26 de junho de 2026

Lula is back (?), por Daniel Afonso da Silva

Sob muitos aspectos, ele é – e sabe que é – o mandatário político mais importante em atividade no planeta.
Ricardo Stuckert

Lula is back (?)

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por Daniel Afonso da Silva

Se ao presidente Lula da Silva se fosse atribuir uma única headline pela sua atuação no discurso de improviso junto ao seu homólogo, o presidente Luis Lacalle Pou, no Uruguai, no último dia 25 de janeiro de 2023, o tópico frasal mais justo e perfeito seria “autoridade tranquila”.

Há um princípio, não escrito, da atuação internacional que indica que o mandatário de um país relevante, como o Brasil, precisa encarnar a sua nação. Encarnar sem sobre nem subvalorizar. Encarnar na medida. Com precisão. Nem acima nem abaixo do que se é. Do que se sabe. Daquilo que, mundialmente, se nota como real, natural e exato. Senão desafina. E, se desafina, ninguém ouve mais. Perde-se a credibilidade. “Ninguém quer sair na foto”. Como, aliás, ocorreu, até outro dia, com os dois mandatários brasileiros urgentemente anteriores ao atual. Ninguém queria estar perto. Menos ainda sair em foto nem vídeo. Nada de seguir, publicamente, no twitter. Nada curtir no Instagram. Faziam isso somente os verdadeiramente desavisados. Ou, quando não, os por demais catequisados. Muita vez, inclusive, já lobotomizados. Integrados até os fios do cabelo na tentação autoritária de autoridade escorregadia. Que permite (permitiu) e insufla (insuflou) atos, sim, cretinos, como os vistos nas tormentas brasilienses do 8 de janeiro.

Diferente do presidente Lula da Silva. O líder do novo e atual Brasil. Um homem de autoridade natural. Uma autoridade, por isso, tranquila. Erigida, sim, dos votos. Mas também da razão. Da história. Da trajetória. Das rugas de um passado sem ilusão. Uma autoridade tranquila que foi disputada, a tapas, para sair em fotos no Uruguai e na Argentina. Sua primeira, agora, viagem internacional. Fotógrafos oficiais e populares queriam em Lula da Silva clicar. Queriam dele ou com ele uma imagem guardar. Não foi ao acaso que, na capital uruguaia, ele falou para multidões.

 Os pouco mais de vinte minutos da sua intervenção – entremeada pela tradução simultânea do português corintiano do pernambucano a um castelhano uruguaio impecável de alguma assessora de imprensa brasileira local – em Montevidéu deram a mostra que a credibilidade do Brasil está voltando. “Lula is back”.

E “Lula is back” com mais sabedoria e mais entusiasmo. Inaugurando o seu retorno ao teatro de intervenções que ele mais aprecia e domina. O meio internacional. A geopolítica convencional. As relações de forças mundiais. As relações internacionais. A deliberação sobre o destino das nações.

Desta sua primeira viagem internacional, muito se comentou de seu encontro com o presidente cubano, de suas afinidades eletivas com o presidente argentino, de sua percepção imperativa do lugar do Brasil na América Latina e do Sul, de suas diferenças ideológicas com o presidente uruguaio, de sua inquestionável quebra intencional de decoro presidencial ao encontro do presidente Michel Temer denominando-o golpista, de seu passeio no fusca de seu lendário e distinto amigo José (Pepe) Mujica.

Tudo isso, como comentário, foi interessante. Gerou comentários. Produziu impressões. Chegou aos destinatários certos. Uns solidários. Outros inclementes e contrários ao mandatário na função.

Tudo foi, portanto, relevante.

Mas nada segue mais importante que o esforço de se notar que a profundidade dos formidáveis discursos proferidos em Buenos Aires, na reunião da Celac, e, em Montevidéu, em encontro bilateral com o homólogo presidencial, foi a síntese exata da reestreia perfeita do presidente Lula da Silva e da nova cara do Brasil na cena internacional.

Muito se comentou da participação dos ministros Fernando Haddad e Marina Silva na reunião do Fórum Econômico Mundial em Davos. O presidente Lula da Silva, ao enviá-los em seu lugar, deu sinais muito importantes das suas prioridades e preferências metodológicas nesse seu retorno ao comando do Brasil (discorri sobre no artigo Uma foto vale mais que mil palavras, vide https://jornalggn.com.br/opiniao/uma-foto-vale-mais-que-mil-palavras-por-daniel-afonso-da-silva/ ).

Diferente de vinte anos atrás, ele preferiu iniciar a sua epopeia internacional desde o Sul e falando ao Sul – especialmente, porque, é importante que se perceba que a primeira viagem internacional do presidente Lula da Silva começou, em verdade, em Roraima, com os Yanomamis, e não em Buenos Aires com o presidente Alberto Fernandes – e não desde um dos principais palcos decisórios do planeta, que é Davos, e falando ao mundo inteiro.

Sobre a sua passagem por Buenos Aires, em Brazil is back (?) (vide o artigo https://jornalggn.com.br/relacoes-exteriores/brazil-is-back-por-daniel-afonso-da-silva/ ), afirmei ter sido o mais importante discurso de um representante brasileiro em reuniões da Celac, e indiquei as razões. Para além disso, também mencionei que “é cedo e difícil dizer” se o Brasil está, realmente, de volta. “Mas, tenha-se certeza, o que há de melhor da diplomacia brasileira está empenhado nesse retorno”.

“Pero”, no momentum Montevidéu, o presidente Lula da Silva se superou frente ao que se passou em Buenos Aires.

Demonstrou que o homem de estado, transvestido de presidente da república do Brasil, definitivamente voltou. Voltou potente, porreta, e voltou tranquilo. Voltou com a força de sua, sempre, “autoridade tranquila”.

Sob muitos aspectos, ele é – e sabe que é – o mandatário político mais importante em atividade no planeta. Muito além de sua inequívoca expertise em abordagens da pequena à grande política, poucos de seus homólogos atuais – nem Emmanuel Macron da França tampouco Joe Biden nos Estados Unidos; talvez Vladmir Putin num dia de pouca afetação na Rússia ou Xi Jinping num momento de desmesurada inspiração na China – foram (ou são) capazes de apresentar, com tamanha clarividência e assertividade, os múltiplos desafios do meio internacional contemporâneo. E, conseguintemente, não dispõe da mesma competência em inserir o seu país – no caso do presidente brasileiro, inserir o Brasil – nessa inquestionável barafunda da pasmaceira mundial presente.

O discurso do presidente Lula da Silva em Montevidéu foi o primeiro, verdadeiramente, de improviso neste seu terceiro mandato. Foi uma manifestação pausada. Com expressões contidas. Um body language friamente estudado. E alusões futebolísticas e gastronômicas – como não poderiam deixar de haver – precisamente evocadas.

A sua contraparte presente, o presidente Lacalle Pou, não conseguiu conter uma indiscreta eloquente admiração. Ele, Lacalle Pou – e o mundo inteiro –, sabe que o presidente Lula da Silva talvez seja o último gigante da política mundial que o século XXI vê renascer.

O discurso do presidente Lula da Silva, como dito, foi curto. Mas foi imenso.

Nele, ele reafirmou a presença do Brasil na América Latina e do Sul. Indicou esforços para revigorar o Mercosul, a Unasul, a Celac. Projetou avançar discussões sobre a interação entre Mercosul, União Europeia e China. Reconheceu, implicitamente, a relevância da Europa e da China no destino do continente. Afirmou que homens de estado vivem acima de ideologias e conversam com todos. Disse ao presidente Lacalle Pou que não importa que eles pensem, ideologicamente, diferente. O negócio é fazer a região se unir e crescer. Chamou a atenção para a necessidade de revisão das Instituições Internacionais. Bradou pela modificação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Constatou que o mundo de hoje é bem distinto daquele de 1945, do chão de ruínas e do terror das batalhas. Informou que o Brasil vai, sim, investir na transição climática. E ainda sugeriu que a questão Rússia versus Ucrânia poderia ter saída.

O presidente Lula da Silva não é um woke nem um ingênuo. Ele sabe que o meio internacional é uma arena de brutos. Um ambiente de predadores carnívoros que levam a vida de devoradores de incautos herbívoros que veem o mundo em cor-de-rosa.

Para, sobretudo, ele, que amargou 580 no submundo de uma armação, o mundo é real e, infelizmente, muita vez, brutal, independentemente das ilusões que muitos nutrem sobre ele.

O Brasil de Lula não é nem arrogante nem subserviente. É um Brasil justo. Justo em medida justa. Desigual e complexo. Mas gigante e, como se viu entre os Yanomamis, generoso. Um Brasil quase igual o do hino. Gigante “feito” a própria natureza. Mas, também, gigante como “um sonho intenso”.

O discurso de Montevidéu deu a exata noção de tudo isso. A política externa ativa e altiva, pelo visto, dá indícios de renascer.

Lula is back”.

Resta saber se o Brasil quer voltar.

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Daniel Afonso da Silva

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”. [email protected]

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  1. josé Oliveira de Araújo

    27 de janeiro de 2023 8:40 am

    OS DISFARÇADOS COMENTARISTAS PSEUDO DEMOCRATAS, LOGO APRESSARAM-SE EM CRITICA-LO POR TER CHAMADO O GOLPISTA DE GOLPISTA.

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