31 de julho de 2026

O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista do Recife, por Urariano Mota

Miró está ao lado de Solano não pela consciência socialista, de marxismo, mas pela consciência de classe vivida, negra, expressa em poesia
Miró da Muribeca em foto de Felipe Ribeiro - Arquivo Folha de Pernambuco - Reprodução

Miró da Muribeca, poeta negro e antirracista do Recife, faleceu em 31 de julho de 2022, pouco lembrado pela mídia.
Miró é comparado a Solano Trindade por sua poesia de consciência negra e de classe, que impacta e denuncia desigualdades.
Conhecido por humor e resistência, Miró enfrentou discriminação policial e expressava sua identidade nas ruas do Recife.

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O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista do Recife *

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por Urariano Mota

Quando às vezes nos encontramos cansados, ou com  a mais incômoda esterilidade,  eis que cai sobre nós um assunto ou pessoa que exige merecidas linhas. Este é o caso do poeta Miró da Muribeca, que faleceu em 31 de julho de 2022. Faz só quatro anos, e parece que ninguém mais o lembra! Os jornais não registram a data, os portais na internet não percebem a sua falta, então é preciso que um escritor conterrâneo e de origem fraterna o lembre.   

Em um Recife de tantas vozes negras, entre as quais poucas se veem como afrodescendentes, ponho Miró da Muribeca ao lado de Solano Trindade, o grande poeta comunista, que legou poemas inesquecíveis como “Tem gente com fome”. Miró está ao lado de Solano não bem pela consciência socialista, de marxismo, mas pela consciência de classe vivida, negra, expressa em poesia que é um soco no estômago de toda a gente.    

Tantas coisas a falar sobre Miró. Tantas, que nem consulto anotações e textos anteriores, como os que escrevi sobre a sua biografia publicada pela CEPE, e no Dicionário Amoroso do Recife. Seria fácil, copiar e colar. Mas não, à sua maneira, vou improvisando no livre fluxo da memória. De repente, estou com ele no Recife, próximo ao Bar Mamulengo, tiramos fotos. Ou na Rua do Bom Jesus, onde lhe digo, “Miró, escrevi sobre você”, e ele, grande, se curva num cumprimento que é uma graça. Ou diante da sua estátua, e recito versos em que o poeta fala que nas farmácias não existe remédio para a dor da saudade. Ou seria algo contra a dor da falta de amor? 

De outra oportunidade, me contam que Miró estava numa roda de jovens na Rua da Moeda, no Recife Antigo, e os policiais o escolhem para sofrer um “baculejo” (gíria para a vistoria policial no corpo de uma pessoa). Ele foi O escolhido. Então, de volta à mesa, os jovens se revoltam contra a discriminação da polícia. E Miró os consola:

– Nada, véi, tudo bem. Fazia tempo que ninguém pegava no meu saco.

E todos riem. Pois Miró era assim, ele arrancava do trágico, ou do dramático, a maior comicidade. Como numa declamação de poema, na Bienal do Livro, onde foi sucesso absoluto entre os jovens recifenses de todas as cores e classes. No palco, ele declamou, pelo que cito de memória:

“- Mãe, pai fumava maconha?

E a mãe:

–  Já tá querendo saber demais!”.

Ou quando, em surtos ou contestação, andava de saia, de vestido, pelas ruas do Recife. A qualquer estranheza, ele respondia: “É a roupa da minha mãe que morreu. É assim que me lembro dela”. Ou quando o encontrei, no Pátio de Santa Cruz, no dia em que me dirigia pra falar sobre o grande músico de frevo Maestro Nunes, numa missa de sétimo dia, e no bar às 9 da manhã Miró já estava bebendo a sua cerveja. E lhe disse:

– Miró, vamos homenagear o Maestro Nunes, aqui perto, na Igreja de Santa Cruz. Você vem?

E ele, com um sorriso:

– Depois, eu vou.

E fiquei com a esperança de que ele fosse mesmo, pelo menos como um intervalo na cerveja. Esperança frustrada. Depois, em outra oportunidade, num dos bares do Mercado da Boa Vista, quando ele ficou aos beijos cada vez mais insistentes em cima da minha filha Luanda. Tive que aguentar a mistura de admiração por Miró e o desgosto por aquela manifestação teimosa. Mas assim era a alma do poeta, na alegria e na tristeza. Ele amava, amava e amava demais, mas com maior frequência tinha de volta o desamor, desamor e desamor. O seu coração era um disparador de bumerangues.

Então, por fim, em um último recurso, divulgo o vídeo do que falei sobre ele, no dia em que o poeta foi homenageado pela Bienal do Livro de Pernambuco.

Para Miró, em 31 de julho de 2026.

*Vermelho O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista do Recife – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

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