A diplomacia do insulto
por Felipe Bueno
Novidade zero: a diplomacia clássica fundamenta-se num princípio que prevê que as relações interpessoais entre governantes devem estar subordinadas à institucionalidade dos Estados. Regida pela prudência, pelo decoro e pelo respeito à soberania, a prática diplomática foi lapidada para garantir que líderes com visões ideológicas opostas mantivessem canais permanentes de diálogo. Até porque os governantes vêm e vão, e os Estados permanecem.
Mas vivemos os tempos da política do espetáculo e da hiperpolarização potencializada pelas redes sociais. A liturgia diplomática vai se tornando estranhamente antiquada frente ao exercício do desrespeito.
Passamos os últimos dias debatendo as recentes performances do presidente da Argentina no Brasil. Javier Milei sente-se confortável para recusar a participação na Cúpula do Mercosul, vendo mais vantagem (utilidade?) em viajar a Balneário Camboriú para discursar na Conservative Political Action Conference (CPAC). Pouco tempo depois, agiu como animador de torcida na convenção do PL em São Paulo. Sem cumprir uma agenda oficial de chefe de Estado ou solicitar audiência com o governo anfitrião, o líder argentino usou o território brasileiro para palanque partidário, alinhando-se à oposição política local e dirigindo agressões verbais diretas ao presidente Lula. Sendo o chefe de Estado eleito pelo povo argentino, Milei deixa a função em segundo plano, atuando como mera pessoa física em nome de uma causa.
Não é recreação, não é deslize de etiqueta; trata-se de substituir a diplomacia pela militância. Quando um mandatário usa o solo de um país soberano para intervir no seu debate interno e atacar seu representante eleito, a política externa deixa de ser um instrumento de Estado para se tornar uma extensão de rivalidades ideológicas. Se um líder é farol para os integrantes de seu governo e exemplo para seus cidadãos, pode-se esperar que as relações entre Brasil e Argentina corram o risco de se transformar na versão ampliada de um jogo de futebol – com todas as péssimas expectativas que se possa ter.
Vamos buscar outros exemplos na história recente: em 2015, o então (e ainda) primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ignorou o protocolo diplomático ao discursar no Congresso dos Estados Unidos a convite exclusivo da oposição republicana, sem coordenação com a Casa Branca, para criticar a política externa do então presidente Barack Obama. Mais recentemente, em 2022, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, fez da CPAC (de novo ela) em solo americano um palco de afronta à administração de Joe Biden.
Não estaremos exagerando ao prever novos episódios parecidos e talvez piores. A primazia ideológica muitas vezes vem na forma de um ser caricato, envelopada num histrionismo que apenas disfarça interesses maiores, como a busca pelo reconhecimento de uma confraria na qual só cabem iguais – ainda que, entre os iguais, haja os maiores, que realmente mandam, e os menores, que não sabem, mas no máximo são úteis por tempo determinado.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário