Direitos Civis de LGBTs e a política nacional recente

http://www.youtube.com/watch?v=MWp7Ax1JcX8]

Uma coisa que atiça o Fla-Flu nas redes sociais é a dificuldade em reconhecer erros. Especialmente os políticos.

Tucanos não gostam que se comente que algumas privatizações foram precipitadas ou mesmo desnecessárias. Não gostam que se diga que a política monetária foi mais rigorosa do que o requerido (em 1998 quase beirando o oportunismo político). Mas reconhecem que falharam ao não ter investido mais e antes em programas sociais. Se algo de tão baixo custo (hoje 0,5% do PIB) como o Bolsa-família tivesse sido implantado já no início da recessão 1997-2003, e poderia ter sido uma vez que o primeiro programa brasileiro de transferência unilateral de renda foi iniciativa de uma prefeitura tucana, a mesma recessão teria sido menos aguda e o PSDB poderia ter honrado o SD de seu nome. Talvez até tivesse ganho as eleições de 2002.

Petistas são a mesma coisa. Não gostam que sejam apontadas contradições ou equívocos. Não gostam que se comente que a Reforma da Previdência, destarte sua impopularidade, foi algo necessário, tanto que nenhum esforço fizeram para revertê-la, antes a estenderam ao funcionalismo público. Não gostam que se lembre que fatores econômicos externos, como as relações internacionais de troca, foram tão ou mais relevantes para as taxas de crescimento e desconcentração de renda que a gestão de política econômica. Também é feito grande silêncio sobre o fato de que o Código Florestal foi “podado” pelo sempre parceiro PMDB, à revelia da opinião pública, mídia e até mesmo partidos de oposição que nessa ocasião apoiaram o projeto do PT.

Enfim, erros políticos todos cometem, os eleitores fazem individualmente suas avaliações subjetivas de erros e acertos e votam em programas, o que é totalmente normal e democrático.

http://www.youtube.com/watch?v=S5sB4B2lCaQ]

Ninguém pode negar como viver em um Estado de Direito foi bom para os brasileiros, um imenso avanço civilizatório em relação aos anos 1970. O exercício democrático da crítica hoje não só é permitido como também valorizado como forma de se acelerar a evolução social.

É nesse contexto que se torna indefensável a resistência a se reconhecer que há erros na condução atual do governo para questões de direitos humanos. Tão mais simples seria retomar o discurso histórico do PT (que inclusive ajudou a elegê-lo), não é mesmo?

As falas de ministros e candidatos a governador sobre vários assuntos, como educação inclusiva, meio-ambiente, Povos Indígenas, Estado Penal, direitos reprodutivos, democratização de meios de comunicação, substâncias aditivas, soam contraditórias. Isso pode ter efeito eleitoral ou não, mas tomara que tenha, posto que sem discutir valores e direitos difusos e/ou minoritários e/ou de vulneráveis na política, a sociedade não avança. Se a oposição é também relutante em explorar esses temas, é uma pena a mais.

Sem desmerecimento nenhum a outras questões emperradas muito importantes, pois cada pessoa que conhece mais profundamente cada tema pode fazer suas avaliações, eu farei um pequeno levantamento sobre um assunto que acompanho há alguns anos: os retrocessos do governo federal nas questões LGBT.

Como cidadão eu gostaria de ter um governo que fosse proativo em questão tão relevante. E por isso mesmo ouso dizer: “o governo erra e não o apoio por isso”.

Mas, assim como em tantas outras questões militantes não admitem erros de seus políticos de preferência, existe uma imensa resistência entre militantes governistas a perceber que tais retrocessos são um erro. Isso passa pela tentação de fazer algo bastante condenável, que é o uso da desinformação como discurso político.

Desse modo, a forma que vejo de estabelecermos a discussão política em bases mais realistas será apresentar os argumentos que eu julgo corretos. E as pessoas que não têm opinião formada poderão ler e refletir sobre cada ponto. A tese é: o governo federal retrocedeu em direitos LGBT nos últimos anos e, independentemente de outros aspectos, isso pode ter um impacto eleitoral, ainda que limitado e marginal.

http://www.youtube.com/watch?v=Szdziw4tI9o]

Os retrocessos do governo federal e do PT em questões LGBT

São vários e em desacordo com o decreto do PNDH-3, de dez./2009:

– Engavetamento do PLC 122/06 em Nov./2009 e dez./2013

– Cancelamento, em maio/2011, do até então elogiado e propagandeado kit Escola sem Homofobia

– Recolhimento em março/2013 das cartilhas de educação sexual (onde um dos cadernos era antihomofobia) do Min. da Saúde (distribuídas em 2010)

– Patrocínio (não reconhecido) da gestão do PSC na CDHM (março/2013)

– Revogação no DF da regulamentação da lei antihomofobia local (maio/2013)

Há outros episódios paralelos de menor visibilidade, como a censura a uma propaganda do Min. da Saúde; assim como há também iniciativas pró-LGBT, das quais a mais conhecida – e talvez a única relevante – é o reconhecimento do uso de nome social para transgêneros no SUS (jan./2013.)

Cabe lembrar que os avanços, como o reconhecimento do nome social e outros como as portarias do INSS e Receita Federal sobre o reconhecimento de casais homoafetivos, não podem ser usados como “compensação” para os retrocessos. Simplesmente não há justificativa racional para o abandono do combate à homofobia, que é reconhecido na maioria dos países da Europa e das Américas como um avanço civilizatório.

Patrocinar retrocessos em questões LGBT é, portanto, algo contrário ao rumo da História em sociedades não-teocráticas e deve ser condenado.

Para saber mais:

2011 06 02 https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/o-gay-o-pastor-a-blogosfera-e-o-pig

2012 06 30 https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/ordem-e-progresso

2012 09 13 https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/que-fim-levaram-todas-as-flores

2013 11 21 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/quando-o-medo-venceu-a-esperanca

2014 01 24 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/as-indignacoes-seletivas-do-progressismo

http://www.youtube.com/watch?v=gqg3l3r_DRI]

As defesas inconsistentes que se faz do governo

São várias. Vamos a algumas mais disseminadas.

“O Congresso é homofóbico, não temos culpa”

O Congresso não é homofóbico, tem uma pequena bancada homofóbica que é atendida, é bem diferente. Se fosse, a Câmara não teria aprovado o PLC 122/06 em 2009. Podemos dizer, talvez, que há muitos congressistas omissos, e agem assim, como Pilatos, para não prejudicar as negociações do governo com a bancada fundamentalista.

Mas não há nenhuma racionalidade em a maioria da bancada atender os interesses tão apenas de 13% dos deputados.

Na verdade os projetos de interesse LGBT são barrados pelas comissões ou por manobras que impedem de serem votados. Se forem votados em aberto os deputados e senadores, conservadores ou não, dificilmente apoiariam uma ideia tal como “a homofobia não deve ser combatida”.

É por levar projetos a votação que em outras nações (EUA-2009, Itália-2013, Chile-2013) houve folgada maioria a favor de leis antihomofobia.

Assim, que fique claro o seguinte: não se pode dizer que o Congresso é homofóbico se não for testado. E o modo de testar é levar projetos a votação, o que o governo orienta a não fazer.

http://www.youtube.com/watch?v=xrIYT-MrVaI]

“A população é homofóbica, temos que atender a maioria”

Aqui há dois erros em uma só frase. Em primeiro lugar, direitos humanos e de minorias requerem atender princípios constitucionais, não vontades de maiorias intolerantes. Imagine-se se fosse feita pesquisa, em 2003, sobre a importância de se instituir o Bolsa-Família. Cabe aos poderes da República fazer a sociedade avançar, não mantê-la na escuridão.

Em segundo lugar, se a população já foi majoritariamente homofóbica, agora é conscientizada o suficiente de que não deve mais sê-lo. Pesquisa do Datasenado de out-2012 apontou apoio de 77% ao PLC 122. Pesquisa Ibope de jan-2014 apontou apoio de 60%, nesse caso inclusive se a homofobia estiver presente em discursos religiosos.

Não há artigos e manifestações contrários ao PLC 122 em quase nenhum grupo de pressão. Até 2009 a CNBB se manifestava contrária, mas depois retirou as objeções de seu blog. A Mídia, a Academia, a Comunidade Artística, as Organizações de Classe (sindicatos, sindicatos patronais, UNE, etc) são todos, talvez em sua quase absoluta maioria, favoráveis ao PLC 122.  Ou, pelo menos, não se manifestam contrários.

Fora do Congresso e do Ministério há tão pouca gente conhecida contra o PLC 122/06 que é possível listar de cor: J R Guzzo, Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Malafaia, Mariza Lobo, José Serra. Acabou. Essa é a “opinião pública” que o governo federal atende quando orienta sua bancada a não votar o PLC 122/06.

Contrários (ainda fora do Congresso e Ministério) publicamente ao Escola sem Homofobia também são muito poucos: Malafaia (novamente), Edir Macedo, José Serra (novamente). Não há pedagogos, psicólogos ou cientistas sociais sérios que questionem a importância do combate à homofobia já em escolas, para termos novas gerações menos doentias. Isso é quase como seguir a lei anti-propaganda de Putin.

De qualquer modo, ainda segundo a mesma pesquisa Ibope, 55% da população apoiaria o programa. O governo se deixar pautar por Serra e Malafaia é, portanto, um equívoco.

Já é um equívoco obstar direitos humanos de minorias por coligações políticas, equívoco maior é quando a maioria da população e da opinião pública é a favor desses direitos. Se isso será explorado ou não pela oposição é algo que só veremos nas campanhas estaduais. Algum candidato proporá, por exemplo, que a SEE-SP abandone o seu kit anti-bullying? Proporá que se revogue em SP a lei anti-homofobia? Claro que não. Para o lado do retrocesso não haverá mais campanha. Mas existe a oportunidade de ser a favor do lado certo da História.

Para saber mais:

2013 04 27 https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/o-secularismo-como-causa-politica

2013 12 13 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/combate-a-homofobia-deve-ir-para-o-stf

2013 12 17 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/direitos-opiniao-de-maioria-e-a-conciliacao-de-ambos

2014 03 31 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/para-entender-alguns-discursos-politicos-atuais

[video:http://www.youtube.com/watch?v=cf_d2BJyobM

“Foi Serra quem começou o discurso religioso”

Historicamente, não. O primeiro ato antissecularista digno de nota foi justamente o 1º abandono do PLC-122/06 em Nov./2009, quando esteve prestes a ser aprovado no Senado. Não há declarações públicas (como houve por ocasião do 2º engavetamento) em que o governo reconhece fazê-lo para garantir a adesão de partidos religiosos. Só que todo mundo acha que, sim, o abandono se deu por isso.

Em abril/2010 Serra ainda era simpatizante LGBT, tanto que seus últimos atos de governo foram nessa direção, incluindo a regulamentação da lei antihomofobia do Estado de São Paulo, que até hoje é a única regulamentada para um estado no Brasil.

Depois, em maio-junho/2010, o governo consolidou a aliança com PR/PSC/PRB e Serra adentrou por uma seara horrível de propaganda (especialmente contra o aborto), mas, historicamente, não foi a primeira força política no nível de candidaturas presidenciais a usar temas religiosos em campanha. Apenas foi o mais desavergonhado em fazê-lo (e não é estranho notar que a rejeição política de alguns segmentos mais conservadores em economia é a ele, especificamente, não ao PSDB em geral.)

Há algo que deve ser observado: embora permissão para discursos homofóbicos e proibição de aborto sejam ambos pauta de interesse fundamentalista as concordâncias do demais da opinião pública em relação a esses assuntos é bem diversa e assimétrica. Mais de 70% da população é favorável à criminalização da homofobia, e menos de 30% é favorável à descriminalização do aborto.

Desse modo, ser contra o aborto ainda não traz danos políticos a ninguém, é uma questão que precisará ser mais e mais debatida pela sociedade brasileira. Ser contra a homofobia já é, ao contrário, uma causa comprada pela opinião pública.

A contradição do PT fica patente em mais um aspecto: quase todos os programas ministeriais ou projetos de lei abandonados ou engavetados nos últimos anos foram do PT, do tempo em que queria ser visto como “simpatizante”. Inclusive a lei anti-homofobia de SP (projeto de Renato Simões.) Ora, se no período 2001-2010 o PT julgava tantas coisas boas e válidas até para pôr em propaganda (Marta Suplicy, por exemplo, disse em campanha que desengavetaria o PLC 122/06, foi eleita e cumpriu a promessa), se tais programas e projetos estão no lado dos avanços civilizatórios, qual a coerência em se voltar atrás agora em todos os próprios projetos?

Nenhuma. É a mesma coisa que o PSDB abandonar princípios social-liberais e social-democratas de tributação progressiva.

Para saber mais:

2012 10 13 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/a-manipulacao-da-homofobia-na-politica

2013 08 29 https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/a-ligacao-entre-esquerda-e-politicos-evangelicos

2013 11 22 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/como-superar-o-uso-do-obscurantismo-na-politica

[video:http://www.youtube.com/watch?v=ayLlbho5mg0

“Devemos evitar Aécio/Campos/Marina para não retrocedermos no social”

Mais um discurso absolutamente inconvincente, a meu ver. Pelo menos quando usado para justificar recuos no combate à homofobia.

No mínimo porque não há nenhuma lógica em associar ‘ausência de combate à homofobia’ a ‘avanços sociais’. Isso é uma contradição por si só. Não há nenhuma razão para se imaginar que favorecer discurso homofóbico ajude a reduzir a pobreza (também não ajuda a aumentar a natalidade, diga-se.)

Campos e Marina prometem preservar programas sociais. Isso é uma promessa política como Lula em 2002 prometer cumprir contratos do sistema econômico. Tentar fazer demonizações de oposição é uma estratégia tida como pobre por analistas políticos, mas enfim, que cada um julgue se cola.

Aécio e PSDB também se comprometem a manter o Bolsa-Família, até através de projeto-lei. A população será chamada em outubro a testar a sinceridade disso.

Aécio/Campos/Marina provavelmente são, pessoalmente, mais à direita em economia que Lula ou Dilma. Mas isso é, no máximo, razão para que a parcela mais à esquerda da população tenha rejeição a essas campanhas, não é motivo para se apoiar o abandono do combate à homofobia.

A argumentação que diz que é necessário ceder a fundamentalistas para garantir conquistas sociais é falaciosa por vários motivos:

– o eleitorado evangélico não está interessado em prejudicar minorias, mas em garantir acessibilidade a educação, saúde e segurança. Se um programa for bom nessas áreas ganhará seu apoio por gravidade, posto que há uma grande correlação entre população de menor renda e pertencentes a denominações pentecostais;

– o eleitorado evangélico é vítima de preconceito cotidiano e pode não querer aumentá-lo concordando com propostas como tentar reverter o casamento igualitário. Isso seria passar por ignorante ou intolerante e não há utilidade em o governo protocolar dois projetos para reverter o C.I. (Minha experiência pessoal é a de que meus vizinhos evangélicos nos deram, a mim e meu companheiro, os parabéns quando da resolução do TSF);

– se a maioria da população quiser um programa com o perfil de Aécio ou Campos (e não há comprovação de que tais seriam mais “à direita”, posto que em 11 anos não mudou a legislação para nada mais, digamos, “à esquerda”), não será por não combater a homofobia que se ganhará esse eleitorado. Quem é conservador economicamente está preocupado com questões patrimoniais e tamanho do Estado, não em perseguir LGBTs. Aliás, se pensarmos em classe média que viaja ao exterior, os 6 maiores destinos turísticos dos brasileiros são EUA (com lei federal antihomofobia desde 2009), Argentina (com casamento igualitário desde 2010), França, Reino Unido, Portugal e Uruguai (salvo engano, esses países com ambas legislações.)

Ser contra o combate à homofobia ou ao casamento igualitário é tão ridículo e sinônimo de desinformação e atraso que até pessoas conservadoras perceberam a irrelevância de ficar desse lado.

É verdade que questões de valores entraram na política do Mundo todo, ao contrário do econocentrismo dos anos 1970. A ecologia e o ‘politicamente correto’ entraram em pauta já nos anos 1980, mais recentemente há uma disseminação de discussões em torno de maconha e questões LGBT.

Se questões como funções do Estado e modelos de desenvolvimento ainda podem ser as mais relevantes para a formação da maioria dos votos, as questões de valores servem para influenciar indecisos em eleições apertadas. Ainda mais se não há diferenças perceptíveis, entre contendores, nas questões econômicas.

Não é incomum que alguém fale que o discurso de A ou B é falso ou insincero. Que seriam ‘simpatizantes de fachada’. Isso não é de modo algum absurdo, já o vimos na política antes, candidatos se dizem simpatizantes num dia e no dia seguinte estão de braços dados com personalidades homofóbicas. Mas não importa: o PT não é proibido de fazer discurso simpatizante também, basta fazê-lo e ‘zera’ o eventual oportunismo.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=z2ISRMSIyX8

Desse modo, ficar do lado errado da História em questões LGBT é um erro político já reconhecido por vários partidos de direita no exterior, especialmente na Europa e América Latina. Ser anti-LGBT não fideliza público conservador (principalmente se o discurso vem de alguém mais ‘esquerdista’ em economia) e afasta o público secularista de qualquer ideologia (posto que direitos humanos envolvem vida e dignidade humanas, causas que devem ser comuns a todas as ideologias.)

Falar por redes sociais que Marina é evangélica é algo pueril e preconceituoso. Não tem relevância alguma para o público secularista, posto que não ter assinado o encaminhamento do PLC 122 não é nada de especial em um contexto em que 8 de 12 senadores do PT atual também não são a favor. No máximo a única atitude anti-LGBT de Marina foi em linha com a maioria do PT (e totalidade do PSDB.) Afora isso não se conhece nenhuma iniciativa antissecularista de Marina Silva, já do governo Dilma há um histórico longo.

Então não serve para campanha política atribuir a outrem aquilo que se faz no próprio campo. Fica algo como “faça o que eu digo não faça o que eu faço”. E é preconceituoso por atribuir a possibilidade de comportamento retrógrado a uma religião.

Pode muito bem ser ao contrário. Como dito, evangélicos também querem ser incluídos e em cargos executivos fazem o que podem para não serem ‘patrulhados’ pela mídia e oposição. Foi assim que Romney (mórmon) não se esforçou para impedir que o estado que governava (Massachussets) tenha sido o primeiro dos EUA a ter lei de Casamento Igualitário. Mais próximo a nós temos o exemplo de Garotinho (batista), que, em 2000, foi o primeiro governador a sancionar uma lei antihomofobia estadual no Brasil.

Em hoax pela internet é atribuída a Alckmin uma participação, que ele desmente, à Opus Dei. Se é realidade ou não, é um discurso de seus antagonistas, mas Alckmin deveria ser julgado é pelas concessões que eventualmente fizer a religiosos em seu governo.

Fora o que as pessoas efetivamente fazem para promover retrocessos antissecularistas, especular sobre a religiosidade de cada pessoa, inclusive especular se a pessoa é ateia, é puro preconceito.

Dizer: “não vote em fulano por ser evangélico” é algo tão tosco quanto dizer “não vote em fulano por ser LGBT”. Então, vamos combinar: que não se vote em quem não defende o Estado Laico.

Para saber mais:

2013 04 07 https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/uma-luz-na-discussao-sobre-homofobia-e-politica

2013 12 16 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/os-presidenciaveis-e-o-casamento-lgbt

2013 12 20 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/o-psb-buscara-ser-simpatizante

2013 12 27 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/lgbts-nao-serao-orfaos-politicos-em-2014

2013 08 17 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/o-conservadorismo-moral-que-nao-convence-no-pt

2014 01 03 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/saudades-do-estado-laico

2014 01 05 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/moc-voce-esta-fazendo-isso-errado

2014 03 31 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/nao-faca-aos-outros-o-que-nao-deseja-que-lhe-facam

2014 04 01 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/o-sofisma-da-priorizacao-de-direitos

[video:http://www.youtube.com/watch?v=EjMNNpIksaI

A homofobia não compensa

Mas, afinal, há alguma consequência disso tudo? É muito cedo para dizer.

Embora haja uma grande divulgação pela mídia dos discursos homofóbicos de políticos, e isso sempre é feito ressaltando que tais discursos são algo negativo, a conscientização do quão grave é o problema ainda não é ampla. Nem sequer entre LGBTs. De qualquer modo, é crescente, pois conscientização apenas se dá para um lado: a verdade.

Alguns sinais, no entanto, podem ser percebidos.

– O uso da homofobia na política é crescentemente condenado pelo público. O Tea Party norte-americano (similar no uso do conservadorismo aos brasileiros PSC, PR, PP e PRB) declinou nas últimas eleições e vários governadores e senadores Republicanos ‘mudaram de lado’ em questões LGBT com vistas a não sofrer consequências em 2016. Na França, o uso do tema mais prejudicou que favoreceu Sarkozy. No Reino Unido coube aos conservadores fazerem a agenda avançar. No Chile, recentemente, a candidatura Bachelet não teve nenhum receio em abordar o Casamento Igualitário. Finalmente, a lei anti-gays de Putin, ainda que com apoio popular interno, revelou-se um completo desastre junto à opinião pública ocidental. Deverá ser revogada quando ficar claro à população local que nenhum benefício se obteve com ela, talvez na época da Copa-2018;

– aumenta a percepção de que podemos estar vendo um erro de cálculo. Contar com 22% de eleitorado evangélico, além de preconceito (por atribuir um comportamento mesquinho a esse eleitorado) é um erro. Parte crescente, os chamados evangélicos ambivalentes, manifestam defesa do Estado Laico. Além disso, trata-se de um público ‘não-indignado’, ou seja, não têm vantagem nenhuma em patrocinar legislações que prejudiquem a terceiros, ao contrário, já há pastores (como Gondim) ou padres (Fábio Mello, Luís Corrêa) abertamente favoráveis ao respeito de direitos civis de LGBTs, até para reduzir o preconceito que é disseminado contra religiosos;

– se evangélicos não vêem nenhum direito seu ameaçado, quer por situação quer por oposição, LGBTs sim, podem ver. Ainda que seja um processo incipiente é crescente a indignação junto a militâncias. Não há, por exemplo, um único artigo defendendo o governo em blogs LGBT (e isso mesmo sabendo-se que alguns militantes conhecidos seguem apoiando o governo por razões políticas, mas abstêm-se de tentar defender o histórico na questão.) Além disso, pode ser precipitado supor que apenas 5% de (estimados) LGBTs podem se sentir afetados, afinal há possíveis 3 vezes mais parentes diretos a influenciar;

– ainda que timidamente, já há manifestações na Mídia favoráveis ao combate à homofobia. E, embora não explicitamente falando em legislação ou questionando a omissão do governo, a atenção quase diária ao tema, quer sobre o que acontece no Brasil quer sobre o que acontece no Mundo, é sinal de que a Mídia escolheu um lado, o de ser simpatizante. Nos últimos anos houve apenas um artigo contra direitos LGBT na imprensa, o patético artigo de J R Guzzo, no final de 2012, que recebeu tantas críticas nos primeiros dias que simplesmente não houve uma única voz se manifestando para apoiá-lo (salvo engano, nem Malafaia);

– se a Mídia é simpatizante, a Classe Média não menos. As pesquisas Fapesp-2009 e Ibope-2011 mostraram como a aceitação de direitos LGBTs é tanto maior quanto maior a renda e instrução. E esses públicos e formadores de opinião não serão contraditados por projetos de oposição, não haveria ganho político algum com isso;

– também não sabemos ainda o alcance que as redes sociais terão na próxima eleição e o uso político que se fará deles. No entanto, em 2013, vimos algumas coisas se tornarem “virais”, nacional e internacionalmente: o Meme do Casamento Igualitário (que envolveu muitas pessoas jurídicas), o repúdio à empresa Barilla, o “Beijos para Feliciano”.  O contrário não acontece: simplesmente nenhuma fala ou proposta anti-LGBT ganha popularidade nas redes sociais;

– é perceptível como as tentativas de se desmobilizar demandas LGBTs em redes sociais com argumentos religiosos diminuíram muito. Piadas homofóbicas são cada vez menos frequentes. Isso apenas reforça a tendência dos “indignados” da vez continuarem mais e mais a ‘bater bumbo’.

Ninguém, além de seus eternos fãs, claro, elogia as ideias de Feliciano, Bolsonaro, Magno Malta e Malafaia. Para quê se associar a elas? Somente em 05 de outubro saberemos.

Para saber mais:

2013 11 06 https://jornalggn.com.br/noticia/homofobia-ate-quando-por-moises-guimaraes

2013 04 17 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/politico-faca-as-contas-antes-de-ser-anti-lgbt

2013 12 14 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/tera-o-aliancalao-consequencias

2014 01 03 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/2013-direitos-lgbt-tornaram-se-questao-global

2013 12 28 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/malafaia-blogosfera-e-a-volta-do-parafuso

2013 09 06 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/quem-defendera-o-combate-a-homofobia-no-brasil

2012 09 16 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/as-religioes-e-os-direitos-civis-lgbt

[video:http://www.youtube.com/watch?v=ZdqjcMmjeaA

(Este será um post permanente e atualizado para incorporar novas informações e análises sobre a questão até as eleições de 2014. Poderei, inclusive, revisar trechos e conclusões).

6 Comentários

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ArthurTaguti

- 2014-06-07 18:54:16

Bem, o que eu não entendo é o

Bem, o que eu não entendo é o govenismo usar tanta recalcitrância como estratégia política. Falo governismo porque, embora exista diversidade de opinião entre os militantes, existe uma pauta imposta de cima para baixo evidente na maioria dos assuntos.

Essa a razão pela qual preocupa-se tanto em defender Pizzolato na AP 470 mas não falam da, sei lá, Kátia Rabello, ou  é permitido e até recomendável criticar Paulo Bernardo e Cardozo, mas deixam a salvo Vacarezzas e Tatto's, enfim.

Essa estratégia, que é uma mistura de autocomplacência, arrogância e agressividade, eu sinceramente acho suicida. Um governista "light" igual o Gilberto. ou o Filipe Rodrigues teriam muito mais habilidade em agregar votos ao PT do que militantes "hardcore", que discutem com arrogância e assustam outros no grito.

Não sei se três vitórias Presidenciais passaram a impressão de invencibilidade, mas em tempos em que todo mundo pode se informar por diversas fotos, em que existem diversos ambientes políticos que o cara pode se conectar, qual a vantagem de calar e expulsar vozes divergentes? O cara que faz uma crítica construtiva ao governo em blog e é chamado de "coxinha", primeira coisa que fará é cair nos braços de quem vive criticando-o, só por birra muita das vezes.

Um exemplo é do Joaquim Barbosa. Defender os réus da AP 470 virou questão de honra para a blogosfera, sendo que considerá-los mártires sequer é questão pacífica no PT (Cardozo, Olívio e Suplicy são alguns menos complacente com as práticas de Dirceu e cia), mas vemos noite e dia a militância xingando uma pessoa que, segundo a Datafolha, é "dono" de 26% do eleitorado.

Essa postura desagregadora mais tira votos que atrai para o PT. Mas ainda é repetida a exaustão. Eu sinceramente não entendo o porque, ao invés de se criarem pontes, a militância está se enfiando em guetos políticos de pensamento único que só servem para aprovar teses, não para atrair novos votos, debater com eleitores indecisos e fazer propaganda positiva do governo que defendem.

Essa questão Lgbt é apenas um dos exemplos. Não adianta debater desculpa esfarrapada.

Ano passado alguns me chamaram de "ultraesquerdista", "utópico", "ingênuo", até "troll pago" por defender posturas mais pró-ativas do governo quanto às reformas. Eles diziam que não se faz nada num passe de mágica, existem as alianças, a governabilidade, o PMDB comanda o Congresso, o PSOL não tem repreentação, bláblábláblá.

Aí, é só a Dilma incluir a regulamentação da mídia no programa dela, que o discurso muda. Do "para de ser ingênuo! Com esse Congresso é impossível fazer reforma", muda-se a fala para "Barões da mídia! Tremei! Agora eu quero ver! Agora sim a reforma sai!". Só porque a Dilma agora quer, vai sair? O pior é que ninguém faz questão sequer de disfarçar e esconder as contradições.

Só, por fim, cabe ressaltar que os militantes "hardcore", os que agridem, querem vencer discussão no grito, são uma minoria. A maioria discute bem, embora não concorde, dá para sair boas discussões de lá. O problema é a complacência que se tem ao estilo pit bull. Esses são considerados, na pior das hipóteses, uns "exaltadinhos" mas bem intencionados. O que não enxergam é que isso faz o PT perder votos. Quando passarem a entender isso, talvez mudem de postura.

Gunter Zibell - SP

- 2014-03-06 12:14:03

"mais importantes que a causa LGBT"

Isso é um falso dilema, ainda que o governo se ancore nesse discurso.

Causas LGBT não dependem de muitos recursos financeiros, em geral se depende apenas de atitudes, então não há conflito com mais nada de importante.

Para compreender isso basta inverter a equação:

Em que medida NÃO COMBATER a homofobia ajuda a ser progressista econômico-social?

Como vê, uma mentira foi contada.

O que demonstra que, ao contrário do seu discurso bonito, você tolera sim a homofobia e ainda tenta justificar a inação do governo em relação à mesma, colocando como positivos (causadores de melhoras sociais [!?!] ) os retrocessos adotados.

Para se sair disso há caminhos:

2013 11 22 https://jornalggn.com.br/blog/gunter-zibell-sp/como-superar-o-uso-do-obscurantismo-na-politica

André LB

- 2014-01-23 22:24:35

  "Tucanos não gostam que se

  "Tucanos não gostam que se comente que algumas privatizações foram precipitadas ou mesmo desnecessárias."

  Parei de ler aí.

 

  Mentira, li tudo, e o post é muito bom, mas melhor ainda para quem quer apenas aparar arestas a qualquer preço. Gunter, não que isso vá tirar seu sono, mas não posso concordar com um texto que começa com aquela frase, e daquele jeito segue bem adiante - mesmo que eu reconheça a importância e mesmo urgência do tema LGBT - entre outros que não menciono.

  O governo errar erra, e muito, para minha tristeza. Agora chamar aquele processo de pilhagem em massa de "precipitado" ou "desnecessário" é eufemismo demais para este coração brasileiro.

  Um abraço.

NH alemanha

- 2014-01-23 22:06:39

Perspectivas diferentes
Na minha vida pessoal há 4 coisas que eu não tolero: Racismo, sexismo, preconceito de classe e, sim, homofobia. Já perdi a conta de quantas relações pessoais já cortei por causa desses temas, muitas na família inclusive. Mas Gunter, ao se tratar da avaliação de um governo, minha opinião depende de outros fatores. Muitos deles, pra mim, mais importantes que a causa LGBT - embora eu simpatize e muito com a causa. Eu entendo que essa temática seja muito importante pra vc. E sim eu gostaria que se tivesse avançado mais nela. Mas é, lamento a sinceridade, minha discordância nesse aspecto não é suficiente para que eu passe a criticar aberta e ostensivamente um governo com o qual eu estou de acordo em tópicos que julgo mais importantes na minha particular ordem de prioridades. E se a escolha é entre alguém progressista em políticas LGBT mas conservador no campo econômico-social, e alguém progressista no econômico-social, mas omisso no lado LGBT, sorry, eu fico com o segundo. E pra mim pouco importa que Aécio, Campos e Marina prometam manter programas sóciais ... isso em si não significa nada. Meu problema com Aécio é que seu partido foi completamente omisso no social e reza uma cartilha economica desastrosa. Como vc disse " Se o Bolsa Familia tivesse sido criado em 1997 ... "; só que não foi. Ponto. E o que o PSDB faz nos Estados não me dá motivo pra acreditar que o social seja prioridade. Meu problema com Campos é que a mosca azul o picou e ele não para de enfiar os pés pelas mãos (sair candidato agora, romper com os gomes, se enfiar nessa enrascada com a Marina ... o que mais vai fazer?). E o meu problema com a Marina é que o discurso dela é oco ... Não sai uma proposta pra nada, e quando saí tá errado. Ficar falando em sustentabilidade é lindo ... mas na hora de explicar como não sai nada. Fora o vice cujo modelo de negócios é feito sob medida pra não pagar encargo trabalhista, o guro econômico neoliberal e a arrecadadora de campanha do banco Itaú. Esses são os motivos que me fazem não querer esses senhores governando o país. E eles me prometerem avanços necessarios na proteção dos LGBT não é suficiente pra reverter minha opinião. Sorry. Eu enxergo os erros do governo na condução da política voltada aos direitos dos LGBT. Mas eu tb enxergo os acertos em outros campos e pra mim isso é mais importante. isso não tem nada a ver com fla-flu. É a minha percepção de prioridades e ela é tão legítima quanto a tua. abraço

Gunter Zibell - SP

- 2014-01-23 02:29:30

Com certeza, Gilberto.

A área econômica é o mais importante. Mas, se os programas forem mornos (como têm sido) a oposição poderá explorar fatores emocionais como a indignação para sensibilizar nas margens e fazer mais deputados. 

A oposição não tem mesmo como fazer um discurso popular ao ponto de ganhar a presidência, o que seria retomar os anéis. Então pode salvar os dedos e fazer o discurso anti-fundamentalismo que é relativamente popular junto à classe média (inclusive a que vota no PT) para sobreviver na margem. O que já é bom, a meu ver. 

Eu estarei fora a maior parte do dia 23, mas, caso surjam mais comentários, poderei responder a partir do fim da tarde desse dia.

Gilberto Cruvinel

- 2014-01-23 01:03:19

Eleitores não votam em programas

No geral concordo com sua análise Gunter, só não acredito que eleitores votem em programas. A maioria vota com o emocional comandando. Ninguém se dá sequer ao trabalho de ler o programa dos partidos. O voto é por simpatia/antipatia por determinado político, seja lá o que isso signifique, e pelo bolso. Se a economia vai bem para a maioria, o governo é bem votado. Do contrário, abre-se a possibilidade de entrar a oposição, quando há oposição. Nos últimas eleições a oposição está em uma crise louca de lideranças. Serra destruiu o PSDB, foi e é o anti-lider. Aécio é um inconsistente sem programa. Campos é um desconhecido. Vácuo de lideranças oposicionistas. O governo nada de braçada e, a menos de um desastre não previsível no horizonte, ganhará em 2014.

No barco dessa vitória colocará tantos partidos, alguns antagônicos, que continuará sem linha programática, porque tendo que contentar a gregos, troianos e marcianos. E aí a pauta LGBT continuará extremamente prejudicada.

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