7 de agosto de 2026

Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (11), por Maurício Luperi

A hipótese é que a persistência dos elevados spreads também está relacionada à arquitetura institucional do sistema de financiamento.
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Elevados spreads bancários no Brasil relacionam-se à arquitetura financeira, não só a fatores internos dos bancos.
Brasil tem menor escala e diversidade financeira que os EUA, limitando alternativas ao crédito bancário.
Aumentar canais e competição financeira pode reduzir spreads e ampliar financiamento para empresas e famílias.

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Além dos bancos: como reconstruir o financiamento das empresas e famílias no Brasil

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Artigo 11 — Como o aprofundamento financeiro influencia os spreads bancários: uma análise comparada da arquitetura institucional de financiamento do Brasil e dos Estados Unidos

Síntese da pesquisa desenvolvida ao longo dos dez artigos anteriores da série, baseada na Base Mestre Comparativa da Arquitetura Institucional de Financiamento Brasil–Estados Unidos (2014–2025)

por Maurício Martinelli Luperi

Durante décadas, o debate sobre os elevados spreads bancários brasileiros concentrou-se principalmente no interior dos bancos. Inadimplência, depósitos compulsórios, tributação, custos administrativos, recuperação de garantias, insegurança jurídica, concentração bancária e taxa básica de juros passaram a dominar a discussão sobre a diferença entre o custo de captação das instituições financeiras e a taxa cobrada dos tomadores.

Todos esses fatores são relevantes.

Eles ajudam a explicar como o spread é composto e por que determinadas operações apresentam custos mais elevados do que outras. Contudo, compartilham uma limitação: procuram explicar o spread quase exclusivamente a partir do funcionamento interno dos bancos.

Este artigo propõe deslocar parte da análise.

Nossa hipótese é que a persistência dos elevados spreads brasileiros também está relacionada à arquitetura institucional do sistema de financiamento. Em outras palavras, os spreads não dependem apenas de como os bancos operam, mas também de quais alternativas existem fora deles e de com quem precisam competir.

Quanto maior a diversidade de canais disponíveis para empresas, famílias e governos, menor tende a ser a dependência exclusiva do crédito bancário. Quanto maior essa possibilidade de substituição, maior o poder de negociação dos tomadores e mais intensa a pressão competitiva sobre as margens bancárias.

Essa hipótese foi construída ao longo dos dez artigos anteriores desta série, nos quais analisamos separadamente bancos, cooperativas, fintechs, mercado acionário, debêntures, Corporate Bonds, Notas Comerciais, Commercial Paper, securitização, Venture Capital, Private Equity, investidores institucionais e diversos outros canais de financiamento.

O presente artigo reúne essas evidências em uma interpretação comum.

Seu objetivo é mostrar que a arquitetura financeira brasileira permanece menos profunda, diversificada e integrada do que a norte-americana e que essa diferença constitui um dos fatores estruturais que ajudam a explicar a persistência dos elevados spreads bancários no Brasil.

O que entendemos por aprofundamento financeiro

A expressão aprofundamento financeiro tornou-se comum na literatura econômica a partir dos anos 1970, mas não possui uma única definição.

Ronald McKinnon e Edward Shaw associaram o aprofundamento financeiro à expansão da intermediação e à superação da chamada repressão financeira. Nessa perspectiva, a liberalização dos mercados elevaria a mobilização da poupança, ampliaria o crédito e favoreceria o investimento.

Ross Levine ampliou esse conceito ao destacar as funções exercidas pelo sistema financeiro: mobilização de recursos, alocação de capital, monitoramento de investimentos, administração de riscos e facilitação das transações. Allen e Gale mostraram, por sua vez, que sistemas financeiros desenvolvidos podem assumir formas institucionais diferentes: alguns mais baseados em bancos, outros mais orientados aos mercados de capitais.

O Banco Mundial passou a tratar o desenvolvimento financeiro como um fenômeno multidimensional, composto por profundidade, acesso, eficiência e estabilidade.

Essas contribuições são fundamentais, mas neste artigo propomos uma definição mais ampla.

Inspirados em Keynes e Schumpeter, entendemos que o sistema financeiro não deve ser visto apenas como um mecanismo que transfere uma poupança previamente constituída para os investidores. Sua função decisiva é criar condições para que o investimento produtivo ocorra.

Na perspectiva keynesiana, o investimento amplia a renda, o emprego e a produção, gerando posteriormente a poupança agregada correspondente. A igualdade entre poupança e investimento é observada ex post, mas a causalidade econômica não parte necessariamente da poupança para o investimento.

Schumpeter também atribuiu ao sistema financeiro papel ativo ao permitir que empresários realizem novas combinações produtivas, inovem e transformem a estrutura econômica.

Com base nessa tradição, definimos aprofundamento financeiro como o processo de expansão da escala, da diversidade, da integração institucional e da competição entre os canais de financiamento de uma economia, ampliando sua capacidade de financiar investimentos por diferentes mecanismos.

A escala corresponde ao volume relativo dos canais financeiros diante do PIB. A diversidade refere-se à existência de diferentes instrumentos adequados a empresas, famílias, governos, prazos e riscos distintos. A integração institucional representa a articulação entre bancos, mercados, fundos, seguradoras, fundos de pensão, cooperativas, fintechs e instituições públicas especializadas.

A quarta dimensão, competição entre canais, constitui a principal contribuição deste artigo.

Um sistema financeiro não se torna mais profundo apenas porque cresce. Ele também se aprofunda quando empresas e famílias passam a contar com alternativas reais ao crédito bancário, reduzindo a dependência de um único intermediário.

Figura 1 — Do aprofundamento financeiro aos spreads bancários

Arquitetura institucional de financiamento

Escala + diversidade + integração institucional + competição entre canais

Mais alternativas de financiamento para empresas e famílias

Menor dependência exclusiva do crédito bancário

Maior poder de negociação dos tomadores

Maior concorrência enfrentada pelos bancos

Menor pressão estrutural sobre as margens e os spreads bancários

Fonte: elaboração própria.

Essa formulação não pretende substituir a literatura tradicional sobre spreads. Inadimplência, tributos, custos operacionais, compulsórios, garantias, riscos macroeconômicos e taxa básica de juros continuam sendo determinantes importantes.

O argumento é que todos eles atuam dentro de uma estrutura de mercado. E essa estrutura pode ampliar ou limitar a capacidade dos bancos de preservar determinadas margens.

A Base Mestre Comparativa Brasil–Estados Unidos

Para analisar essa arquitetura, construímos a Base Mestre Comparativa da Arquitetura Institucional de Financiamento Brasil–Estados Unidos (2014–2025).

A Base reúne dados anuais provenientes de dezenas de fontes oficiais e institucionais dos dois países. Foram coletadas, auditadas, padronizadas e harmonizadas informações sobre crédito bancário, mercado acionário, debêntures, Corporate Bonds, Notas Comerciais, Commercial Paper, FIDCs, CRIs, CRAs, ABS, MBS, CMBS, CLOs, Venture Capital, Private Equity, Private Credit, fundos de investimento, fundos de pensão, seguradoras, Money Market Funds, Municipal Bonds, Federal Home Loan Banks, Farm Credit System e demais componentes relevantes da arquitetura financeira.

O objetivo não foi somar todos esses valores para construir um suposto “total financeiro”. Isso produziria graves problemas de dupla contagem.

Fundos de pensão e seguradoras compram títulos corporativos e ações. Fundos de investimento possuem papéis que aparecem em outros mercados. Uma securitização pode representar créditos anteriormente originados por bancos. Ativos administrados, emissões anuais, estoques, provisões técnicas e valores de mercado são medidas diferentes.

A Base Mestre preserva essas diferenças conceituais.

Seu objetivo é comparar a escala, a diversidade e a função econômica dos diferentes canais e compreender em que medida eles oferecem alternativas ao crédito bancário.

Os resultados mostram que a diferença entre Brasil e Estados Unidos não reside apenas no tamanho absoluto de suas economias. Ela está na forma como suas instituições financeiras se organizam e se articulam.

A escala da arquitetura financeira

A primeira dimensão do aprofundamento financeiro é a escala.

Em 2025, o crédito privado representava aproximadamente 75,1% do PIB brasileiro. Nos Estados Unidos, o indicador amplo utilizado na Base alcançava 201,3% do PIB.

No mercado acionário, a diferença era ainda maior. A capitalização bursátil brasileira correspondia a cerca de 38,2% do PIB, enquanto a norte-americana atingia aproximadamente 224%.

No caso dos fundos de investimento, porém, o Brasil apresentava patrimônio equivalente a 84,4% do PIB, acima dos 76,8% observados nos mutual funds norte-americanos na série utilizada.

Esse resultado é importante porque mostra que o problema brasileiro não pode ser reduzido à ausência de riqueza financeira ou de fundos.

O Brasil possui uma indústria de fundos de grande escala.

A questão está na composição das carteiras, na alocação dos recursos e na capacidade de transformar esse patrimônio em financiamento privado diversificado, de longo prazo e acessível a empresas de diferentes portes.

A diferença reaparece de forma contundente nos fundos de pensão e nas seguradoras.

Os ativos das entidades fechadas de previdência complementar representavam aproximadamente 11,1% do PIB brasileiro em 2025. Nos Estados Unidos, os ativos dos fundos de pensão aproximavam-se de 97,2% do PIB.

As definições não são perfeitamente equivalentes, pois a série norte-americana inclui fundos privados e públicos, enquanto a PREVIC cobre principalmente entidades fechadas. Ainda assim, a diferença de escala é expressiva.

No setor segurador, as provisões técnicas supervisionadas pela SUSEP correspondiam a aproximadamente 16,1% do PIB brasileiro. Os ativos financeiros das seguradoras norte-americanas alcançavam cerca de 48,3%.

Novamente, provisões e ativos não são conceitos idênticos. A comparação deve ser interpretada como indicação de escala institucional, não como equivalência contábil perfeita.

Tabela 1 — Dimensões selecionadas da arquitetura financeira em 2025

IndicadorBrasil (% do PIB)Estados Unidos (% do PIB)
Crédito privado75,1201,3
Capitalização acionária38,2224,0
Fundos de investimento84,476,8
Previdência11,197,2
Seguros16,148,3

Fonte: Base Mestre Comparativa da Arquitetura Institucional de Financiamento Brasil–Estados Unidos (2014–2025), com dados do Banco Mundial, ANBIMA, PREVIC, SUSEP e Federal Reserve. Elaboração própria.

A tabela revela um ponto central.

O Brasil não apresenta menor profundidade em todas as dimensões. Sua indústria de fundos possui escala significativa. Contudo, o mercado acionário é muito menor, o crédito privado é menos amplo e a poupança institucional de longo prazo administrada por fundos de pensão e seguradoras apresenta escala substancialmente inferior.

Isso reduz a base estrutural de compradores de títulos privados longos, ações, securitizações e instrumentos de financiamento empresarial.

A diversidade de canais

A segunda dimensão é a diversidade institucional.

Nos Estados Unidos, o estoque amplo de Corporate Bonds representava aproximadamente 37,5% do PIB em 2025. O Commercial Paper correspondia a 4,2% do PIB.

Esses mercados permitem que empresas captem recursos diretamente junto a investidores para necessidades de longo e curto prazo.

No Brasil, as emissões de debêntures alcançaram aproximadamente 3,9% do PIB em 2025, demonstrando crescimento importante. As Notas Comerciais também avançaram após os aperfeiçoamentos regulatórios.

A comparação, contudo, exige cautela. No caso norte-americano estamos utilizando principalmente estoques; no brasileiro, emissões anuais. Mas a diferença institucional permanece: o mercado norte-americano apresenta maior liquidez, maior número de emissores, maior diversidade de investidores e acesso mais difundido.

No Brasil, o mercado de debêntures ainda se concentra fortemente em empresas maiores, com melhor estrutura de governança, maior capacidade de divulgação de informações e condições para suportar os custos de emissão.

Quanto menor a empresa, menor a probabilidade de substituir o crédito bancário pelo mercado de títulos.

A securitização apresenta diferença semelhante.

Os passivos dos emissores de ABS representavam cerca de 6% do PIB dos Estados Unidos em 2025. O conjunto formado por GSEs e pools hipotecários garantidos por agências correspondia a aproximadamente 40,8%.

Os empréstimos corporativos mantidos por CLOs representavam cerca de 2,1% do PIB.

Esses valores não podem ser somados, pois refletem diferentes lados e segmentos da mesma arquitetura. Ainda assim, demonstram a escala de mercados especializados em recebíveis, hipotecas residenciais, imóveis comerciais e crédito corporativo alavancado.

No Brasil existem FIDCs, CRIs e CRAs, todos com crescimento relevante ao longo do período analisado. Os FIDCs, em particular, tornaram-se instrumentos importantes para empresas que buscam antecipar ou financiar recebíveis.

Mas o mercado brasileiro permanece menos segmentado e menos líquido. A existência de poucos mercados secundários reduz a capacidade de reciclar ativos, liberar balanços e conectar originadores de crédito a uma ampla base de investidores.

Capital de risco e crédito privado

A diversidade financeira também precisa atender empresas que não possuem garantias, receitas previsíveis ou acesso ao mercado público.

Os investimentos de Venture Capital nos Estados Unidos oscilaram entre aproximadamente 0,6% e 1,4% do PIB no período recente. Em 2025, chegaram a cerca de 1% do PIB.

No Brasil, os investimentos combinados em Venture Capital, Private Equity e Corporate Venture Capital variaram aproximadamente entre 0,3% e 0,6% do PIB nos anos para os quais obtivemos dados comparáveis.

A diferença não está apenas no montante.

Nos Estados Unidos existe um ecossistema que conecta universidades, investidores, fundos, mercados de fusões e aquisições e bolsas de valores. Os mecanismos de saída dos investimentos, por meio de venda das empresas ou ofertas públicas, permitem reciclar o capital para novos projetos.

No Brasil, a menor liquidez do mercado acionário e o reduzido número de ofertas públicas dificultam esse processo.

O Private Credit amplia ainda mais a concorrência aos bancos nos Estados Unidos. Segundo o Federal Reserve, esse segmento correspondia a cerca de 9% da dívida corporativa não financeira norte-americana em 2024.

Fundos especializados passaram a emprestar diretamente a empresas, principalmente do chamado mercado intermediário.

Esse crescimento também traz riscos. O crédito pode migrar para áreas menos transparentes e menos líquidas do sistema financeiro. Ainda assim, do ponto de vista competitivo, constitui uma alternativa adicional aos empréstimos bancários.

No Brasil, veículos como FIDCs e fundos estruturados desempenham funções parcialmente semelhantes, mas o segmento ainda apresenta menor escala e menor delimitação estatística.

Investidores institucionais e integração

A profundidade financeira não resulta da simples existência de instrumentos.

Ela depende da integração entre quem emite os ativos e quem está disposto a comprá-los.

Corporate Bonds somente se transformam em alternativa bancária relevante quando há fundos, seguradoras, fundos de pensão e outros investidores com capacidade e interesse em adquiri-los.

Commercial Paper depende da existência de compradores de instrumentos de curto prazo. Nos Estados Unidos, os Money Market Funds possuíam ativos equivalentes a aproximadamente 26,6% do PIB em 2025.

Esses fundos compram Commercial Paper, títulos públicos, operações compromissadas e outros ativos monetários. Criam, assim, uma base permanente de demanda por instrumentos curtos que não possui equivalente brasileiro da mesma escala e configuração institucional.

Fundos de pensão e seguradoras cumprem função semelhante nos mercados de longo prazo. Como possuem compromissos que se estendem por anos ou décadas, podem adquirir títulos corporativos, infraestrutura, ações e ativos securitizados com prazos mais longos.

No Brasil, parte significativa da poupança administrada pelos fundos encontra nos títulos públicos uma combinação de elevada rentabilidade, liquidez e baixo risco.

As taxas de juros reais historicamente altas fazem com que o Estado concorra de forma muito intensa pelos recursos da própria poupança financeira.

Essa característica reduz o incentivo para que investidores assumam riscos adicionais associados ao financiamento empresarial de longo prazo.

Forma-se, assim, uma relação circular: juros públicos elevados atraem recursos, os mercados privados permanecem menos profundos, empresas continuam dependentes do crédito bancário e a menor competição contribui para preservar spreads elevados.

Instituições especializadas

A Base Mestre também identificou canais norte-americanos sem equivalentes brasileiros de mesma escala.

O estoque de Municipal Securities representava aproximadamente 11,4% do PIB dos Estados Unidos em 2025. Esses títulos financiam estados, municípios, hospitais, universidades, saneamento, transportes e infraestrutura urbana.

No Brasil, governos subnacionais dependem principalmente de receitas próprias, transferências, crédito bancário, bancos públicos e organismos multilaterais, dentro de fortes restrições fiscais e legais.

Os Federal Home Loan Banks forneciam recursos de atacado equivalentes a cerca de 2,2% do PIB em 2025. Esses adiantamentos ampliam a estabilidade do funding de bancos e cooperativas e fortalecem o financiamento habitacional.

O Farm Credit System possuía ativos equivalentes a aproximadamente 1,9% do PIB, constituindo uma rede especializada no financiamento agrícola e rural.

Esses sistemas não devem ser simplesmente copiados. Envolvem garantias públicas, riscos fiscais, problemas de incentivo e trajetórias institucionais próprias.

Mas demonstram que mercados financeiros profundos não são formados apenas por bancos e bolsas de valores. Eles incluem instituições especializadas capazes de suprir segmentos específicos e de aumentar a competição dentro do sistema.

Tabela 2 — Canais relevantes da arquitetura norte-americana em 2025

CanalIndicador recente (% do PIB)Função econômica principal
Corporate Bonds37,5Dívida corporativa de médio e longo prazo
Commercial Paper4,2Financiamento empresarial de curto prazo
Money Market Funds26,6Demanda por ativos monetários e dívida curta
ABS6,0Securitização de recebíveis
GSEs e pools hipotecários40,8Financiamento habitacional e mercado secundário
CLOs — empréstimos mantidos2,1Crédito corporativo securitizado
Municipal Securities11,4Infraestrutura e governos subnacionais
FHLB Advances2,2Funding de atacado para instituições financeiras
Farm Credit System1,9Crédito agrícola especializado
Venture Capital — investimento anual1,0Capital para inovação e empresas emergentes

Fonte: Base Mestre Comparativa da Arquitetura Institucional de Financiamento Brasil–Estados Unidos (2014–2025), com dados do Federal Reserve, FRED, SIFMA, ICI, SEC e NVCA. Elaboração própria.

Os dados da segunda tabela não devem ser somados, pois há sobreposição entre ativos, passivos, investidores e mercados. A relevância está na existência de múltiplos canais com escala própria.

Como essa arquitetura influencia os spreads

A decomposição tradicional do spread continua sendo necessária.

Mas ela não é suficiente para explicar por que determinadas margens permanecem elevadas ao longo do tempo.

A margem também depende da estrutura competitiva e da elasticidade da demanda enfrentada pelos bancos.

Uma empresa capaz de escolher entre empréstimo bancário, emissão de debêntures, Commercial Paper, securitização, Private Credit ou emissão de ações possui maior poder de negociação.

Uma empresa sem essas alternativas enfrenta condições muito diferentes.

Isso ajuda a explicar por que grandes companhias brasileiras, com acesso aos mercados de capitais, conseguem captar em condições substancialmente melhores do que pequenas e médias empresas.

A concorrência aumenta no topo da estrutura empresarial, mas permanece limitada em sua base.

O mesmo raciocínio vale para os investidores.

Quando fundos de pensão, seguradoras, fundos de investimento e fundos monetários compram diretamente títulos privados, os bancos deixam de ser o único elo entre quem possui recursos financeiros e quem necessita de financiamento.

A intermediação torna-se mais plural.

A competição relevante, portanto, não ocorre apenas entre bancos.

Ocorre entre bancos, mercados de dívida, securitização, fundos, cooperativas, capital de risco, crédito privado e instituições públicas especializadas.

Essa diversidade reduz o poder de mercado de cada intermediário isolado.

Não significa que um sistema financeiro profundo produza automaticamente spreads baixos. Risco de crédito, informação assimétrica, garantias, impostos, política monetária e ambiente macroeconômico continuam importantes.

Mas significa que, para o mesmo conjunto de custos e riscos, a capacidade de repassá-los aos tomadores depende da concorrência existente.

O paradoxo brasileiro

O Brasil possui um sistema bancário tecnologicamente sofisticado, um sistema de pagamentos eficiente, ampla digitalização, Pix, Open Finance, fintechs e cooperativas de crédito em expansão.

O mercado de debêntures cresceu. FIDCs, CRIs e CRAs ganharam importância. Notas Comerciais foram modernizadas. Venture Capital e Private Equity também avançaram.

Não se trata, portanto, de afirmar que o Brasil não possui mercados financeiros.

O paradoxo é que o país combina sofisticação operacional, patrimônio expressivo em fundos e instituições financeiras altamente rentáveis com uma arquitetura ainda relativamente concentrada em torno do crédito bancário.

O mercado acionário é pequeno diante do PIB. A previdência e os seguros possuem menor escala relativa. Instrumentos alternativos continuam concentrados em grandes emissores. Pequenas e médias empresas permanecem dependentes de bancos, cooperativas, fintechs e linhas públicas.

O problema não está apenas no comportamento dos bancos.

Está também nas alternativas insuficientemente desenvolvidas ao seu redor.

Por isso, reduzir os spreads de forma estrutural exige mais do que atuar sobre seus componentes contábeis. Exige ampliar a profundidade da própria arquitetura de financiamento.

Considerações finais

A Base Mestre mostra que o sistema financeiro norte-americano combina maior escala, maior diversidade de canais, investidores institucionais mais robustos e instituições especializadas com relevância econômica própria.

O Brasil possui avanços importantes, mas apresenta menor profundidade em dimensões decisivas: crédito privado, mercado acionário, previdência, seguros, securitização, capital privado e mecanismos especializados.

Sua indústria de fundos constitui uma exceção relevante. O patrimônio administrado é elevado em relação ao PIB. Contudo, esse resultado reforça uma pergunta: por que um volume tão expressivo de recursos financeiros ainda se transforma de maneira limitada em financiamento privado diversificado, de longo prazo e amplamente acessível às empresas?

A resposta passa pelos incentivos criados pelas elevadas taxas de juros públicas, pela concentração dos mercados, pelos custos de emissão, pela baixa liquidez, pela escassez de instrumentos adequados e pela própria estrutura institucional.

Nossa principal conclusão é que os spreads bancários não são definidos apenas dentro dos bancos.

Eles também são influenciados pela arquitetura financeira existente fora deles.

Quanto maior a possibilidade de empresas e famílias acessarem fontes alternativas, maior a concorrência enfrentada pelos bancos e menor sua capacidade de preservar margens elevadas.

O desafio brasileiro, portanto, não consiste apenas em reduzir os spreads por meio de medidas pontuais. Consiste em construir uma arquitetura suficientemente profunda, diversificada, integrada e competitiva para que spreads estruturalmente menores se tornem uma consequência do próprio funcionamento do sistema financeiro.

A Base Mestre da pesquisa

As análises apresentadas neste artigo resultam da pesquisa desenvolvida ao longo dos dez artigos anteriores desta série e da construção da Base Mestre Comparativa da Arquitetura Institucional de Financiamento Brasil–Estados Unidos (2014–2025).

A Base reúne séries históricas anuais, indicadores em relação ao PIB, fontes oficiais, notas metodológicas, critérios de harmonização, auditorias e observações sobre as diferenças entre estoques, fluxos, emissões, ativos administrados, patrimônio líquido, provisões técnicas e valores de mercado.

Foram organizadas informações referentes ao crédito bancário, mercado acionário, debêntures, Corporate Bonds, Notas Comerciais, Commercial Paper, FIDCs, CRIs, CRAs, ABS, MBS, CMBS, CLOs, Venture Capital, Private Equity, Private Credit, fundos de investimento, fundos de pensão, seguradoras, Money Market Funds, Municipal Bonds, Federal Home Loan Banks, Farm Credit System e demais componentes relevantes da arquitetura de financiamento dos dois países.

A Base não apresenta esses indicadores como um agregado único. Sua finalidade é permitir a comparação da escala, da diversidade, da função econômica e do grau de integração de cada canal, preservando as diferenças conceituais e evitando dupla contagem.

Com o objetivo de estimular o debate público, contribuir para a pesquisa acadêmica e permitir a reprodução e o aprofundamento das análises realizadas, a Base Mestre Comparativa da Arquitetura Institucional de Financiamento Brasil–Estados Unidos (2014–2025) poderá ser disponibilizada gratuitamente a pesquisadores, estudantes e demais leitores interessados, mediante solicitação ao autor.

Próximo artigo

O presente artigo procurou mostrar por que a menor profundidade da arquitetura institucional de financiamento brasileira constitui um dos fatores que contribuem para a persistência dos elevados spreads bancários.

Resta agora a questão propositiva.

Como ampliar essa arquitetura? Como fortalecer a concorrência bancária e não bancária, expandir o financiamento das pequenas e médias empresas, aprofundar os mercados de dívida, securitização e capital próprio, mobilizar investidores institucionais e criar novos canais especializados sem comprometer a estabilidade financeira?

Essas serão as questões centrais do décimo segundo e último artigo desta série, dedicado a uma proposta integrada de reformas para aprofundar a arquitetura institucional de financiamento brasileira.

Leitura recomendada

Allen, Franklin; Gale, Douglas. Comparing Financial Systems. MIT Press, 2000. A principal referência para compreender como diferentes arquiteturas institucionais — mais bancárias ou mais orientadas pelos mercados de capitais — podem sustentar sistemas financeiros desenvolvidos.

Keynes, John Maynard. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Macmillan, 1936. Fundamenta a perspectiva adotada neste artigo, segundo a qual o investimento amplia a renda e gera posteriormente a poupança agregada correspondente.

Levine, Ross. “Finance and Growth: Theory and Evidence”. In: Handbook of Economic Growth. Elsevier, 2005. Síntese moderna sobre as funções exercidas pelo sistema financeiro no crescimento econômico e uma das principais referências internacionais sobre desenvolvimento financeiro.

McKinnon, Ronald I. Money and Capital in Economic Development. Brookings Institution, 1973. Obra pioneira na formulação do conceito de aprofundamento financeiro e referência obrigatória para compreender sua evolução na literatura econômica.

Schumpeter, Joseph A. A Teoria do Desenvolvimento Econômico. Duncker & Humblot, 1911. Clássico sobre o papel do crédito e do sistema financeiro no financiamento da inovação, do empreendedorismo e do desenvolvimento econômico.

Demirgüç-Kunt, Aslı; Huizinga, Harry. “Determinants of Commercial Bank Interest Margins and Profitability: Some International Evidence”. The World Bank Economic Review, v. 13, n. 2, 1999. Referência clássica sobre os determinantes das margens bancárias, útil para situar a contribuição deste artigo ao incorporar a arquitetura institucional de financiamento como um fator adicional na compreensão dos spreads.

As obras acima oferecem diferentes perspectivas sobre desenvolvimento financeiro, arquitetura institucional, investimento e spreads bancários. A hipótese desenvolvida neste artigo procura dialogar com essa literatura, propondo que a competição entre canais de financiamento também seja compreendida como uma dimensão essencial do aprofundamento financeiro.

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (1), por Maurício Luperi

Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (2), por Maurício Luperi

Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (3), por Maurício Luperi

Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (4), por Maurício Luperi

Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (5), por Maurício Luperi

Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (6), por Maurício Luperi

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Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (8), por Maurício Luperi

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Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (10), por Maurício Luperi

Mauricio Luperi

Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.

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