24 de junho de 2026

Uma jurista negra para consertar os erros, por Aldo Fornazieri

O governo precisa perceber que o seu aliado fundamental, que pode levar Lula à vitória, é o povo, o ativismo e os movimentos sociais.
Foto de Gustavo Moreno - STF

Rejeição de Messias ao STF foi derrota política histórica para Lula, marcada por fatores adversos e oposição no Senado.
Erro de Lula na indicação: critério pessoal de amizade, não foco em diversidade e compromisso com Constituição.
Para reverter, Lula deve indicar jurista negra comprometida com direitos, mobilizando sociedade contra atraso do Senado.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Uma jurista negra para consertar os erros, por Aldo Fornazieri

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

É certo que a rejeição de Messias para o STF foi uma derrota histórica para o governo e para o presidente da República. Para Lula, foi a maior derrota política de todos os seus mandatos. Negligenciar o tamanho da derrota é o caminho mais curto para repetir os erros. Dourar a pílula dizendo que a indicação e Messias foi uma esperteza de Lula que resultou num prejuízo para a direita é uma estultice sem tamanho.

É verdade também que a derrota da indicação de Messias foi resultante da conjunção de vários fatores adversos – Senado hostil, crise do Master, atritos de senadores com o STF, relação tensa do Senado e de Alcolumbre com o governo Lula, temores em relação às possíveis posições de Messias no STF, articulação de vários interesses contrários ao governo e a Messias, aliança entre Alcolumbre e o bolsonarismo e descontentamento de setores do STF com a indicação de Messias.

Mesmo com tudo isso, houve um erro de origem do presidente Lula na indicação de Messias. Quando se abriu a vaga com a renúncia de Luís Roberto Barroso, várias pessoas advogaram a indicação de uma mulher negra, jurista, comprometida com a Constituição, com a democracia e com o Estado de Direito.

O primeiro erro foi o critério da indicação. O critério personalíssimo da amizade e da fidelidade do indicado para com o presidente da República não é um bom critério. Admita-se, por hipótese, que o presidente que indica cometa algum delito político que precisa ser julgado no STF. A quem o ministro indicado seria fiel? Ao presidente que o indicou ou às leis e à Constituição? A resposta a essa indagação é suficiente para mostrar que o critério não é um bom critério.

A fidelidade fundamental que um ministro do STF deve ter é para com a Constituição e as leis. Pode-se argumentar que Messias, além do notório saber jurídico que possui, seria fiel à Constituição. Mas não foi esse o argumento principal arrolado para justificar a sua indicação.

É preciso ter presente que um presidente da República não pode exigir fidelidade de um ministro do STF como exige a fidelidade de um ministro de Estado. Do ponto de vista republicano, o presidente da República não pode exigir nenhuma fidelidade pessoal de um ministro do STF. O que é legítimo ele exigir é a fidelidade à Constituição, às leis, à democracia e ao Estado de Direito. Em última instância: ser fiel à garantia dos direitos fundamentais, pois este é o alfa e o ômega do constitucionalismo moderno.

O segundo critério que um presidente deve observar na indicação de um ministro da Corte Suprema, consiste em analisar como a Justiça vem sendo ministrada pelos tribunais e quais as necessidades fundamentais da sociedade em termos de demanda de justiça. Não há a menor dúvida de que há um viés misógino e outro racista na aplicação da lei no Brasil.

Sanear essas falhas é uma demanda urgente da sociedade em relação às exigências imputadas aos tribunais superiores e ao Judiciário em geral. Um presidente que se guie por princípios republicanos deve agir para corrigir essas distorções. Ainda mais considerando que as mulheres são maioria no país, numa proporção de 51,5% a 48,5% pelo censo de 2022. O mesmo ocorre com a população afrodescendente (negros e pardos) numa proporção de 55,5% a 43,5%.

É constrangedor ver uma única mulher, Carmen Lucia, numa bancada de 10 homens no plenário do STF. Também é constrangedor não ver nenhuma pessoa negra ou parda nessa bancada.  O feminismo e o antirracismo não podem ser meramente declaratórios por parte do governo e dos partidos de esquerda. Precisam ser efetivos em termos de abrir espaços de poder a esses setores. A diversidade não pode subir a rampa do Planalto no dia da posse para depois deixá-lo pelas portas dos fundos.

As injustiças praticadas contra afrodescendentes pelo Judiciário são incontáveis. Quanto à misoginia, tomemos o exemplo mais escabroso dos últimos tempos. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais absolveu um estuprador de 35 anos que mantinha relações sexuais com uma menina de 12 anos. Três desembargadores votaram no caso: dois homens e uma mulher.

O estuprador foi absolvido pelo voto dos dois desembargadores contra o voto da desembargadora que queria manter a condenação de primeira instância. A absolvição só foi revertida por conta da imensa pressão da opinião pública. Ora, se esse e outros exemplos não expressam um clamor pela presença de mais mulheres no Judiciário e nos tribunais então é porque o Brasil quer manter a Justiça cega, surda e falha. 

Voltando à indicação de Messias, o governo cometeu também um erro de cálculo ao manter a aposta no Senado hostil, que advogava a indicação de Rodrigo Pacheco. A prudência política aconselha que quando há um impasse entre duas partes na indicação de nomes para colegiados, a saída consiste em indicar um tercius. Se os conselheiros de Lula tivessem estudado o maior dos conselheiros saberiam que é conveniente escolher um tercius quando há risco de grave derrota e para superar impasses, para evitar a paralisia decisória de órgãos ou do governo, para mediar a e conter a radicalização de conflitos.

O tercius, nesse caso, era óbvio: uma jurista negra comprometida com a Constituição, a democracia e os direitos. O governo não aprendeu, também, com o erro cometido em 2015: Na época, Dilma e o PT decidiram enfrentar Eduardo Cunha com a candidatura petista de Arlindo Chinaglia. O certo era buscar um terceiro nome que fosse capaz de agregar apoio e derrotar Cunha. Deu no que deu.

Lula e o governo têm agora a chance de reverter a derrota, mas não com Messias. A tática da direita e de Alcolumbre, tudo indica, será postergar a aprovação do novo integrante do STF para 2027. Diante disso, Lula só tem três alternativas para evitar esse desastre: 1) indicar Rodrigo Pacheco atendendo Alcolumbre e o Senado; 2) negociar um nome consensual com Alcolumbre e, 3) indicar uma jurista negra com as características indicadas acima.

As duas primeiras alternativas representam a vitória de Alcolumbre e da direita. A única possibilidade de transformar a derrota em vitória é a terceira. Isto porque, mesmo que o presidente do Senado e a direita manobrem para postergar a aprovação do nome para 2027, é possível desencadear um poderoso movimento de pressão da sociedade civil e dos movimentos sociais constrangendo o Senado, não só para decidir, mas também para aprovar o nome indicado. A recusa implicaria num alto custo eleitoral e político.

É preciso perceber que somente a mobilização social poderá reequilibrar o jogo político, evitando que a direita consolide na opinião pública a ideia de que o governo acabou. Esta é uma ideia muito perigosa que poderá levar a uma derrota eleitoral. O governo precisa perceber que o seu aliado fundamental, que pode levar Lula à vitória, é o povo, o ativismo e os movimentos sociais. Fazer um jogo astucioso no Congresso é necessário. Mas o governo e Lula precisam decidir com quem querem caminhar.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Aldo Fornazieri

Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    4 de maio de 2026 8:38 am

    Cor, altura, peso, religião, preferências musicais, time de futebol, taras sexuais, etc… são marcas distintivas pessoais e preferências privadas. Eles não servem como critérios para a seleção de juristas. Ninguém em sã consciência consideraria um critério plausívelpara escolha de Ministro do STF a aceitação de propina em real brasileiro, dóla norte-americano, libra esterlina inglesa, euro europeu ou yuan chinês. Ser corrupto é incompatível com a dignidade do cargo em questão. Corromper os princípios de escolha do candidato também. Lula pode eventualmente escolher uma mulher negra, não porque ela é negra e sim porque reune as condições indispensáveis de respeitabilidade, honestidade e sólida formação em ciências jurídicas e sociais. Todavia, se existir qualquer outro candidato com melhor cabedal (seja ele homem branco ou uma anã com descendente de bolivianos) a tal mulher negra deveria ser descartada. Não existem cotas identitárias no STF. Qualquer um que defenda a balcanização identitária do Tribunal não é realmente capaz de entender a importância daquela instituição e faria um favor ao país ficando calado. Afinal, ele justificará com essa estupidez programática a criação de movimentos exigindo da nomeação de militares para a Suprema Corte. Quem mais deveria ter cadeira no STF: os coveiros ou os padeiros?

Recomendados para você

Recomendados