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O carnaval, por Roberto Da Matta

Do Estadão

Carnaval & cinzas

09 de março de 2011 | 0h 00

Roberto Da Matta - O Estado de S.Paulo

Abandonar voluntariamente - e em nome de Deus e da pureza - essa carne que nos arrocha a alma é um notável movimento. Trata-se de proclamar, com Platão (o autor de toda a ideologia cristã) que os sentidos são inconfiáveis e que, de quando em vez, mas de modo dramático, devemos subverter a ordem clara do mundo da necessidade e da utilidade, por meio do jejum, da dieta vegetariana e de uma reclusão que nos coloca fora do mundo para, como os profetas e santos, experimentarmos um pingo da vida espiritual. É esse experimento que a Quaresma inaugura.

Quarenta dias de vida reflexiva e voltada para dentro e para o alto até o Sábado de Aleluia quando Cristo anuncia sua gloriosa volta no Domingo que minha querida e saudosa mãe sempre chamava "da Ressurreição". Eis um domingo tão qualificado quanto essa Quarta-Feira de Cinzas que todo ano me pauta, libertando-me da liberdade de escolher algo para escrever após o carnaval.

Mamãe, amazonense tradicional, que viveu existindo na Manaus dos seus sonhos, mesmo quando perambulou por Rio Largo e Maceió, Juiz de Fora e São João Nepomuceno, Niterói e Copacabana, recusava-se a tocar no seu piano músicas festivas na Quaresma. Não é bom, dizia em tom místico, atacando como alternativa algum compositor clássico e "mais pesado" como Beethoven ou Eduardo Souto. Neste "pesado" iam também alguns tangos que ficaram incrustados na minha mente como músicas nostálgicas de um momento mais reflexivo do que ativo.

Espero que o leitor tenha se "esbaldado" neste carnaval. Seja entrando na folia; seja afastando-se dela para recolher-se em alguma serra ou refúgio turístico, o que dá no mesmo. Em ambos os casos, o carnaval se faz presente pela criação e, mais que isso, pela reafirmação de que a vida sempre está em outro lugar, como diz Milan Kundera num dos seus livros mais belos e perturbadores. E não é isso que realiza a festa, esse momento mais típico do costume? Pois é ela, como sabiam os estudiosos do ritual e os romancistas, que o reaviva e alimenta, tornando-o real porque é obrigatória?

Em São João Nepomuceno ou Juiz de Fora, já não me lembro com precisão, fiz um severo retiro espiritual durante um carnaval. Quatro ou cinco dias a praticamente pão, água e orações. Tantas quanto as músicas que eram lançadas daquela década de 50. Um dia, o irmãozinho que ocupava a cela do meu lado pirou durante uma rodada de terços rezados a incenso e com joelhos em cima de caroços de milho. Mortificações da carne numa montanha nada mágica, enquanto meus amigos aspirantes de pecado fartavam-se de lança-perfume e abusavam do erotismo e dos beijos musicados na planície e no vale. Abusos legitimados pelas marchinhas lascivas que pediam para saçaricar e mamar.

Lembro até hoje aqueles olhos esbugalhados que interromperam a reza para perguntar com voz angustiada: Quem sou eu? O que estou fazendo aqui? Como acabei descobrindo muito tempo depois, a vida está sempre em outro lugar.

Tomas Mann escreveu uma extraordinária antropologia da festa e do ritual, antropologia muito mais aguda do que as tiradas "teóricas" presunçosas de muitos de nós, professores dessa contradição em termos que se chamava de "ciências sociais". Em algum lugar, ele diz o seguinte: "Aliás, haverá festas que, no fundo, não tenham uma ideia? Festas sem algum fundamento, festas irreais?".

Durante anos tentei responder a essa questão tomando como foco o carnaval que todo ano repetimos, na tentativa de abolir a diferença entre o presente e o passado. O que o carnaval diz do Brasil? Eis a pergunta que me perseguiu durante décadas e que, neste mesmo lugar de onde escrevo essas linhas, procurava responder.

Não tinha dúvidas do elo entre nossas contradições mais expressivas, que era vocalizado no carnaval. O governo, nega, mas o carnaval permite; a moralidade diz não, o carnaval, sim; na vida diária falamos e ouvimos discursos, no carnaval cantamos sem cantores; o real obriga o uso do uniforme e do avental, o carnaval faculta a máscara que engendra duas caras e sujeitos; na vida real somos todos visíveis, com a fantasia criamos uma invisibilidade; nos trancamos em casa, mas no carnaval nos escondemos na rua. "Quando as pessoas intentam se passar pelo que não são, a gente sabe que é preciso uma máscara", dizia um anônimo inglês em 1780, falando dos carnavais europeus.

Eu usei com riscos, e contra a corrente dos anos 70, a fórmula do mundo de ponta-cabeça para interpretar o carnaval brasileiro como um todo. Como uma matriz que promovia um conjunto de inversões hierárquicas, a mais surpreendente de todas sendo a substituição do homem pela mulher. E, no que diz respeito às representações da mulher, a substituição da Virgem-Mãe para o seu justo oposto, a sedutora Eva. Foi por isso que um australiano que vivia o seu primeiro carnaval no Rio escreveu a um amigo em Sydney o seguinte: caro John, largue sua mulher e compre uma passagem sem retorno para o Rio... 

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Eu até tinha boa impressão do sr. Roberto, mas algumas colocações lusofobas e uma certa subserviência aos americanos frustraram a minha admiração. Afirmou certa vez, com repulsa, que "nós ainda não nos separamos de Portugal", referindo-se ao nosso pretenso subdesenvolvimento. É preconceituoso e falso. Quem conhece Potugal sabe a enorme diferença que há entre as duas culturas e não é verdade que hoje o Brasil possa ser considerado subdesenvolvido. Se o sr. DaMatta queria o Brasil mais parecido com os EEUU, agora depois da tragédia repugnante de Realemgo, deve estar realizado.    

 

Historicamente o povo misturado brasileiro foi convencido para si mesmo de ser sub-raça, inferior, segunda classe. Um padrão de raciocínio diabólico que contamina a todos. Cito aqui, enquanto se espanca Monteiro Lobato, um exemplo do poder dessa subautomitificação nas palavras de um brasileiro Gigante e um Gigante do abolicionismo que ainda assim não livrou-se incólume da contaminação e chegou a desejar “aprimorar por vias 'caucasianas'” sua própria raça superior e, sem saber, mostrou desdém por outra raça ainda. Ele não é em nada menor por isso. Mas que sirva de exemplo do poder da praga que ainda hoje nos viola:
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“...atraída pela franqueza de nossas instituições e pela liberdade de nosso regime, a imigração européia traga, sem cessar, para os trópicos uma corrente de sangue caucásico vivaz, enérgico e sadio, que possamos absorver sem perigo, em vez dessa onda chinesa, com que a grande propriedade aspira a viciar e corromper ainda mais a nossa raça” - JOAQUIM NABUCO (O Abolicionismo. 5. ed., Petrópolis, Vozes, 1988, p. 170).

Durante mais de meio século de subserviência a este raciocínio, foi em grande parte o futebol e o carnaval que ajudaram a segurar um mínimo de autoestima nacional até que esta pudesse ser nutrida e, finalmente emergir (SOMENTE AGORA, E OLHE LÁ) e pudesse emergir para um patamar de autoestima mais elaborado e consistente que ainda estamos começando a experimentar.

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A  G E N T E   N Ã O   Q U E R  S Ó  C O M I D A” - Arnaldo Antunes.

 

Roberto DaMatta pode ter tido uma interpretaçãqo "revolucionária" (segundo ele - e apenas segundo ele) do Carnaval e da sociedade brasileira no anos 70. Mas hoje, está ultrapassado. Ja´deu!

 

O pobre Platão leva a culpa de todo tipo de estupidez ocidental. Aliás, Platão e o capiroto.

 

Concordo contigo, é uma injustiça. A culpa é só do platão, pedófilo maldito...

Att

Marcão I

 

Equivocado.

A náo ser pros que se guiam pela TV, pelos jornais, por orelhas de livros, e  pelas resenhas,  leituras de segunda mão, formando seus conceitos e preconceitos, ou pelos que desconhecem, p.ex., binômios já  há muito abordados por G. Freyre sobre a casa e a rua ( Sobrados e Mucambos, em especial).

Mas tem seu público, disso náo restam dúvidas:

E sabe muito bem criar e se criar, autopromover-se falando ora sobre carnaval, ora sobre futebol

( alguém aqui está esquecendo que RM também falou tecendo loas quando da eleiçao de Collor pra presidente, como sendo também sinal do espírito democratizante e liberal, momento de emancipaçao do  povo brasileiro?  Outra diferença com Darcy que via melhor de perto e de longe ).

E a gente aqui dando trela a essa figura (incensada pela mídia tal qual outro de cenho franzido e barba como o independente... cientista político ... B. Lamounier ). 

...

 

"Lo que los hombres realmente quieren no es el conocimiento sino la certidumbre ". - Bertrand Russell (1872-1970); filósofo y matemático inglés. (citação num boletim do av. Panda )

Samba de uma nota só, é o que é o Da Mata.

 

Seria ele as cinzas da quarta-feira de cinzas?

 

O cara fala há 30 anos a mesma coisa.

 

Quarta, 9 de março de 2011, 09h53 Atualizada às 10h45

Pesquisa: 77% dos moradores de Salvador fogem do carnaval

Negros são maioria entre os trabalhadores e os foliões pipocas do carnaval de Salvador
Negros são maioria entre os trabalhadores e os foliões "pipocas" do carnaval de Salvador

 

Claudio Leal

Os exageros númericos e outros pecados ufanistas costumam colorir a participação dos moradores de Salvador no Carnaval. Na contracorrente, uma pesquisa da Secretaria de Cultura (Secult) e da
Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI/Seplan) ajuda a medir o grau de envolvimento dos soteropolitanos e a esvaziar os clichês midiáticos sobre a festividade dos baianos.

Realizada em maio, junho e julho de 2009, a sondagem coletou informações da folia daquele ano, com entrevistados de 14 anos ou mais. Foram aplicados 6.677 questionários. De início, identifica-se um baixo de grau de envolvimento: 77% dos soteropolitanos (1,93 milhão) não comparecem a
nenhum dos seis dias do evento; desses resistentes, 62,7% ficaram em casa e 14,3% viajaram. Isso não significa que tenham se livrado totalmente do impacto do Carnaval - seja pela montagem (e transtornos) da estrutura, seja pelas transmissões das TVs (7,3% assistem à cobertura).

Apenas 19% se divertiram em blocos, em camarotes e na "pipoca" (como são enquadrados os foliões que preferem curtir sem pagar nada pelas atrações musicais). Traduzindo, 478 mil almas baianas vão atrás do trio elétrico; 100 mil (4%) ficam do outro lado do balcão e trabalham durante
o Carnaval. Nessa categoria de raladores estão as famílias de ambulantes que armam suas barracas nas franjas dos três circuitos momescos de Salvador.

"Ainda que o formato do Carnaval da Bahia priorize a faixa de público jovem, boa parte dos entrevistados (48,6%) entre 14 e 39 anos afirmou não ter ido à festa em 2009. Nesse grupo, viajar para outras cidades foi opção para 58,7%. Já entre a população acima de 40 anos (51,4%), a decisão de ficar em casa (53,7%) prevaleceu sobre a de viajar", revela a pesquisa. O Litoral Norte, a Ilha de Itaparica e as cidades do interior da Bahia são os principais destinos dos fujões.

Cores e letras

O abismo social é mais perceptível nas bordas das avenidas, ao se radiografar os foliões espremidos pelos blocos de corda e pelos camarotes. Entre os "pipocas", registra-se a maior taxa de analfabetismo e 1º grau incompleto (23,1%); 47,1% declararam ter 2º completo e 3º grau incompleto. Para efeito comparativo, os iletrados representam cerca de 3% dos habitués dos camarotes.

Você não estará errado se apontar a insegurança como a principal queixa dos que fugiram do bate-barriga. "Para justificar esse comportamento, diversas razões foram apontadas: falta de segurança (47,1%), desgosto pelas atrações (8,9%), falta de dinheiro (7,9%) e diversos outros motivos (34,3%). Nesse caso, foram citadas cinco principais razões, por ordem de importância: limitações familiares diversas, proibição religiosa, problemas de saúde, oportunidade para descansar e desgosto
pela festa", diz o relatório "Comportamento dos residentes em Salvador no Carnaval 2009".

No corte étnico, nenhuma surpresa: 85,1% dos foliões pipocas são negros; 14,9%, brancos. No andar de cima - o camarote -, a parcela de brancos sobe para 40,9%. Numa cidade de maioria negra ou parda, 59,1% dos frequentadores dos camarotes são negros. Uma lembrança, apenas: a pesquisa contabiliza os residentes em Salvador, e não os turistas, predominantemente brancos e usuários contumazes dos espaços VIPs, sub-VIPs ou quase VIPs.

Na viração dos trabalhadores da festa - de servidores públicos e cordeiros a seguranças particulares e ambulantes -, a lógica da Casa Grande & Senzala predomina. De quem são as mãos? 88,7% de negros. "Buscando traçar o perfil do trabalhador do Carnaval, verifica-se que este indivíduo é principalmente homem, de cor negra, com idade superior a 25 anos e não migrante".

Agora, as patacas, os caraminguás. O gasto diário médio de um pipoca estaciona em R$ 31,11; nos blocos, os baianos desembolsam R$ 162; nos camarotes, um pouco menos: R$ 112,62. E não se deve esquecer dos drinks e petiscos livres em camarotes como o "Daniela Mercury" e o "2222", pilotado por Flora Gil (neste último, o orçamento chegou a R$ 5 milhões; 1.200 convidados). Em 2009, o gasto total dos foliões beirou os 127,7 milhões. Há os camarotes pagos e os "de grátis", cujos convites são disputados por classes de A a Z.

"Vale salientar que nem sempre a renda mensal dos indivíduos está diretamente relacionada aos valores aplicados na festa. De um lado, o crédito disponibilizado por empresas, a exemplo da Central do Carnaval, ou via internet, possibilita à população de menor poder aquisitivo acesso aos blocos caros. De outro, a rede de relacionamentos dos indivíduos de maior nível de renda favorece a participação gratuita em blocos e camarotes patrocinados", descreve o relatório.

Em 2011, o governo da Bahia aplicou cerca de R$ 53 milhões no Carnaval de Salvador. Desse total, algo em torno de R$ 23 milhões para garantir a segurança.

A prefeitura da capital arrecadou R$ 15 milhões com a venda das cotas de publicidade em espaços públicos para as empresas Samsung, Petrobras, Itaú e Schin, além do governo estadual (lotes superiores a R$ 3 milhões). Outros patrocinadores menores, em geral empresas de mídia, investiram cada um R$ 150 mil. A prefeitura terceiriza a passagem do chapéu. As agências do consórcio OCP/Mago abocanharam uma comissão de 20% - em grana, um trocadinho de R$ 3 milhões.

Os números milionários da festa e a pesquisa do governo baiano não condensam toda a realidade, mas ajudam a entender as nuances de poder no maior carnaval brasileiro. Quem manda, e como manda, exige uma outra radiografia.

 

fonte: Terra

Link:http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4979467-EI6581,00-Pesquisa+dos+moradores+de+Salvador+fogem+do+carnaval.html

 

Isto prova que 77 % dos Soteropolitanos são pessoas inteligentes.

Por outro lado , tinha Paulista pulando ao redor do trio elétrico de Claudia Leite e de Hebe.

 

Sou inteligente, então, me mandei para  Ilhéus e cercanias.

 

Não  suporto mais ver as mesmas caras, tipo de música.

 

Carnaval em Salvador  não se renova.

 

O extraordinário estudo da Maria Isaura Pereira de Queiroz sobre o "Carnaval Brasileiro" desmistifica essa ideologia do Carnaval que tem no pensamento do Da Matta.  

 

Se no Brasil não tivesse carnaval em 2010 teríamos um  crescidos não 7,5 % do PIB , mais 8,0% do PIB.

O catolicismo pagão atrapalha o Brasil até no crescimento. Eu odeio o carnaval.

 

Abandonar voluntariamente - e em nome de Deus e da pureza - essa carne que nos arromba

Meu deus, li tudo errado

 

Roberto  Da Matta,a cada vez  que   seu nome    é estampado  nos veículos do PIG,lembro de Darcy Ribeiro.Este  sim ,um antropólogo de campo e academia,provocava   em  Da Matta, reações  públicas   de inveja. Tentou construir   ,talvez ,mais para si do que para  os outros,uma fantasiosa rivalidade intelectual.Escolheu a  vida  acadêmica nos EUA que por si só apontam  a diversidade ideológica com seu idealizado  rival.Contudo,observo o  denodado esforço  de digladiar com a mediocridade que   tem lhe imposto insistente cerco.Ainda que inútil...

 

Concordo consigo, Durval.

Mas há algo que gostei no texto. Foi o parágrafo sobre o máskara. Seria sobre aquele filme homônimo, em que o estudioso de mitologia fala sobre a metáfora das máscaras para o atônito Sr. Ipkins? Hehehehe...

 

Durval, desde as eleições para governador do Rio em 1986 que não "engulo" esse senhor. Seu comentário diz tudo.

 

O mal é o que sai pela boca.