20 de julho de 2026

Vale a pena trabalhar por aplicativo? Estudo mostra impactos da jornada, custos e direitos

Apesar da renda mensal próxima à média, ganhos são menores quando se leva em conta a jornada e as despesas da atividade
Agência Brasil

Motoristas de aplicativo trabalham 44,8 horas semanais, ganhando R$ 2.996 em média, abaixo da renda média brasileira.
Plataformas controlam preços, corridas e avaliações, limitando a autonomia dos motoristas, segundo estudo do TST.
Custos altos e ausência de direitos trabalhistas expõem motoristas a riscos, endividamento e falta de proteção social.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Ao olhar o valor depositado na conta no fim do mês, o motorista de aplicativo pode até ter a impressão de que ganhou mais do que outros trabalhadores. Porém, ao considerar o tempo dedicado à atividade, o panorama muda significativamente.

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Um estudo do Tribunal Superior do Trabalho (TST) revela que a renda desses profissionais é impactada por jornadas de trabalho mais extensas, custos elevados para manter a atividade e um modelo no qual a maior parte dos riscos recai sobre o próprio motorista.

De acordo com a pesquisa, o rendimento médio mensal dos motoristas de aplicativo é de R$ 2.996. Esse valor supera o salário mínimo federal, atualmente fixado em R$ 1.621, mas permanece abaixo da renda média dos brasileiros, considerando todas as fontes de rendimento, que atingiu R$ 3.367 em 2025.

Enquanto a jornada média da população trabalhadora em geral é de 39,3 horas semanais, os motoristas de aplicativo dedicam cerca de 44,8 horas por semana à atividade. Como resultado, o rendimento por hora desses profissionais é 8,3% inferior ao de quem trabalha fora das plataformas.

O levantamento integra um diagnóstico mais amplo sobre o trabalho por aplicativos no Brasil, com foco especial no transporte de passageiros, segmento que concentra a maior parte desses trabalhadores. Atualmente, o país tem cerca de 1,7 milhão de pessoas atuando por meio de plataformas digitais, sendo que quase 60% delas estão no transporte de passageiros.

O estudo do TST reuniu dados oficiais de instituições como IBGE, OIT, Ipea e Dieese, somados a pesquisas empíricas que acompanharam a rotina de motoristas. Com essa base, os pesquisadores calcularam despesas reais da atividade, faturamento e jornadas de trabalho.

Liberdade questionada

Um dos principais argumentos das empresas de aplicativo é que esse modelo de trabalho oferece liberdade e flexibilidade aos motoristas. No entanto, o estudo do TST contesta essa ideia: na prática, esses profissionais têm pouca influência sobre decisões importantes relacionadas à atividade.

As plataformas determinam o valor das corridas, distribuem as chamadas entre os motoristas e podem até bloquear o acesso de trabalhadores ao sistema. Mais de 90% dos motoristas afirmam não ter nenhum controle sobre os preços cobrados nas viagens.

Segundo o levantamento, o controle sobre o trabalho não deixou de existir, apenas mudou de formato. No lugar da supervisão direta de um chefe, entram em cena sistemas de avaliação, notas e rankings, que podem determinar diretamente o volume de corridas recebidas por cada motorista. Aqueles que recusam muitas viagens ou acumulam avaliações baixas tendem a receber menos oportunidades dentro da plataforma.

Custos do trabalhador

Outro aspecto destacado pelo TST é que praticamente todos os custos da atividade são arcados pelo próprio trabalhador. Combustível, manutenção do veículo, seguro, impostos, alimentação e até a internet usada durante o expediente saem do bolso do motorista.

Quando essas despesas são incorporadas ao cálculo, o ganho real do profissional diminui de forma expressiva. O estudo estima que os custos mensais da atividade podem ultrapassar R$ 5.500. A pesquisa aponta ainda que a falta de transparência sobre esses gastos pode gerar uma percepção distorcida a respeito da renda efetivamente gerada pelo trabalho.

Esse cenário também se reflete no endividamento dos motoristas: dados citados no levantamento mostram que 92% dos trabalhadores de plataformas estão endividados. Em alguns casos, as próprias empresas oferecem linhas de crédito diretamente aos motoristas — o que faz com que o trabalhador passe a depender do aplicativo não só para gerar renda, mas também para quitar dívidas, muitas vezes descontadas diretamente de seus ganhos.

Ausência de proteção trabalhista

A falta de proteção trabalhista é apontada como outro problema central pelo estudo. A maioria desses profissionais não tem acesso a direitos básicos, como férias, 13º salário, seguro-desemprego ou aposentadoria garantida.

Mais de 60% dos motoristas não contribuem para a Previdência Social, e entre os principais motivos estão a instabilidade da renda e a dificuldade de manter pagamentos regulares.

Sem essa rede de proteção, qualquer imprevisto pode comprometer a fonte de renda do trabalhador, explica o TST. Uma doença, um acidente ou até mesmo um problema mecânico no veículo podem deixá-lo sem ganhos, já que as plataformas não oferecem suporte equivalente para esses casos. Além disso, os motoristas estão expostos diariamente a riscos como acidentes de trânsito e violência urbana, sem garantias de assistência nessas situações.

A pesquisa também chama atenção para a dificuldade de organização coletiva entre os trabalhadores. A comunicação com as plataformas costuma se dar por canais automatizados, como chatbots, e decisões como bloqueios de conta nem sempre permitem contestação por parte do motorista.

Novas medidas

Para os autores do estudo, o modelo atual de trabalho por aplicativos transfere aos trabalhadores boa parte dos custos, riscos e responsabilidades da atividade.

O TST ressalta que o debate sobre o tema precisa ir além da discussão sobre a existência ou não de vínculo empregatício, incluindo também medidas que garantam condições mínimas de trabalho, remuneração adequada e proteção efetiva para esses profissionais.

*Com informações do g1.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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