21 de julho de 2026

Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (1), por Maurício Luperi

A pergunta que raramente aparece no debate é: como é organizado o sistema financeiro que financia empresas e famílias?
Reprodução

Debate sobre crédito no Brasil foca na Selic, mas ignora a estrutura do sistema financeiro que financia empresas e famílias.
Brasil tem instrumentos financeiros, mas pequena e média empresas dependem majoritariamente dos bancos para crédito.
Nos EUA, diversidade de instituições e instrumentos reduz dependência bancária; Brasil busca modelo plural e competitivo.

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Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil

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Artigo 1 – Existir não basta: o que realmente significa aprofundar o mercado financeiro?

por Maurício Martinelli Luperi

Quando falamos em reduzir os juros e ampliar o crédito no Brasil, quase sempre o debate termina na mesma discussão: a Selic.

Uns afirmam que basta reduzir a taxa básica de juros. Outros sustentam que, antes disso, é preciso fazer um grande ajuste fiscal. Ambos os lados discutem variáveis importantes, mas deixam de lado uma questão ainda mais fundamental:

como é organizado o sistema financeiro que financia empresas e famílias?

Essa pergunta raramente aparece no debate público.

Talvez porque exista uma impressão equivocada de que o Brasil já possui um mercado financeiro sofisticado. Afinal, temos Bolsa de Valores, debêntures, FIDCs, securitização, fintechs, cooperativas de crédito, bancos públicos e privados, notas comerciais, fundos de investimento e uma ampla regulamentação conduzida pelo Banco Central e pela CVM.

Se todos esses instrumentos existem, qual seria então o problema?

A resposta é simples:

existir não significa possuir profundidade.

Essa diferença é fundamental.

Imagine uma cidade que possui apenas um hospital para um milhão de habitantes.

Ninguém diria que ela dispõe de um sistema de saúde adequado apenas porque o hospital existe.

A questão relevante não é a existência do serviço, mas sua capacidade de atender a população.

Com o mercado financeiro acontece exatamente a mesma coisa.

Um país possui um mercado financeiro profundo quando diferentes empresas conseguem captar recursos por diferentes instrumentos, competindo entre diversos financiadores, em prazos variados, com custos compatíveis e distribuídos regionalmente.

Não basta que exista uma lei permitindo determinada operação.

É preciso que ela seja utilizada em larga escala.

O que é aprofundamento financeiro?

Ao longo desta série utilizaremos um conceito simples.

Aprofundamento financeiro é o processo de ampliação da quantidade, da diversidade, da concorrência, da liquidez e da acessibilidade dos instrumentos e instituições que financiam empresas e famílias.

Isso significa aumentar simultaneamente:

  • o número de financiadores;
  • o número de instrumentos disponíveis;
  • os prazos de financiamento;
  • a concorrência entre instituições;
  • a distribuição regional do crédito;
  • o acesso das pequenas e médias empresas;
  • as alternativas disponíveis para consumidores.

Em outras palavras, trata-se de reduzir a dependência de poucos bancos como principal porta de entrada para o crédito.

O Brasil possui instrumentos. Mas quem consegue utilizá-los?

Essa talvez seja a pergunta mais importante.

Grandes empresas brasileiras conseguem emitir debêntures.

Algumas acessam notas comerciais.

Outras recorrem aos FIDCs ou à securitização.

Empresas listadas podem emitir ações.

Tudo isso existe.

Mas e uma indústria de médio porte em Ribeirão Preto?

Uma empresa de software em Recife?

Uma fábrica de móveis em Caxias do Sul?

Uma transportadora em Goiânia?

Uma pequena empresa familiar em Uberlândia?

Na imensa maioria das vezes, a resposta continua sendo praticamente a mesma:

elas dependem dos bancos.

Isso ajuda a compreender por que o sistema financeiro brasileiro permanece altamente concentrado.

Quanto menor o número de alternativas, maior tende a ser o poder de mercado das instituições dominantes.

O problema não é apenas o volume de crédito

Existe outro equívoco frequente.

Muitos imaginam que aprofundar o mercado financeiro significa simplesmente aumentar o crédito.

Não é isso.

Dois países podem possuir exatamente o mesmo volume total de crédito como proporção do PIB.

Ainda assim, um deles pode apresentar um sistema muito mais desenvolvido.

A diferença está na arquitetura institucional.

Quem empresta?

Quem compete?

Quem consegue acessar os recursos?

Quais empresas ficam excluídas?

Quais são os prazos disponíveis?

Quais são as garantias?

Existe mercado secundário?

Os investidores conseguem negociar esses ativos?

As pequenas empresas conseguem emitir títulos?

Essas perguntas são muito mais importantes do que simplesmente observar o estoque agregado de crédito.

A comparação com os Estados Unidos

É justamente aqui que a comparação com os Estados Unidos se torna interessante.

O objetivo desta série não será defender uma simples “cópia” do modelo americano.

Os Estados Unidos possuem outra história, outra federação, outro sistema jurídico e outro mercado financeiro.

Mas há uma lição importante.

O financiamento da economia americana não depende apenas dos grandes bancos.

Existe uma enorme variedade de instituições e instrumentos que competem entre si.

Grandes empresas, médias empresas, pequenos negócios e consumidores utilizam canais bastante diferentes para obter financiamento.

Essa diversidade reduz a dependência de um único tipo de intermediário.

E aumenta a concorrência.

Uma agenda para o Brasil

Nas próximas semanas discutiremos detalhadamente:

  • como grandes empresas são financiadas nos Estados Unidos;
  • como médias empresas conseguem crédito;
  • como pequenas empresas acessam recursos;
  • qual é o papel dos bancos regionais, cooperativas e fintechs;
  • como funciona o crédito ao consumidor americano;
  • quais instrumentos já existem no Brasil;
  • quais poderiam ser aperfeiçoados;
  • quais reformas legais, regulatórias e institucionais poderiam ampliar o financiamento produtivo brasileiro.

O objetivo não é importar modelos estrangeiros.

É compreender quais mecanismos funcionam, por que funcionam e de que maneira poderiam ser adaptados à realidade brasileira.

Porque uma economia moderna não se desenvolve apenas reduzindo juros.

Ela se desenvolve quando empresas e famílias deixam de depender de uma única porta de entrada para o crédito e passam a contar com um sistema financeiro verdadeiramente plural, competitivo e profundo.

Leitura recomendada

  • LEVINE, Ross. Financial Development and Economic Growth: Views and Agenda. Journal of Economic Literature, v. 35, n. 2, p. 688-726, American Economic Association, 1997. (Artigo clássico que sistematiza a relação entre desenvolvimento financeiro e crescimento econômico.)
  • ALLEN, Franklin; GALE, Douglas. Comparing Financial Systems. Cambridge, MA: MIT Press, 2000. (Obra de referência sobre diferentes modelos de sistemas financeiros no mundo.)
  • RAJAN, Raghuram G.; ZINGALES, Luigi. “Financial Dependence and Growth.” American Economic Review, v. 88, n. 3, p. 559-586, American Economic Association, 1998. (Mostra empiricamente como o desenvolvimento financeiro favorece setores mais dependentes de financiamento externo.)
  • BECK, Thorsten; DEMIRGÜÇ-KUNT, Asli; LEVINE, Ross. Finance, Inequality and the Poor. Journal of Economic Growth, v. 12, n. 1, p. 27-49, Springer, 2007. (Analisa como o aprofundamento financeiro pode reduzir desigualdades por meio da ampliação do acesso ao crédito.)
  • EICHENGREEN, Barry. Hall of Mirrors: The Great Depression, the Great Recession, and the Uses—and Misuses—of History. New York: Oxford University Press, 2015. (Discute o papel do sistema financeiro nas grandes crises econômicas.)
  • DE PAULA, Luiz Fernando. Sistema Financeiro, Bancos e Financiamento da Economia: Uma Abordagem Keynesiana. Rio de Janeiro: Elsevier (Campus), 2014. (Uma das melhores referências brasileiras sobre estrutura bancária, financiamento e desenvolvimento.)
  • STUDART, Rogério. Investment Finance in Economic Development. London: Routledge, 1995. (Obra clássica sobre sistemas financeiros voltados ao desenvolvimento.)
  • MERTON, Robert C.; BODIE, Zvi. “A Conceptual Framework for Analyzing the Financial Environment.” In: DWIGHT B. CRANE et al. (eds.). The Global Financial System: A Functional Perspective. Boston: Harvard Business School Press, 1995. (Apresenta a visão funcional dos sistemas financeiros.)
  • Banco Central do Brasil. Relatório de Estabilidade Financeira. Brasília: Banco Central do Brasil. Publicação semestral.
  • Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Relatório Anual e estudos sobre desenvolvimento do mercado de capitais. Rio de Janeiro: CVM.
  • ⁠ ZYSMAN, John. Governments, Markets, and Growth: Financial Systems and the Politics of Industrial Change. Ithaca: Cornell University Press, 1983.

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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Mauricio Luperi

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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