19 de setembro de 2026

Bets avançam entre jovens e ampliam risco de dependência

Facilidade de acesso pelo celular e publicidade nas redes sociais aumentam exposição de adolescentes e jovens às apostas online
Foto de Marco Cavalcanti - UFU - Reprodução

Apostas online crescem entre jovens brasileiros, com adolescentes a partir dos 14 anos buscando ajuda para dependência.
Pesquisa indica que 9,5% dos estudantes apostaram pela primeira vez aos 11 anos; quase metade do 3º ano já apostou.
ECA Digital de 2025 proíbe apostas para menores e exige verificação de idade nas plataformas digitais.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O crescimento das apostas online tem ampliado a exposição de adolescentes e jovens brasileiros às chamadas bets e aumentado a preocupação de especialistas com os casos de dependência. Relatos de grupos de apoio indicam que pessoas cada vez mais jovens procuram ajuda para interromper o comportamento compulsivo.

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Segundo a Agência Brasil, em matéria de Ana Lúcia Caldas, integrantes da irmandade Jogadores Anônimos relatam a presença de adolescentes a partir dos 14 anos entre as pessoas que buscam auxílio. O acesso permanente às plataformas pelo celular é apontado como um dos fatores que facilitam a prática e dificultam o controle sobre as apostas.

Um dos casos relatados é o de Gustavo Pereira, de 24 anos, que começou a apostar aos 18. Ao longo de seis anos, ele afirma ter perdido cerca de R$ 500 mil. Depois de interromper as apostas, passou a vender café nas ruas de Lages, em Santa Catarina, e utiliza as redes sociais para relatar sua experiência e falar sobre a tentativa de superar a dependência.

Jovens estão mais expostos

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil apontam que a facilidade de acesso às plataformas é especialmente preocupante entre adolescentes. Dados do Unicef citados pela reportagem indicam que uma parcela significativa das pessoas começa a ter contato com apostas online ainda na infância ou adolescência.

Uma pesquisa realizada no Brasil com 1.912 estudantes dos ensinos fundamental e médio mostrou que 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos. Entre os estudantes do terceiro ano do ensino médio, quase metade declarou já ter realizado apostas.

A psicóloga Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que adolescentes podem apresentar maior vulnerabilidade aos estímulos das apostas porque áreas do cérebro relacionadas ao controle dos impulsos e à avaliação de riscos ainda estão em processo de amadurecimento.

Endividamento e impactos na educação

Os efeitos das apostas também aparecem no orçamento das famílias e na trajetória educacional dos jovens. Relatório do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) estima que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024. Segundo o levantamento, quase metade desse grupo ficou endividada.

Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) aponta que 34% dos entrevistados disseram que precisariam reduzir os gastos com apostas para conseguir iniciar uma graduação em 2026. Entre estudantes já matriculados no ensino superior, 14% afirmaram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso em razão dos gastos com bets.

O levantamento também identificou impacto sobre outras formas de formação: 34% disseram ter deixado de investir em cursos, idiomas ou outras atividades de aprendizagem por causa das apostas.

Para o diretor-geral da ABMES, Paulo Chanan, os dados não permitem generalizar o comportamento dos jovens, mas indicam que, para uma parcela dos estudantes, os gastos com apostas já interferem em decisões relacionadas à educação.

“Cassino no bolso”

Para integrantes dos Jogadores Anônimos, a principal diferença em relação às modalidades tradicionais de jogo está na disponibilidade permanente das apostas. Se antes era necessário deslocar-se até um estabelecimento para jogar, hoje o acesso às plataformas ocorre diretamente pelo celular.

O diretor do IBICT, Tiago Braga, ressalta que as apostas não devem ser tratadas como investimento, mas como uma forma de gasto que pode comprometer recursos destinados a despesas básicas, como alimentação, moradia e educação. A instituição também chama atenção para a associação entre endividamento provocado pelo jogo e sofrimento psicológico.

Publicidade e influência nas redes

Outro ponto destacado por especialistas é a publicidade direcionada a crianças e adolescentes nas plataformas digitais. Estudo do IBICT identificou estratégias utilizadas em redes sociais para estimular o público jovem a apostar online.

A psicóloga Mariana Kehl observa que a publicidade feita por influenciadores pode ser particularmente persuasiva entre adolescentes, já que a mensagem pode ser recebida mais como uma recomendação de alguém de confiança do que como uma propaganda convencional.

Novas regras para crianças e adolescentes

A reportagem também destaca as mudanças introduzidas pelo Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), sancionado em 2025 e em vigor desde março de 2026. A legislação estabeleceu novas regras para proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, incluindo mecanismos de verificação de idade e maior responsabilidade de plataformas, famílias e Estado.

Menores de 18 anos não podem realizar apostas online. A legislação também estabeleceu restrições relacionadas a outros conteúdos e mecanismos de jogos digitais, como as chamadas loot boxes, que oferecem itens aleatórios mediante pagamento.

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil ressaltam, porém, que a prevenção não depende apenas da fiscalização das plataformas. Educação digital, orientação familiar, atuação das escolas, acompanhamento psicológico e políticas públicas são apontados como medidas necessárias para reduzir a exposição de crianças e adolescentes aos riscos associados às apostas.

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