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Aos 90 anos, Barbara Heliodora deixa a crítica teatral

O título da reportagem da Revista Época (abaixo) está muito mal colocado.

Barbara Heliodora, a maior crítica de teatro do Brasil, sai de cena

Ela era a última representante da geração que ensinou o brasileiro a apreciar o teatro. O público sentirá sua falta

LUÍS ANTÔNIO GIRON - Revista Época - 17/01/2014

O Largo do Boticário, no Cosme Velho, era um dos pontos históricos mais veneráveis do Rio de Janeiro, com seu casario oitocentista intocado. Hoje, pouca gente o visita. Encontra-se reduzido a um conjunto de cortiços e algumas casas que ainda se mantêm. Jogado sobre as pedras da ponte, tremula um pedaço rasgado de papel com um prospecto da Folio Society, a editora londrina de livros luxuosos de arte, história e teatro, principalmente títulos sobre a obra do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare. Algum assinante da Folio deixou o folheto escapar. Deve ter sido um morador das vizinhanças. Não é difícil adivinhar quem foi, pois, ao lado de uma ponte, com vista para o antigo esplendor do largo, ergue-se a casa branca da escritora, professora e tradutora Barbara Heliodora Carneiro de Mendonça – a maior crítica de teatro do Brasil e a maior especialista brasileira em Shakespeare.

TRADIÇÃO A crítica Barbara Heliodora em sua casa no Rio de Janeiro. Ela se dedicará a traduzir clássicos do teatro (Foto: Stefano Martini/ÉPOCA)

A casa de Barbara tem dois andares com uma varanda ampla e um jardim tropical. A propriedade está com a família Carneiro de Mendonça desde que o bisavô de Barbara, um ourives, a construiu em 1870. Barbara nasceu ali em 29 de agosto de 1923. É filha da poetisa Anna Amélia Carneiro de Mendonça, autora da melhor tradução brasileira da peça Hamlet de Shakespeare, e de Marcos Carneiro de Mendonça – que, além de historiador, foi o primeiro grande ídolo futebolístico do país, com suas lendárias atuações como goleiro do Fluminense e da Seleção Brasileira. Barbara se mostra leve para o peso da história que carrega. Desenvolta e de bom humor, recebe o visitante do alto da escada que dá para a varanda. Ela tem 90 anos, mantém uma imponência de matriarca e o olhar inteligente de intelectual. Acomodada na sala, ela conta que está contente com as homenagens que recebeu pelo aniversário no fim de 2013.  Participou de leituras dramáticas, peças e discussões sobre sua contribuição à cultura brasileira.  

COMPÊNDIO Caminhos do teatro ocidental. O livro reúne anotações que Barbara usou em aula (Foto: Divulgação)

“Como crítica, eu me indispus com muita gente”, diz, com a voz grave e incisiva. “Mas agora passo por cima de tudo isso. Não tenho rancores. Só projetos.” Crítico que é crítico deve ter fama de mau – se o crítico é considerado bonzinho, provavelmente não é tão crítico assim. O bom crítico não é aquele que trabalha para ficar amigo de diretores e artistas. Ele trabalha para o público – e, por isso, frequentemente se indispõe com os que estão sobre a ribalta.

Ao cumprir seu papel com brilhantismo, Barbara não fugiu à regra e muito menos às brigas.  Destruiu reputações e peças de teatro ao longo de uma carreira que se iniciou em 1957 – embora publicasse desde 1944 artigos sobre temas variados. Quando anunciou, em 31 de dezembro, que estava abandonando seu espaço no jornal O Globo, que mantinha havia 28 anos, muitos atores, autores e diretores vítimas de sua verve ferina respiraram aliviados. Mas incontáveis profissionais de teatro e leitores de seus comentários – o público – sentiram o golpe. Até porque a importância de Barbara na vida cultural dos últimos 60 anos se deve menos às polêmicas que travou que pelo fato de ter ensinado o brasileiro a ver teatro de uma forma mais completa.

Barbara recebeu manifestações espontâneas de muitas pessoas que a acompanhavam no jornal. “Uma leitora me encontrou na rua e veio me dizer que não se acostumará à ausência de minhas resenhas”, afirma. “Ela disse que se guiava por minhas sugestões. Mas tenho de parar porque estou cansada de sair à noite e ir ao teatro. Quero fazer outras coisas: traduzir obras que sempre quis verter para o português e escrever resenhas e ensaios.” Barbara gosta de ficar cercada das três filhas – fruto de dois casamentos – e dos quatro netos. Além de ver filmes e ouvir música sinfônica enquanto trabalha.

A saída de cena de Barbara marca um momento histórico. Ela foi a última grande crítica de uma geração de jornalistas culturais que se imbuiu de um objetivo missionário: formar o público por meio de seus textos. Uma turma que se reuniu em torno do Círculo Independente dos Críticos Teatrais (CICT), que Barbara presidiu no fim dos anos 1950. No círculo  brilhavam Paulo Francis (1930-1997), Brício de Abreu (1903-1970), Edgar de Alencar (1908-1993) e Oscar Henrique (1925-2003). Eles romperam com a tradição da resenha complacente do passado. Colocaram o público no centro de suas preocupações  e estudaram com afinco para transmitir a ele todos os fundamentos da complexa arte teatral.

“É o fim de um ciclo”, diz ela. “A gente queria municiar as plateias com informações que enriqueciam a experiência de assistir a um espetáculo teatral. Para completar o que saía na imprensa, organizávamos simpósios sobre história do teatro e propúnhamos discussões.” Nada a ver com o mainstream da crítica brasileira da época. Nem com muitos dos blogueiros de hoje, que vivem de dar opinião e gerar controvérsia. “Os críticos e blogueiros atuais não se importam com o público”, afirma Barbara. “Nesse sentido, são parecidos com aqueles críticos que combatemos nos anos 1950 por achá-los meros divulgadores que contribuíam pouco com a vida teatral. Os comentaristas de cultura atuais querem apenas chamar a atenção para si mesmos.”

 

 Os maiores autores segundo segundo Barbara Heliodora. Ela prefere os clássicos que têm algo a dizer às plateias atuais.

 

Ela analisa o que há de bom e de ruim no teatro brasileiro atual. “O aspecto positivo é que está acontecendo uma proliferação de autores. Ora, essa quantidade pode, em breve, resultar em representações de qualidade. E algumas vêm acontecendo aqui e ali. Mas, em geral, os diretores nacionais querem montar peças com um único objetivo: mostrar que eles são mais charmosos e melhores que os autores que adaptam. Os resultados são risíveis, quando não simplesmente horríveis.” Ela diz que Gerald Thomas, por exemplo, cometeu um erro fatal em sua carreira: “Ele não percebeu que era um excelente encenador, mas um autor péssimo. Deveria ter se dedicado a dirigir textos alheios. Pena que sua vaidade não permitiu”.

Segundo ela, falta ao Brasil uma cultura teatral mínima. “As pessoas não sabem nada do passado. Não têm perspectiva histórica. Quando elogiei o teatro do besteirol de Mauro Rasi, nos anos 1980, caíram de pau em mim. Mas aquilo representava um recomeço da comédia de costumes que remontava a Martins Pena. Ninguém me entendeu.” Ela se irrita quando alguns estudiosos afirmam que o teatro brasileiro começou com Nélson Rodrigues. “Antes dele havia um movimento teatral liderado por Paschoal Carlos Magno e seu TEB (Teatro do Estudante do Brasil)”, afirma. Barbara lembra que o primeiro espetáculo que viu foi montado justamente pelo TEB, uma versão de Romeu e Julieta no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Isso foi em 1938. “Tinha 15 anos e não me lembro dos detalhes”, afirma. “Mas ficou a lembrança da grande emoção que senti.”

Assim começou sua paixão por Shakespeare e pelo teatro, que a levou a estudar e a se formar nos anos 1940 em literatura inglesa no Connecticut College, nos Estados Unidos. E a se doutorar, pela Universidade de São Paulo, com uma tese que deu origem ao ensaio O homem político em Shakespeare, publicado em 1978. Converteu-se em uma pesquisadora shakespeariana respeitada mundialmente. Ela escreve para várias publicações internacionais no assunto, inclusive nos cadernos Shakespeare survey, publicados pela Universidade de Cambridge.

“Eu me fascinei pelo teatro porque, como diz Hamlet, ele é o espelho da natureza. Reflete tudo o que acontece no momento em que é representado. Nesse sentido, oferece uma visão única da história, dos hábitos e costumes de um determinado tempo e local. O teatro é a mais humana e a mais efêmera das artes”, afirma Barbara. Seus atores favoritos, diz, são aqueles que fizeram do teatro o palco do mundo, do grego Sófocles ao russo Anton Tchékhov. Seu amor por esses autores é tamanho que Barbara nunca quis trocar a plateia pelo palco. “Sempre fiquei diante do palco, até porque eu podia exercer meus dotes analíticos, bem maiores que os de atuação.”

A atividade escrita de Barbara reforça seu trabalho de educação do espectador. Acaba de publicar o compêndio Caminhos do teatro ocidental (Editora Perspectiva, 422 páginas, R$ 55). O volume é o resultado do trabalho como professora de história do teatro, de 1966 a 1985, no antigo Conservatório de Teatro, atual curso de teatro da UniRio. “Reuni em volume minhas anotações enciclopédicas sobre o tema”, afirma. “Amava dar aulas. A melhor sensação do mundo é perceber quando um aluno começa a se interessar pelo assunto e se entusiasmar pelo teatro.” 

No entanto, apesar de seus esforços, sua obra mais importante ainda não foi totalmente publicada: a tradução das Obras completas de Shakespeare. Os volumes de Dramas e comédias saíram há quase uma década, pela Nova Aguilar. Mas a editora ainda retém o terceiro e último volume, Tragédias históricas. “Não entendo por que isso ocorre, a editora não me informa”, diz Barbara. “Mas faz parte das deficiências culturais brasileiras. Não há  interesse em editar obras que enriquecem o espírito do consumidor. O mercado nacional é voltado somente à frivolidade.” Quando o último volume for publicado, Barbara Heliodora terá se tornado a maior tratudora e divulgadora de Shakespeare no Brasil.

Entre seus planos de tradução estão as comédias de Molière e as tragédias de Christopher Marlowe e outros autores do tempo de Shakespeare. “Espero ter tempo para dar cabo de tantos desafios”, diz. “Mas estou disposta.” Apesar de seu pessimismo em relação à forma como o Brasil lida com a cultura, ela se diz otimista com possíveis sucessores. Aos críticos do futuro, ela aconselha: “Amem o teatro. Porque, do contrário, será impossível manter uma carreira longa nesse campo. No Brasil, ser espectador é padecer!”, Barbara se despede na escada da casa com um sorriso. Diz que vai voltar ao trabalho. 

 

 Três autores brasileiros esquecidos. Barbara destaca talentos na área de comédia.

 

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É uma grande perda para o

É uma grande perda para o tetro e para as artes em geral a aposentadoria da Barbara.

Sobretudo quando estamos, ao contrario,  precisando de muitas Barbaras para levar a discussão seria ao teatro, a musica, ao cinema, as artes visuais.

Nossas atividades criativas estão estagnadas, mediocrizadas.

Estamos precisando de muitos Glaubers, para com coragem brigarem contra o que esta errado na cultura.

E não faltam erros.

A começar pela lei Rouanet,que deveria ser derrubada, para as atividades culturais voltarem aos seus trilhos naturais.

Fui vizinho e amigo da Barbara e de suas filhas por muitos anos.

Posso dizer que a conheço como pessoa.

Posso afirmar que como ser humano ela é tão verdadeira, integra e seria como na profissão, que exerceu com tanto brilhantismo e coragem.

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Evoé... picaretas!

Evoé... picaretas!

Enfim a liberdade!

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