21 de maio de 2026

Um novo Brasil que precisa ser visto, por Adilson Filho

Um fato que chamo a atenção é que, de 2013 pra cá, houve uma mudança significativa na forma do brasileiro médio vivenciar a política
Cena da série "Cangaço Novo", na Amazon Prime Video (Foto: Divulgação)

Um novo Brasil que precisa ser visto

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por Adilson Filho

A série ‘Cangaço Novo’, em cartaz no streaming, reúne violência social, paixões humanas e polarização política levada às últimas consequências, num misto audacioso de cinema novo com o aclamado filme Bacurau. Ainda que pintando um quadro distópico de uma realidade específica, o que é abordado na produção vai ao encontro de uma teoria que estou desenvolvendo: passados dez anos da ascensão do neofascismo em nosso país, considerando-se como ciclo inicial o período 2013-2022, uma parcela significativa do povo brasileiro, independente de classe social, regionalidade e outros marcadores, seja por ação ou reação e a despeito de qualquer juízo moral, estaria, hoje, do ponto de vista sociológico, mais identificado culturalmente à extrema-direita no que diz respeito à linguagem, valores e comportamento.

Partindo da hipótese de que o que emergiu nos últimos anos estava, em razoável medida, recalcado socialmente e tomou corpo político acionado por discursos que se conectaram à estruturas históricas – dentre as quais, a violência como resolução de conflitos e a religiosidade visceral – somado ainda a fatores contemporâneos da nova etapa do capitalismo mundial que atingiram em cheio a sociedade brasileira, como o hiper individualismo, o advento das redes sociais e a precarização do trabalho, creio que seja possível apontar que, hoje, o país vive um momento singular na sua história onde, guardadas as óbvias diferenças, há um tipo de alinhamento jamais visto entre as classes populares, médias e altas de todas as regiões no que diz respeito a forma de ver o mundo social e atuar politicamente sobre ele que não deve ser desprezado.

Muito mais do que a ideologia tal qual aprendemos a reconhecer nos livros de História, é pela forma de ocupar a arena pública que a extrema-direita, hoje, se conecta com as camadas populares em: violência da linguagem (real, virtual e corporal), violência como solução para conflitos de todas as ordens, senso estético e gosto cultural, exaltação da ignorância (aproveitando-se da sabotagem secular promovida pelas elites dirigentes) rejeição à política institucional (mesmo operando dentro do sistema), lógica do esforço individual meritocrático e, particularmente, a religiosidade cristã.

Com as classes altas, a coisa muda de figura pois estas já apresentam uma afinidade ideológica histórica com a extrema-direita constatada na opressão e violência contra o próprio povo, o racismo incurável,  a adesão hipócrita ao ufanismo, o discurso oportunista anticorrupção, o fetiche militar e, mais recentemente, o ultra neoliberalismo mais primitivo – confirmando o que o professor Alysson Mascaro preconiza  que “para um neoliberal virar um fascista basta apenas um passo”.

Com a fração mais reacionária da classe média (seja dos grandes centros, seja do interior), que, ao emular o comportamento do ‘andar de cima’ deixa de ser classe para se tornar uma espécie de “aberração social”, a extrema-direita se alinha organicamente no discurso da eliminação do outro via justiçamento, no falso moralismo político e no patriotismo protofascista-cristão evocado em momentos-chaves da nossa história.

Resumindo, o bolsonarismo talvez tenha sido o único movimento capaz de amalgamar, pelas vias mais inusitadas, todas as camadas da população das mais variadas e radicalmente distintas regiões do Brasil. O que está longe de ser pouca coisa.

Como as camadas altas e a parte reacionária das camadas médias tendem a defender seus interesses da forma mais assustadora possível, se ainda acreditamos em ‘luta de classes’, com estas, está claro que não devemos perder tempo. Mas e o povão? E a classe trabalhadora que uma parte considerável da esquerda ainda idealiza como se estivesse congelada no tempo da guerra fria, seja medindo pela própria régua moral, seja  romantizando como revolucionária?

Um fato que chamo a atenção é que, de 2013 pra cá, houve uma mudança significativa na forma do brasileiro médio vivenciar a política. Uma parte expressiva da população que antes comparecia às urnas de quatro em quatro anos e quase não se manifestava nesse intervalo, de uma hora para outra, foi alçada à categoria de sujeito político ativo, o que vai fazer toda diferença. Hoje, um menino de 19 anos que faz entregas de 9 da manhã às 9 da noite, tem voz, tem peso, tem laços identitários com outros pares que jamais teve e isso também está muito longe de ser pouca coisa.

E quanto mais o trabalho precarizado e os mecanismos de manipulação  das redes sociais deixam as pessoas mais ignorantes, mentalmente abaladas e estimuladas para o confronto,  mais estas se sentem encorajadas a participar da vida política da pior forma possível.  Resultado: o despejo de milhares de extremistas na arena pública.

Espero que este quadro aparentemente sombrio, mas que, acredito,  encontra respaldo na realidade, fundamentado por análises robustas que já estão sendo feitas, sirva não para gerar desânimo e imobilidade mas que seja um despertar para uma parte da esquerda que, por negação, autossuficiência ou vaidade,  ainda tem enorme dificuldade de ver o novo mundo que surgiu no Brasil e que vai muito além do nosso quintal.

Um ano depois que ainda respiramos os ares de uma vitória sofrida que nos deu o necessário e merecido alívio, penso que já há indícios suficientes de que chegou a hora de nos prepararmos da melhor forma possível para vencer as batalhas que já se apresentam como continuidade das travadas anteriormente. Trata-se, acredito, de uma realidade que nós, do campo progressista, vamos ter que encarar daqui para frente se quisermos dar a nossa colaboração para que o Governo Lula – que, diante das enormes dificuldades, ainda apresenta inegável saldo positivo – dê certo ao final e seja consagrado novamente nas urnas em 2026. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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  1. Flavio Emieni

    7 de novembro de 2023 9:32 am

    É uma análise interessante e faz sentido em vários aspectos. Mas, meu caro, eu que cresci na periferia de São Paulo – depois a vida me levou a outras paragens – posso afirmar com absoluta segurança que o puro suco do fascismo que hoje assistimos já estava presente ali desde que me lembro por gente: a violência da linguagem, como solução para conflitos de todas as ordens; o gosto cultural, a rejeição à política, a lógica do esforço individual meritocrático, como você bem descreve e, sim, uma religiosidade cristã que foi se exaltando no pior sentido com o passar dos anos.

    O neofascismo que ora presenciamos apenas se apropriou e deu coesão a essa ‘lógica’ – com muita competência, sejamos francos – e segue alimentando a besta-fera.

    Vai ser muito trabalhoso – a partir do dia em que se decida fazê-lo, claro – mudar esse panorama.

    Saudações.

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