Além dos bancos: como reconstruir o financiamento das empresas e famílias no Brasil (10)
Artigo 10 – Quem financia as empresas inovadoras? Venture Capital, Private Equity e mercado de ações nos Estados Unidos e no Brasil
por Maurício Martinelli Luperi
Ao longo desta série mostramos que sistemas financeiros modernos oferecem muito mais alternativas de financiamento do que o crédito bancário tradicional.
Analisamos como grandes empresas captam recursos por meio da emissão de Corporate Bonds, debêntures e Commercial Papers. Em seguida, discutimos o papel da securitização, dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), das garantias públicas, dos bancos regionais, das cooperativas de crédito e das fintechs na ampliação das fontes de financiamento para empresas de diferentes portes.
Todos esses mecanismos possuem uma característica comum.
São formas de financiamento por dívida.
Nelas, empresas ou famílias recebem recursos hoje e assumem a obrigação de devolvê-los no futuro, acrescidos de juros ou outra forma de remuneração previamente estabelecida.
Esse tipo de financiamento é fundamental para o funcionamento de qualquer economia moderna. Entretanto, ele não é suficiente para atender todas as necessidades das empresas, especialmente daquelas que se encontram em seus estágios iniciais de desenvolvimento ou que buscam transformar inovações em novos produtos, processos ou modelos de negócio.
Imagine uma empresa que acaba de desenvolver uma tecnologia baseada em inteligência artificial, um novo medicamento, um equipamento inovador para a agricultura ou uma plataforma digital com potencial para atuar em escala global.
Embora essas empresas possam apresentar elevado potencial de crescimento, frequentemente ainda possuem poucos ativos para oferecer como garantia, receitas reduzidas e resultados financeiros incertos.
Nessas circunstâncias, dificilmente conseguiriam obter empréstimos de grande porte junto ao sistema bancário tradicional.
Mesmo assim, milhares de empresas inovadoras conseguem captar recursos, expandir suas operações e, em alguns casos, transformar-se em grandes companhias internacionais.
Como isso é possível?
A resposta está em uma forma de financiamento bastante diferente daquela analisada nos artigos anteriores.
Em vez de emprestar recursos, os investidores tornam-se sócios da empresa.
Em vez de receber juros previamente contratados, compartilham os riscos e os resultados futuros do empreendimento.
Esse mecanismo é conhecido como financiamento por capital próprio (equity finance) e constitui um dos principais pilares dos sistemas financeiros mais desenvolvidos.
Dívida e capital próprio: duas formas distintas de financiar empresas
Compreender a diferença entre dívida e capital próprio é essencial para entender como funcionam os mercados financeiros modernos.
No financiamento por dívida, a empresa recebe recursos e assume uma obrigação contratual de pagamento. Independentemente do desempenho do negócio, deverá honrar os compromissos assumidos com seus credores.
Foi justamente essa modalidade que analisamos nos artigos anteriores desta série.
No financiamento por capital próprio ocorre algo bastante diferente.
Os investidores não emprestam dinheiro.
Eles adquirem participação societária na empresa.
Passam, portanto, a compartilhar seus riscos e seus resultados.
Se a empresa crescer, o valor de sua participação poderá aumentar significativamente.
Se o empreendimento fracassar, os investidores também poderão perder parte ou até a totalidade do capital investido.
Essa característica torna o financiamento por capital próprio particularmente adequado para atividades inovadoras, nas quais a incerteza é elevada e os retornos dependem do sucesso futuro do empreendimento.
Muito além dos bancos
Quando se fala em financiamento empresarial, é comum imaginar apenas bancos concedendo empréstimos.
Na realidade, as economias mais desenvolvidas construíram uma arquitetura institucional muito mais ampla.
Nela convivem bancos comerciais, bancos de investimento, investidores-anjo, fundos de Venture Capital, fundos de Private Equity, fundos de pensão, seguradoras, Family Offices, universidades por meio de seus fundos patrimoniais (endowments), bolsas de valores, corretoras, gestores de recursos, aceleradoras, incubadoras, escritórios especializados e diversas outras instituições.
Cada uma desempenha funções específicas.
Algumas fornecem os recursos.
Outras administram a poupança dos investidores.
Algumas estruturam operações financeiras.
Outras oferecem apoio técnico, jurídico e gerencial às empresas.
Essa diversidade institucional constitui uma das principais características dos sistemas financeiros mais profundos e sofisticados.
Em vez de depender exclusivamente do crédito bancário, empresas em diferentes estágios de desenvolvimento encontram mecanismos de financiamento compatíveis com suas necessidades específicas.
O financiamento acompanha o ciclo de vida da empresa
Uma característica marcante desses sistemas é que os instrumentos financeiros evoluem juntamente com o crescimento das empresas.
Empresas recém-criadas normalmente dependem dos recursos de seus próprios fundadores.
À medida que demonstram potencial de crescimento, podem atrair investidores-anjo e fundos de Venture Capital.
Quando alcançam maior maturidade e buscam expandir suas operações, tornam-se candidatas aos investimentos de Private Equity.
Posteriormente, muitas passam a captar recursos diretamente no mercado de ações por meio de uma Oferta Pública Inicial (Initial Public Offering – IPO).
Em estágios ainda mais avançados, complementam sua estrutura de financiamento com emissões de debêntures, Corporate Bonds e Commercial Papers, instrumentos discutidos anteriormente nesta série.
Essa sequência evidencia que não existe uma única fonte de financiamento capaz de atender todas as empresas ao longo de sua trajetória.
Ao contrário, sistemas financeiros desenvolvidos oferecem um conjunto de mecanismos complementares, cada um adequado a um estágio específico do ciclo de vida empresarial.
É justamente essa arquitetura que diferencia economias financeiramente profundas daquelas excessivamente dependentes do crédito bancário.
Venture Capital: financiando empresas inovadoras
É nesse contexto que surge uma das instituições mais importantes do financiamento empresarial contemporâneo: o Venture Capital.
O Venture Capital consiste em investimentos realizados em empresas jovens, normalmente inovadoras, que apresentam elevado potencial de crescimento, mas ainda enfrentam dificuldades para acessar as formas tradicionais de financiamento.
Ao contrário de um banco, o fundo de Venture Capital não concede empréstimos.
Ele investe diretamente no capital da empresa, tornando-se seu sócio.
Seu retorno dependerá da valorização futura do empreendimento e não do recebimento de juros previamente contratados.
Essa diferença altera completamente a lógica do financiamento.
Enquanto os bancos procuram minimizar riscos para assegurar o pagamento dos empréstimos concedidos, os investidores em Venture Capital aceitam conviver com elevados níveis de incerteza porque esperam que algumas empresas apresentem crescimento extraordinário, compensando eventuais perdas em outros investimentos do portfólio.
É essa disposição para compartilhar riscos que explica por que o Venture Capital desempenha papel tão relevante no financiamento da inovação em economias como a dos Estados Unidos.
Quais empresas conseguem acessar Venture Capital?
Embora o Venture Capital seja frequentemente associado às empresas de tecnologia, seu campo de atuação é bastante mais amplo.
O aspecto central não é o setor econômico, mas o potencial de crescimento do empreendimento.
Em geral, os fundos procuram empresas que apresentem modelos de negócios escaláveis, forte capacidade de inovação e possibilidade de expansão acelerada, ainda que seus resultados financeiros sejam incertos.
Entre os setores mais frequentemente financiados destacam-se empresas de inteligência artificial, biotecnologia, saúde, softwares, computação em nuvem, fintechs, agritechs, energias renováveis, robótica, novos materiais e economia digital.
Muitas dessas empresas ainda registram prejuízos contábeis porque reinvestem praticamente toda sua receita em pesquisa, desenvolvimento, contratação de profissionais especializados e expansão comercial.
Paradoxalmente, esse perfil, que normalmente dificultaria a obtenção de crédito bancário, constitui justamente um dos principais fatores que despertam o interesse dos investidores em Venture Capital.
O objetivo desses investidores não é encontrar empresas consolidadas, mas identificar organizações capazes de multiplicar seu valor ao longo dos anos.
Quem fornece os recursos?
Uma percepção bastante difundida é que os fundos de Venture Capital investem recursos próprios.
Na realidade, isso raramente acontece.
Assim como ocorre em outros fundos de investimento, os gestores normalmente administram recursos pertencentes a terceiros.
Grande parte desse capital provém de investidores institucionais e privados com horizonte de longo prazo.
Entre eles destacam-se:
- fundos de pensão;
- seguradoras;
- universidades, por meio de seus fundos patrimoniais (endowments);
- fundações;
- Family Offices;
- fundos soberanos;
- investidores de elevado patrimônio (High Net Worth Individuals).
Esses investidores aplicam recursos nos fundos, enquanto os gestores especializados ficam responsáveis por selecionar empresas, acompanhar seu desenvolvimento e administrar os investimentos.
Em outras palavras, o Venture Capital transforma parte da poupança de longo prazo da sociedade em financiamento para empresas inovadoras.
Quem organiza essas operações?
O Venture Capital também demonstra que sistemas financeiros modernos são compostos por muito mais instituições do que apenas bancos.
Antes mesmo da entrada dos investidores, muitas empresas passam por incubadoras e aceleradoras, que auxiliam no aperfeiçoamento do modelo de negócios, na validação de produtos e na preparação para futuras rodadas de investimento.
À medida que as empresas crescem, participam também escritórios especializados em direito societário, empresas de auditoria, consultorias financeiras e especialistas em avaliação de empresas (valuation).
Os bancos de investimento passam a desempenhar papel crescente, especialmente quando as rodadas de captação aumentam de tamanho ou quando a empresa começa a se preparar para futuras operações no mercado de capitais.
Diferentemente dos bancos comerciais, cuja principal atividade consiste na concessão de crédito, os bancos de investimento especializam-se em estruturar operações financeiras, aproximar investidores e empresas, coordenar captações de recursos e preparar futuras ofertas públicas de ações.
Seu papel consiste muito mais em organizar o mercado do que em emprestar recursos próprios.
Como funciona um investimento em Venture Capital?
Embora cada operação possua características específicas, seu funcionamento costuma seguir etapas relativamente semelhantes.
Inicialmente, os empreendedores apresentam seu projeto aos gestores do fundo.
Caso exista interesse, inicia-se um amplo processo de análise (due diligence), no qual são avaliados aspectos tecnológicos, financeiros, jurídicos, regulatórios e comerciais da empresa, além da experiência da equipe gestora e do potencial de crescimento do negócio.
Em seguida, realiza-se a avaliação econômica da empresa (valuation), que servirá de base para definir quanto ela vale e qual participação societária será adquirida pelos investidores.
Concluída essa etapa, os recursos são aportados na empresa.
Entretanto, diferentemente do que ocorre em um empréstimo bancário, a relação entre investidores e empreendedores está apenas começando.
É comum que representantes do fundo passem a integrar o conselho de administração, auxiliem na profissionalização da gestão, aproximem a empresa de novos clientes e investidores, contribuam para futuras rodadas de captação e apoiem sua estratégia de crescimento.
Por essa razão, costuma-se afirmar que os melhores fundos oferecem não apenas recursos financeiros, mas também capital inteligente (smart money).
Além do dinheiro, colocam à disposição experiência empresarial, redes de relacionamento, conhecimento técnico e capacidade de gestão.
Venture Capital nos Estados Unidos e no Brasil
Foi nos Estados Unidos, especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980, que o Venture Capital passou a desempenhar papel decisivo no financiamento da inovação.
Empresas hoje mundialmente conhecidas, como Apple, Microsoft, Amazon, Google, Meta, Nvidia, Uber e Airbnb, receberam investimentos de Venture Capital em diferentes fases de seu desenvolvimento.
O sucesso desse modelo não decorreu apenas do dinamismo do setor tecnológico norte-americano.
Ele foi favorecido pela existência de um amplo ecossistema institucional formado por universidades de excelência, centros de pesquisa, investidores institucionais de longo prazo, bancos de investimento especializados, um mercado acionário profundo e um ambiente regulatório que oferece relativa segurança jurídica aos investidores.
Além disso, a elevada liquidez das bolsas de valores permite que os fundos recuperem seus investimentos por meio da venda das empresas ou da abertura de capital, estimulando novas rodadas de investimento.
No Brasil, essa indústria é muito mais recente.
Embora tenha crescido significativamente nas últimas duas décadas, impulsionada pelo desenvolvimento do empreendedorismo inovador, pela expansão das startups e pelo amadurecimento dos Fundos de Investimento em Participações (FIPs) e dos fundos de Venture Capital, sua escala ainda permanece bastante inferior à observada nos Estados Unidos.
Entre os principais fatores que limitam seu desenvolvimento destacam-se a menor disponibilidade de poupança privada de longo prazo, a reduzida participação de fundos de pensão no financiamento de ativos de maior risco, o número relativamente pequeno de empresas capazes de acessar o mercado acionário, a menor liquidez da bolsa brasileira e um ambiente de negócios historicamente mais complexo, marcado por elevados custos regulatórios e tributários.
Apesar desses desafios, observa-se uma evolução gradual desse mercado no Brasil, que vem ampliando as alternativas de financiamento para empresas inovadoras e contribuindo para reduzir, ainda que parcialmente, a tradicional dependência do crédito bancário.
À medida que essas empresas amadurecem, entretanto, suas necessidades de financiamento tornam-se maiores. Expandir operações internacionais, adquirir concorrentes, profissionalizar a gestão ou preparar uma futura abertura de capital exige investidores com perfil diferente daqueles que normalmente atuam no Venture Capital.
É nesse momento que outra modalidade de financiamento por participação societária passa a desempenhar papel central: o Private Equity.
Quando a empresa cresce: o papel do Private Equity
Embora o Venture Capital seja fundamental para financiar empresas inovadoras em seus estágios iniciais de desenvolvimento, ele raramente representa o destino final dessas organizações.
À medida que a empresa amadurece, amplia seu faturamento, profissionaliza sua gestão e conquista novos mercados, suas necessidades de financiamento também se transformam.
Projetos de expansão nacional e internacional, aquisição de concorrentes, modernização tecnológica, aumento da capacidade produtiva ou reorganização societária frequentemente exigem volumes de recursos muito superiores aos normalmente aportados pelos fundos de Venture Capital.
É nesse estágio que outra modalidade de financiamento por capital próprio assume papel central: o Private Equity.
Enquanto o Venture Capital busca transformar boas ideias em empresas viáveis, o Private Equity procura transformar empresas já consolidadas em organizações maiores, mais eficientes e mais competitivas.
O que é Private Equity?
O Private Equity consiste na aquisição de participações societárias em empresas que já possuem modelo de negócios consolidado, receitas recorrentes e perspectivas de expansão.
Assim como ocorre no Venture Capital, não existe empréstimo.
Os investidores tornam-se sócios da empresa e compartilham seus riscos e seus resultados futuros.
A principal diferença entre as duas modalidades está no estágio de desenvolvimento da empresa.
O Venture Capital concentra-se em empresas jovens e inovadoras.
O Private Equity direciona seus investimentos para empresas que já demonstraram viabilidade econômica, possuem gestão mais estruturada e buscam acelerar seu crescimento.
Muitas delas são empresas familiares em processo de profissionalização, empresas médias que desejam expandir sua atuação nacional ou internacional ou grupos empresariais que pretendem realizar aquisições estratégicas.
Quem fornece os recursos?
Assim como ocorre no Venture Capital, os gestores dos fundos de Private Equity normalmente administram recursos pertencentes a terceiros.
Esses recursos são provenientes principalmente de:
- fundos de pensão;
- seguradoras;
- Family Offices;
- universidades e seus fundos patrimoniais (endowments);
- fundações;
- fundos soberanos;
- investidores institucionais de longo prazo.
Mais uma vez observa-se uma característica marcante das economias desenvolvidas: a poupança privada de longo prazo é direcionada para financiar diretamente a expansão das empresas.
Como funciona uma operação de Private Equity?
Após identificar uma empresa com elevado potencial de crescimento, os investidores realizam um amplo processo de análise (due diligence), avaliando aspectos financeiros, jurídicos, tributários, operacionais, ambientais e regulatórios.
Concluída essa etapa, define-se o valor da empresa (valuation) e a participação societária que será adquirida pelo fundo.
Ao contrário de um simples investidor financeiro, o fundo passa a participar ativamente do desenvolvimento da empresa.
É comum contribuir para a profissionalização da gestão, fortalecer a governança corporativa, estruturar controles internos, ampliar o acesso a mercados internacionais e preparar futuras operações societárias.
Nesse estágio, cresce também a importância dos bancos de investimento.
Enquanto os bancos comerciais concedem crédito, os bancos de investimento especializam-se na estruturação de operações financeiras complexas.
Entre suas principais funções destacam-se:
- assessorar fusões e aquisições;
- coordenar processos de compra e venda de empresas;
- estruturar novas captações de recursos;
- organizar futuras ofertas públicas de ações (IPOs);
- aproximar empresas de investidores institucionais.
Seu papel consiste em conectar empresas e investidores, organizando operações que dificilmente seriam realizadas apenas por meio do crédito bancário tradicional.
Private Equity nos Estados Unidos e no Brasil
Os Estados Unidos construíram uma das maiores indústrias de Private Equity do mundo porque dispõem de um ambiente institucional favorável ao investimento de longo prazo.
Além da ampla disponibilidade de poupança privada administrada por fundos de pensão, seguradoras, universidades e Family Offices, o país possui um mercado extremamente desenvolvido de fusões e aquisições, bancos de investimento especializados e um mercado acionário profundo, capaz de oferecer mecanismos eficientes de saída (exit) para os investidores.
Essa possibilidade de venda da empresa ou de abertura de capital permite que os recursos retornem aos investidores, que podem reinvesti-los em novos empreendimentos, alimentando continuamente o ciclo de financiamento empresarial.
No Brasil, embora a indústria de Private Equity tenha crescido nas últimas décadas, ela permanece significativamente menor.
Além da menor disponibilidade de poupança institucional privada, o país possui menos empresas aptas a receber esse tipo de investimento, mercado acionário menos líquido, menor número de operações de fusões e aquisições e alternativas mais restritas para a realização de IPOs.
Essas limitações reduzem a capacidade de reciclagem do capital investido e restringem a expansão de todo o ecossistema de financiamento por participação societária.
Quando chega o momento de abrir o capital
À medida que a empresa continua crescendo, pode surgir uma nova alternativa de financiamento.
Em vez de captar recursos junto a um número relativamente pequeno de investidores especializados, ela passa a acessar diretamente milhares de investidores por meio do mercado de ações.
Esse processo é conhecido como Oferta Pública Inicial de Ações (Initial Public Offering – IPO).
Por meio do IPO, a empresa vende parte de seu capital ao público investidor e passa a ter suas ações negociadas em bolsa.
Mais uma vez, não existe empréstimo.
Os investidores tornam-se acionistas da empresa e participam dos riscos e dos resultados futuros do negócio.
Como funciona um IPO?
A abertura de capital envolve uma ampla rede de instituições especializadas.
Os bancos de investimento coordenam toda a operação.
Escritórios de advocacia elaboram a documentação jurídica.
Empresas de auditoria certificam as demonstrações financeiras.
Consultorias especializadas auxiliam na preparação da companhia.
Corretoras distribuem as ações aos investidores.
Os órgãos reguladores supervisionam todo o processo.
No Brasil, a operação é acompanhada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), enquanto as ações passam a ser negociadas na B3.
Nos Estados Unidos, esse papel cabe à Securities and Exchange Commission (SEC), e as negociações ocorrem principalmente na New York Stock Exchange (NYSE) e na Nasdaq.
Mais uma vez observa-se que sistemas financeiros modernos dependem de uma complexa arquitetura institucional e não apenas dos bancos comerciais.
O mercado acionário nos Estados Unidos e no Brasil: por que a diferença é tão grande?
O mercado acionário constitui um dos principais mecanismos de financiamento de longo prazo das economias desenvolvidas.
Nos Estados Unidos, milhares de empresas — desde pequenas companhias em crescimento até grandes corporações globais — utilizam regularmente o mercado de ações para captar recursos destinados à expansão dos negócios, ao desenvolvimento de novas tecnologias e à realização de investimentos.
Essa profundidade não decorre apenas do tamanho da economia norte-americana.
Ela resulta da combinação de diversos fatores institucionais.
Em primeiro lugar, existe uma ampla base de investidores de longo prazo. Fundos de pensão, seguradoras, universidades, endowments, fundos mútuos, ETFs e milhões de investidores individuais aplicam continuamente recursos no mercado acionário, garantindo elevada liquidez às negociações.
Em segundo lugar, os Estados Unidos possuem um ecossistema altamente desenvolvido de bancos de investimento, corretoras, analistas independentes, auditores e investidores institucionais, reduzindo os custos de captação e aumentando a confiança dos participantes do mercado.
Outro aspecto decisivo é a elevada liquidez das bolsas norte-americanas.
A New York Stock Exchange (NYSE) e a Nasdaq concentram milhares de empresas listadas, abrangendo desde companhias tradicionais até empresas intensivas em tecnologia e inovação.
Essa liquidez facilita tanto a emissão de novas ações quanto sua negociação diária, tornando o mercado mais atrativo para empresas e investidores.
Além disso, o mercado acionário norte-americano desempenha papel essencial como mecanismo de saída para investidores em Venture Capital e Private Equity.
Uma empresa pode nascer com recursos de seus fundadores, receber investimentos de Venture Capital, posteriormente atrair fundos de Private Equity e, finalmente, abrir seu capital em bolsa.
Os investidores iniciais realizam seus ganhos e reinvestem esses recursos em novas empresas inovadoras, criando um ciclo contínuo de financiamento ao empreendedorismo.
No Brasil, embora tenham ocorrido avanços importantes com o fortalecimento da B3, da CVM e das práticas de governança corporativa, o mercado acionário permanece significativamente menor.
O número de empresas listadas é reduzido para o porte da economia brasileira, a liquidez concentra-se em poucas companhias de grande porte e a abertura de capital continua inacessível para a maioria das pequenas e médias empresas.
Diversos fatores ajudam a explicar essa diferença:
- menor participação da poupança privada de longo prazo no mercado acionário;
- reduzida presença de fundos de pensão privados como investidores em ações;
- menor liquidez da bolsa brasileira;
- número relativamente pequeno de empresas listadas;
- custos elevados para abertura e manutenção de companhias abertas;
- ambiente macroeconômico historicamente caracterizado por taxas de juros reais elevadas, que tornam os investimentos em renda fixa relativamente mais atrativos.
Essas características produzem um efeito em cadeia.
Como existem menos investidores, torna-se mais difícil abrir capital.
Como há menos empresas listadas, o mercado permanece menos líquido.
Com menor liquidez, Venture Capital e Private Equity encontram menos alternativas para realizar seus investimentos, reduzindo o incentivo à formação de novos fundos.
O resultado é um ecossistema de financiamento menos dinâmico do que aquele observado nas economias mais desenvolvidas.
A arquitetura do financiamento empresarial
Ao longo deste artigo observamos que sistemas financeiros modernos oferecem diferentes mecanismos de financiamento para diferentes estágios do desenvolvimento empresarial.
Empresas recém-criadas normalmente dependem de seus fundadores.
À medida que demonstram potencial de crescimento, podem atrair investidores-anjo e fundos de Venture Capital.
Quando atingem maior maturidade, passam a interessar aos fundos de Private Equity.
Posteriormente, podem acessar diretamente o mercado de ações por meio de um IPO.
Finalmente, empresas já consolidadas frequentemente complementam sua estrutura financeira com emissões de debêntures, Corporate Bonds e Commercial Papers, instrumentos analisados anteriormente nesta série.
Não se trata de substituir os bancos.
Ao contrário.
Bancos comerciais, bancos de investimento, investidores institucionais, fundos de investimento e mercados de capitais desempenham funções complementares.
É justamente essa diversidade institucional que caracteriza os sistemas financeiros mais profundos e capazes de financiar inovação, produtividade e crescimento econômico de longo prazo.
Considerações finais
Ao longo deste artigo mostramos que o financiamento empresarial não depende de um único instrumento, mas da existência de um ecossistema financeiro diversificado, capaz de atender empresas em diferentes estágios de desenvolvimento.
A comparação entre Estados Unidos e Brasil evidencia que o verdadeiro diferencial das economias mais desenvolvidas não reside apenas na maior disponibilidade de recursos, mas na construção de instituições capazes de conectar a poupança de longo prazo aos investimentos produtivos por múltiplos canais.
Embora o Brasil tenha avançado significativamente nas últimas décadas, ainda apresenta um mercado de Venture Capital, uma indústria de Private Equity e um mercado acionário menos desenvolvidos do que aqueles observados nas economias avançadas.
Ampliar essas alternativas significa reduzir a dependência exclusiva do crédito bancário, estimular a inovação, aumentar a produtividade e criar condições mais favoráveis ao crescimento econômico sustentado.
Leitura recomendada
Para os leitores interessados em aprofundar os temas discutidos neste artigo, recomenda-se:
- Gompers, Paul; Lerner, Josh (2006). The Venture Capital Cycle. 2ª edição. MIT Press.
- Lerner, Josh (2012). Boulevard of Broken Dreams: Why Public Efforts to Boost Entrepreneurship and Venture Capital Have Failed—and What to Do About It. Princeton University Press.
- Cumming, Douglas (Ed.) (2012). The Oxford Handbook of Venture Capital. Oxford University Press.
- Talmor, Eli; Vasvari, Florin (2011). International Private Equity. Wiley.
- Ritter, Jay R. (diversos artigos). University of Florida. Referência internacional sobre IPOs e mercado acionário.
- La Porta, Rafael; Lopez-de-Silanes, Florencio; Shleifer, Andrei; Vishny, Robert (1998). “Law and Finance”. Journal of Political Economy, 106(6), 1113-1155.
Próximo artigo
Neste artigo analisamos como empresas inovadoras podem financiar seu crescimento por meio do Venture Capital, do Private Equity e do mercado acionário. Vimos que esses instrumentos não competem com os bancos comerciais, mas os complementam, formando uma arquitetura de financiamento muito mais diversificada do que aquela baseada exclusivamente no crédito bancário.
No artigo 11, ampliaremos essa perspectiva para examinar como bancos comerciais, bancos de investimento, cooperativas de crédito, fintechs, investidores institucionais, mercado de capitais e mecanismos de garantias públicas interagem na formação de um sistema financeiro integrado. O objetivo será compreender como essa complementaridade amplia o financiamento das empresas e das famílias e por que sua consolidação é essencial para o aprofundamento financeiro brasileiro.
No artigo 12, encerrando a série, apresentaremos uma agenda de propostas voltadas ao fortalecimento do sistema financeiro nacional, à ampliação da concorrência, à diversificação das fontes de financiamento e à criação de um ambiente institucional mais favorável ao investimento produtivo, à inovação e ao crescimento econômico de longo prazo.
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (1), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (2), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (3), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (4), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (5), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (6), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (7), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (8), por Maurício Luperi
Além dos bancos: como reconstruir o financiamento no Brasil (9), por Maurício Luperi
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