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A humanidade e a cruz

Por Vaas

Da Obvious Mag

A ARTE DA CRUZ

O cristianismo adotou a cruz como seu símbolo máximo e, desse modo, percorreu a história, influenciando as culturas por meio de sua imagem icônica e de sua mensagem redentora. A cruz, por meio da religião, se tornou num dos mais recorrentes, poderosos e importantes temas da história da arte.

Por temer retaliações, quando os primeiros cristãos surgiram, ainda na era pagã, desenvolveram uma comunicação própria, por meio de figuras e referências visuais que professavam a sua crença e lhes permitiam identificar-se entre eles. O principal destes símbolos era a cruz – um símbolo que aliás precedeu o cristianismo e também foi usada em outras religiões.


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 religiao, simbolo
© Cruz Celta na erã pagã e cristã (Wikicommons, J. Romilly Allen).

Por temer retaliações, quando os primeiros cristãos surgiram, ainda na era pagã, desenvolveram uma comunicação própria, por meio de figuras e referências visuais que professavam a sua crença e lhes permitiam identificar-se entre eles. O principal destes símbolos era a cruz – um símbolo que aliás precedeu o cristianismo e também foi usada em outras religiões.

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© Cruz Celta na erã pagã e cristã (Wikicommons, J. Romilly Allen).

Relíquias arqueológicas provam que a cruz é ilustrada pelo homem há muito tempo. Nas culturas celtas de países como o País de Gales, Escócia e Irlanda, são encontradas as cruzes de pedra celtas, datadas do século IX. Essas cruzes, com o tempo, tomaram adereços e detalhes complexos e nunca retratavam nenhuma figura humana. Alguns historiadores acreditam que isso se deve ao fato de que as sociedades celtas relutavam em esculpir imagens para adoração. As cruzes ainda podem ainda ser vistas em alguns locais desses países.Antes do cristianismo, a cruz já significava sofrimento e dor, pois antigamente os criminosos eram condenados à crucificação. Com a religião cristã a salientar o episódio bíblico, o tema ganhou força e foi aí que muitos artistas começaram a inspirar sua arte. Neste sentido, uma das maiores e mais perturbadoras obras é a pintura da Crucificação (1512-1516), de Matthias Grünewald, que se encontra no antigo mosteiro da cidade francesa de Colmar. A retratação do fato bíblico, feita por Grünewald em pleno Renascimento, parece uma obra da Idade Média, com influência gótica. É uma retratação brutal de um Cristo terrível, que reflete luto, agonia e aflição. O imenso quadro foi um marco na história da arte. cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "Crucificação" de Matthias Grünewald (Wikicommons).
Ao longo do tempo, a figura da cruz se desenvolveu com a mesma tendência entre diversos artistas. A ilustração de Cimabue, datada do século 13, foi o primeiro passo para a arte moderna. O Cristo de Cimabue, que se encontra em Arezzo, Itália, enfatizava a simplicidade, envolto em dor e devoção. Já um dos trabalhos que foram plataforma do Renascimento é a obra de Giotto, na Capella degli Scrovegni, em Pádua. A Capela é inteira adornada de afrescos que enfatizam a emoção humana ao pé da cruz. São vários painéis que retratam a paixão de Cristo com uma admirável força dramática. cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "Cristo" de Cimabue (Wikicommons).cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "A Lamentação" de Giotto di Bondone (Wikicommons).cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "A Crucificação" de Giotto di Bondone (Wikicommons).
A cidade de Florença acolheu as principais obras que retratavam a temática da cruz. E foi lá que o pintor Masaccio, com sua versão da Santíssima Trindade, de 1427, para a igreja de Santa Maria Novella, em Florença, introduziu a perspectiva. Essa obra é uma das pinturas mais influentes da história da arte, influenciando nomes como Michelangelo e Leonardo Da Vinci. Considerado o primeiro grande pintor do Renascimento, Masaccio foi muito influenciado por Giotto e, do mesmo modo, seus afrescos aludiam à emoção humana de Cristo na cruz. Masaccio, por sua vez, inspirou o monge dominicano Fra Angelico. Para estudiosos da arte, sua obra “A anunciação”,1437-1446, é uma luta evidente na qual tenta se distanciar do estilo gótico e medieval para dar lugar às ideias inovadoras do Renascimento. Mas seu principal trabalho com a temática da cruz foi em sua releitura da crucificação, 1441, na qual podemos verificar que as tradicionais figuras humanas foram substituídas por membros da ordem dominicana. cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "A Adoração da Santíssima Trindade" de Masaccio (Wikicommons).cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "A Anunciação" de Fra Angelico (Wikicommons).cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "A Crucificação" de Fra Angelico (Wikicommons).
Uma das maiores contribuições para o Renascimento foi a técnica da pintura a óleo, a qual proporcionou uma maior ênfase no interior, dando uma melhor precisão de detalhes. Rogier van der Weyden, em Bruxelas, foi pioneiro em seus “Sete Sacramentos”, 1445. A crucificação ocupa o painel central e a obra idealiza a igreja como o centro da vida. Seu outro quadro, “A Descida da Cruz”, 1435 – 1438, é a maior pintura de Rogier – considerada realista e de extrema força emocional, como evidenciam as cores e detalhes. A obra é considerada um ponto alto do Renascimento. cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "Sete Sacramentos" de Rogier Van Der Weyden (Wikicommons).cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "A Descida da Cruz" de Rogier Van Der Weyden (Wikicommons).
O ilustrador Albrecht Dürer também criou várias versões da crucificação e deu novo tratamento ao tema no que se refere à luz e às cores da temática, como pode ser verificado em seus quadros “A Adoração da Santíssima Trindade”, 1511, e “Mantegna”, 1456-60. Essa nova estética veio de Veneza. Neste contexto está um dos artistas mais poderosos da arte sacra de república italiana: Tintoretto. Ele pintou enormes frescos na escola de São Roque – hoje um santuário artístico e ponto turístico. Sua versão da paixão de Cristo é colossal e lança um novo olhar sobre o episódio bíblico, caracterizado pela intensidade barroca. Foi considerado o responsável por uma nova era da pintura sacra. cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "Adoração da Santíssima Trindade" de Dürer (Wikicommons).cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "Crucificação - Mantegna" de Dürer (Wikicommons).
Em El Greco (1541-1614), a arte da cruz lembra o peso da espiritualidade severa de outrora, como na arte medieval. No entanto, o pintor rompe com a tradicional forma de perspectiva renascentista. Rembrandt (1606-1669) chega com força no movimento artístico e, como protestante, discretamente prenuncia o início de novos olhares sobre a temática. O pintor abusa do contraste entre luzes e sombras como uma metáfora acerca da luta entre a morte e a vida na cruz. cristo, crucificacao,<br /><br />
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© "Crucificação" de El Greco (Wikicommons).
Com o passar dos anos, o Cristo representado nas cruzes tornou-se diferente – e de forma radical, com a ausência do Cristo na cruz. A Reforma Protestante, no século XVI, veio retratar uma cruz vazia – já que não adoravam um Cristo pregado a ela e sim um Cristo ressurreto, que venceu a morte na cruz. Este fato providenciou uma retaliação pela Contra-Reforma, que tem no espanhol Diego Velázquez (1599-1660) um dos grandes mestres. Ele ajudou a reativar a noção do Cristo pregado na cruz, de forma incisiva. Sua versão da crucificação de 1632 é solitária e intensa e, ainda hoje, é uma das mais conhecidas imagens de devoção do universo católico. cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "Crucificação" de Diego Velázquez (Wikicommons).
Com o modernismo, a arte sacra ganhava olhares mais sutis do que a profundidade da contrição que algumas pinturas evocavam. Um dos principais expoentes da nova concepção da cruz na arte foi o modernista Marc Chagall (1887-1985). Ele fundiu os relatos bíblicos com os episódios antissemitas que viveu, em plena Segunda Guerra Mundial. A crucificação de Chagall não enfatizava a devoção e a contrição espiritual, mas a luta de um povo transgredido, como em “Crucificação Branca”, 1938. A cruz, em Chagall, era seu luto a favor dos judeus. cristo, crucificacao, cruz, historia, pintura, religiao, simbolo
© "Crucificação Branca" de Marc Chagall (Wikicommons).
Desde sempre, o cristianismo tomou frente dos costumes, dos comportamentos e da arte da sociedade ocidental. E a crucificação inspirou as várias interpretações da cruz de Cristo que influenciaram toda a estética cultural - muito para além da história da arte ocidental. A cruz se tornou - e é ainda hoje - um dos mais poderosos símbolos culturais de todos os tempos.


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É interessante como os símbolos são percebidos pelos homens - e seu significado transforma-se no correr dos séculos: se um cidadão romano do 1º séc. A.C. pudesse andar em nossas cidades modernas, ao ver as igrejas com uma cruz encimada logo pensaria que ali seria um lugar de suplício (porque a lei romana só validava uma confissão de um criminoso se ela fosse conseguida mediante tortura!). Porque a cruz era um instrumento de tortura e execução - o mais cruel e temido. Mais até do que o empalamento, pois este era violentíssimo mas curto, enquanto que o suplício prolongado da vítima na imolação pela cruz poderia durar dias inteiros.

O Cristianismo é singular porque é a única fé que se regozija com o sofrimento de seu Messias e Senhor - porque seu sangue derramado o foi por toda a Humanidade, que fica assim limpa do pecado original de Adão. Mesmo assim, foi visto com muita estranheza e perplexidade junto aos orientais, africanos e índios das Américas pela sua exaltação de uma forma de tortura como exemplo de sacrifício e desprendimento - entre os Navajos e Sioux foi encarado como uma "barbaridade", da mesma forma que pelos mongóis (e olha que eles adoravam o Deus da Guerra e tinham uma cimitarra como símbolo divino!).

Aliás, mais um detalhe do advento da fé cristã: todas as religiões da Antiguidade - TODAS, sem exceção - professaram a crença vindoura em um ser iluminado (homem/divino) que viria a nosso mundo trazendo luz e conhecimento à Humanidade. O Cristianismo é o único que alega que ele já veio, seguido pelo Islamismo - no Corão islâmico, Jesus (ou Yeshu'a ben Yussef, em hebraico) é reconhecido como um verdadeiro "Homem de Deus" pelo profeta Muhammad (Maomé), sendo identificado como Seidna Issa (Senhor Jesus). E sua mãe Maria também é citada como "abençoada e santa".

Voltando aos símbolos: outro sinal que teve seu significado muito mudado foi a suástica (em sânscrito, Devanagari) - na Índia e todo o Oriente ela é desenhada invertida (sentido anti-horário) e representa boa sorte, felicidade - sendo também símbolo de ação, de manifestação, de ciclo e de perpétua regeneração; ornamenta o alto de templos budistas, hindus (é visto também entre os sikhs), parses e shintoístas. Os alemães o adotaram porque ele é um símbolo antiquíssimo (o mais antigo já encontrado) de um grupamento ariano que teria migrado há muitos milênios da Europa para a Índia, via Pérsia (criando originalmente as religiões do Zoroastrismo e o precursor do Hinduísmo, os Vedas).

Mas, se hoje algum eventual vizinho indiano seu ou meu colocar esse símbolo no alto da porta de entrada de seu lar, será hostilizado por professar o Nazismo e o anti-semitismo. E pode até ser preso, pois o Nazismo é proibido por lei.

Abs.

 

Só um misto de sado-masoquismo e ignorância leva à veneração de um instrumento de tortura e morte. Como diria o grande Lenny Bruce: se Jesus tivesse sido condenado à morte no sul dos EUA na década de 20, será que as crianças católicas usariam cadeirinhas elétricas penduradas no pescoço?

 

Pois é!

Ou talvez, se tivesse acontecido algumas décadas antes, o símbolo fosse um sujeito enforcado numa cruz... ou ainda com a cabeça numa guilhotina... 

E a maioria dos cristãos ainda acham a cruz um "lindo" símbolo da fé... Vá entender!

 

A relação entre a humanidade e a Cruz foi bem retrata no artigo sob o ponto de vista da estética. Tal estética, antes mesmo de ser retratada na arte, foi objeto de interpretação teológica, sendo ponto central no tema da salvação. Na ótica bíblíca do Novo Testamento, o Verbo/Palavra de Deus assumiu a condição humana até as as últimas consquências e, descendo às profundezas da morte, salvou a humanidade, fato que é objeto de fé por parte dos cristãos. Resumidamente, segundo tal interpretação, Deus escolheu assumir a condição humana, inclusive o sofrimento decorrente da luta contra o pecado que gera morte e violência, para salvar a humanidade, de tal modo que a cruz não mais é vista somente como instrumento de morte, mas como símbolo da doação de si em favor da vida. Cristo assumiu a Cruz para acabar com as cruzes que os poderes estabelecidos impõem às pessoas, especialmente aos fracos.

Quis apenas partilhar a interpretação corrente da minha comunidade de fé.

 

é lá no RS pelo menos temporariamente os tribunais estão desprovidos destas 'obras' de arte!!

e o melhor é que é graças a associação de lésbicas!! as mulheres botando pra quebrar!

 

A vida é curta demais para se beber cerveja barata!!

A folha é contra a corrupção no pt, no psdb não!!!

 Frede69

Tiraram os crucifixos, mas ficaram com os feriados e criaram um novo a Quinta Feira Santa, ai é fácil.

 

Os feriados e a música sacra (antigas, não essas dos padres cantores e sertanojo gospel!) são algumas das poucas coisas boas do cristianismo.

 

Estou sempre pensando com este tema do saudoso Monty Pyton com o Always Look on the Bright Side of Life

http://youtu.be/WlBiLNN1NhQ

Monty Python's Life of Brian - Always Look on the Bright Side of Life.
"Life's a Piece of Shit, When You Look at It."

 

Estou sempre pensando com este tema do saudoso Monty Pyton com o Always Look on the Bright Side of Life

http://youtu.be/WlBiLNN1NhQ

Monty Python's Life of Brian - Always Look on the Bright Side of Life.
"Life's a Piece of Shit, When You Look at It."

 

Salvador Dali, O Cristo de S.João da Cruz

Re: A humanidade e a cruz
 

Nao foi o unico dele sobre o tema.  O Corpus Hypercubus eh fantastico, esta entre as melhores artes do mundo do genero "crucifixo":

http://en.wikipedia.org/wiki/Crucifixion_%28Corpus_Hypercubus%29

Note que ele quebrou a simetria ao adicionar o cubo a mais aos pes e nao ao redor.  Ao invez de pregos ele so deixou aqueles 4 cubinhos flutuando la no meio, como pontuacao.

Nao tolero crucifixos, por sinal, mas Dali eh Dali!

Re: A humanidade e a cruz
 

Ainda sou mais o peixe. Parece comida; vida! A cruz é a espada, símbolo máximo da morte e seu terror. Inspiração no modo assírio de dominação pelo terror. Por mais que se doure a pílula.

 

"Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos."  1 Coríntios 1:23

 

E eu acrescento, é escândalo e loucura para protestantes e ateus.

 

O interessante da pintura de Grünewald é ver João Batista apontando o caminho para os cristãos, o sacrifício na cruz ao invés da teologia da prosperidade pregada pelo evangelicalismo americano.

 

E isso. Querem falar de arte, ótimo, mas a Cruz e esta de Sao Paulo.

 

Quem não desconfia de si próprio não merece a confiança dos outros (ditado árabe)

O apelo da cruz é muito maior, afinal, inevitavelmente, todos nós seres viventes carregamos uma.

Se bem que te compreendo, Bispo, tentando vender seu peixe...

 

A semeadura é livre, mas a colheita obrigatória.