpe de estado não ocorreu. É improvável que ele ocorra, pois outro fenômeno está ocorrendo nesse momento: o esvaziamento da liderança do capitão bocudo e genocida.
Bolsonaro havia prometido sair da presidência morto. Ao que parece ele sairá do Palácio do Planalto pela porta dos fundos e com o rabo entre as pernas.
A derrota aliada à impossibilidade de qualquer reação violenta obrigou o futuro ex-presidente a resignar-se. As mentiras, meias-verdades e falsificações grotescas impulsionadas por algoritmos continuam a ser espalhadas por bolsonaristas, pastores e bots, mas a eficácia política delas é mínima. Elas não são capazes de provocar uma ruptura da legalidade. No máximo, a reação infantilizada da multidão desorientada e eventualmente violenta será um caso de polícia. Cada bolsonarista inconsolável terá que arcar com as consequências criminais de seus discursos e atos.
De maneira geral, podemos dizer que a verdade factual se impôs: apesar de fragilizado o regime democrático brasileiro ainda é muito mais forte do que a familícia Bolsonaro imaginava. Essa verdade factual é evidenciada pelo fato de que membros do governo estão facilitando a transição. Os generais aposentados não comandam tropas. Os militares da ativa procuraram se distanciar de um golpe de estado que foi enfaticamente desautorizado pela Casa Branca e por vários governantes europeus.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “
O esvaziamento parlamentar do bolsonarismo é o fato político mais importante após o fim do processo eleitoral. Vários líderes do centrão já abandonaram o futuro ex-presidente. O próprio Bolsonaro parece estar mais preocupado em garantir sua impunidade do que em liderar o ataque final glorioso ao TSE da horda de zumbis vestindo camisetas da seleção brasileira. Eduardo bananinha Bolsonaro estava errado. Não é possível intimidar a cúpula do Judiciário enviando um cabo e dois soldados num jipe para fechar o STF.
Desamparadas, algumas lideranças da extrema direita começaram a dizer que não querem mais ser comandadas por Bolsonaro. Transcrevo abaixo uma das mensagens que estão sendo compartilhadas por WhatsApp:
“…estamos em guerra, vamos fazer a nossa parte, todos podem ajudar de algum jeito, no mínimo se vai ficar no sofá pelo menos coloca o dedo para trabalhar, peça socorro para exército, divulguem vídeos, mandem nos grupos, incentivem o povo ir nas ruas, estimulem, não é brincadeira, NÃO VAI PASSAR, não vai passar. Acorda enquanto há tempo!!!
NOVAS REGRAS* É proibido amanhã nas manifestações e redes sociais a partir de agora.
Uso de bebida alcoólica
Blusas de Bolsonaro
Nossa bandeira jamais será vermelha
Dizer Deus acima de tudo, Brasil acima de todos.
Dizer Mito
Intervenção militar
Intervenção federal
Capitão
Jair Bolsonaro.
Art 142
Dizer 22
Jair
*Nada que vincule o Bolsonaro.
O que pode
SOS Forças Armadas
Salvem o Brasil FFAA
Cantar o Hino nacional.
Bandeira do Brasil.
Camisa do Brasil
Ordem e Progresso
Lei e ordem!
Repassa o mais rápido possível, essa mensagem precisa chegar nos mais de 58 milhões de cidadãos que votaram no 22. Vale para você que se absteve do voto, se o barco afundar, você não vai boiar. Vai lá, comece agora, compartilhe! Essa é a nossa última chance, não teremos outra.”
O desespero dos derrotados é evidente e confirma o que foi dito por mim aqui no GGN. O assédio aos militares é o novo método golpista https://jornalggn.com.br/opiniao/o-assedio-aos-militares-como-novo-metodo-golpista-por-fabio-de-oliveira-ribeiro/ . Todavia, esvaziar a liderança de Bolsonaro, entretanto, não me parece ser uma maneira plausível de convencer “…58 milhões de cidadãos que votaram no 22” a participar da nova aventura golpista. A campana “SOS Forças Armadas” vai gerar apenas mais confusão e desmobilização. Isso já está ocorrendo https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/video-so-seis-pessoas-idosa-reclama-em-manifestacao-bolsonarista-fracassada/ .
Apesar da retórica que utilizou durante 4 anos, Bolsonaro não entrou na política para correr riscos e sim para enriquecer e desfrutar uma vida confortável. Na dúvida, o capitão recuou em grande velocidade. Mas isso dificulta criar a percepção de que ele está avançando. Todavia, Bolsonaro me obriga a revisar uma hipótese que levantei em meados de 2021:
“A guerra permanente foi transformada em racionalidade econômica por outros meios.”
Na fase atual “A guerra política permanente foi transformada em irracionalidade econômica por outros meios.”
Os bloqueios das rodovias federais e estaduais organizadas por arruaceiros com ou sem o apoio de Bolsonaro estão causando prejuízos econômicos. Alguém terá que indenizar os cidadãos que foram lesados. As imagens confirmam que policiais rodoviários estaduais e federais apoiaram os manifestantes. Portanto, os cidadãos prejudicados pode e devem acionar a União e/ou seu respectivo Estado. Os policiais que agiram como milicianos e o líder que eles queriam reconduzir à presidência devem responder regressivamente pelas indenizações que forem eventualmente pagas em decorrência das condenações.
Quando as manifestações atingiram o climax recebi um áudio da minha prima que advoga na área criminal. Ela estava excitada e convicta de que em 2023 o melhor filão do mercado para advocacia será a defesa dos bolsonaristas que cometeram, cometem e cometerão crimes por razões políticas.
Na entrevista que deu ao GGN, o professor Boaventura de Sousa Santos disse que a democracia brasileira ainda está em risco https://www.youtube.com/watch?v=c_NBZ544JkA . Essa afirmação aparenta ser plausível, mas o estudioso português desconsiderou os paradoxos e contradições que foram criados pelo próprio bolsonarismo.
A liderança de Bolsonaro surgiu e cresceu dentro de uma imensa bolha de Fake News. Ela se sustentou com apoio do centrão, mas entrou em colapso assim que a Justiça começou a combater a epidemia de notícias falsas. A vitória de Lula reorganizará as forças no campo político brasileiro isolando a extrema direita no gueto que ela originalmente ocupava. Isso me faz supor que a maioria dos brasileiros poderá desfrutar tranquilamente a perpetuação da democracia.
Nos próximos anos, entretanto, a verdade factual para a minoria barulhenta será outra. Cada qual terá que amargar as consequências criminais e patrimoniais indesejadas decorrentes dos discursos violentos e das violências que foram praticadas em defesa de uma ideologia extremista em declínio.
Os atos criminosos cometidos após a eleição não podem ser perdoados, esquecidos, anistiados ou indultados. O subproduto tóxico que o capitão genocida deixou no país certamente irá ser transformado em milhares de processos criminais. Cada qual terá que arcar com sua própria defesa, pois a especialidade da familícia Bolsonaro é acumular patrimônio. O ex-presidente e seus filhos obviamente não investirão um centavo para garantir a defesa dos manos deles que forem perseguidos pela Justiça.
Professores, médicos, engenheiros, advogados, empresários, etc… que estão espalhando mensagens criminosas, racistas, nazistas e antiéticas na internet também sofrerão as consequências desagradáveis de seus atos. Abandonados à própria sorte pela famiglia Bolsonaro, quando começarem a perder seus empregos e a gastar dinheiro para se defender alguns deles provavelmente passarão a odiar intensamente o bolsonarismo. Nada vale a pena quando a alma é pequena.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].
Leia também:
Xadrez do futuro do bolsonarismo e da democracia, por Luis Nassif
Deixe um comentário