do blog do Juca Kfoury – 29/06/2013
Como militar, Dinorah Candido de Assis aspirava ser oficial da Marinha; como jogador, era titular do Botafogo Futebol Clube. Defendera o América até 1908, mas em agosto do ano seguinte, quando Euclydes da Cunha, autor de Os Sertões, entrou na casa na Estrada Real de Santa Cruz para matar seu irmão Dilermando, amante da esposa do escritor, Dinorah já se transferira para o futuro time da Rua General Severiano.
Esbelto em sua farda, craque em seu uniforme, a bala desferida por Euclydes da Cunha, quando Dinorah correu para pegar a arma, permaneceu alojada em sua espinha dorsal, próximo da nuca.
Em 1910, ainda com a bala no corpo, o jogador ajudou o Botafogo a conquistar seu primeiro campeonato. Justamente o citado no hino:
Hino que teve, um dia, a preposição “de” expulsa de campo, substituída por “desde” – não sem um certo sacrifício melódico. Porque torcedores rivais brincavam: teriam sido campeões apenas “de 1910″. Afinal, estava no hino.
Coggin, Pullen e Dinorah; Rolando, Lulu e Lefévre; Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro. Esta foi a equipe que deu ao Botafogo a alcunha de glorioso.
Dinorah atuava na zaga e chamava a atenção pelo vigor dos chutes, pelo bom posicionamento, pela calma e precisão dos passes. Disputou nove das dez partidas. Na “final” (o último jogo deste campeonato ainda sem Flamengo e Vasco foi mesmo contra o Haddock Lobo), seu time derrotou o Fluminense por 6 x 1. E o irmão de Dilermando de Assis – o homem que matou Euclydes da Cunha – estava lá.
Com o tempo o projétil na coluna vertebral trouxe complicações, e apesar da intervenção cirúrgica de 1913 Dinorah tornou-se hemiplégico. A doença destruiu suas carreiras, no esporte e nas forças armadas. Teve um fim de vida trágico: entregue ao vício do álcool, infectado pela sífilis, paralítico, atirou-se ao mar. No cais de Porto Alegre, em 1921. No lance menos divulgado da Tragédia da Piedade.
Dinorah Candido de Assis na Marinha
Dinorah Candido de Assis no Botafogo, em pé à direita
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* Carlos Didier, convidado especial é flamenguista, historiador da música popular brasileira e da cidade do Rio de Janeiro. Engenheiro e músico é autor de “Noel Rosa, uma biografia”(em parceria com João Máximo); de “Orestes Barbosa, cronista e poeta” (prêmio Jabuti de biografias) e “Nássara passado a limpo”, além de várias outras publicações. Foi um dos fundadores do grupo musical “Coisas Nossas” que fez história interpretando a obra de Noel Rosa. Aqui, Carlos Didier (Caola) e o conjunto “Coisas Nossas” interpretando trechos inéditos de “Com que Roupa?” de Noel Rosa, programa gravado em 1984.


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