É importante entender a lógica dos jornalões, que atuam fortemente em favor da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Essa ofensiva se dá em três frentes. Na primeira, escondem-se as relações dele com Daniel Vorcaro e enfatizam-se as ligações de Fábio Luís com Roberta Luchsinger — embora, até agora, não se saiba qual ilícito teria sido cometido por ele. A lógica é a mesma da Lava Jato, quando tentaram criminalizar Lula por uma proposta de venda de apartamento encontrada em sua casa, sem nenhum tipo de assinatura ou registro, e pelos pedalinhos da chácara de Jacó Bittar, colocada à sua disposição por um amigo.
Em nenhum momento apareceu um mísero documento que comprovasse que a chácara pertencia a Lula. Pouco importa! O interesse era meramente político.
O mesmo ocorre agora com o caso Fábio Luís-Roberta Luchsinger. Segundo O Globo de hoje, a compra do medicamento só ocorreria para atender a demandas judiciais — ou seja, decisões que dependem de sentença do Judiciário. Havendo a sentença, o Ministério da Saúde é obrigado a comprar, fora dos procedimentos normais de licitação. É a chamada judicialização da saúde, um expediente que não depende do Ministério da Saúde nem do governo, mas sim do Judiciário.

Segundo o próprio Ministério da Saúde, a judicialização da saúde consumiu R$ 1,84 bilhão até agosto de 2025 apenas com os dez medicamentos mais caros — considerando somente ações individuais, sem contar ações coletivas. Os gastos totais da União com o cumprimento de decisões judiciais em saúde chegaram a R$ 1,5 bilhão em 2025. Para dar dimensão: o valor equivale a cerca de um terço do orçamento anual do Mais Médicos, a quase metade do Brasil Sorridente e ao orçamento anual inteiro do Samu.
Era esse o mercado que se pretendia atingir — e ele não dependia de Fábio Luís nem do Ministério da Saúde.
O tráfico de informações irrelevantes pela Polícia Federal tem, no entanto, seu efeito político. E, mais à frente, quando o processo for anulado — por falta de provas ou por excesso de ilegalidades —, a anulação será atribuída a manobras políticas escusas.
A segunda frente é o pessimismo reiterado nas manchetes de primeira página. Se o desemprego cai a níveis recordes, a manchete destaca a queda na geração de novos empregos formais. Os indicadores econômicos mostram um mercado em calma; as manchetes e os editoriais criam a ficção de uma economia em chamas.
A terceira frente é o desmonte da barreira institucional do Supremo Tribunal Federal. A última investida foi contra o ministro Flávio Dino.
Valem-se bastante do efeito manada, brandindo bordões sem aprofundamento, como o conceito absoluto de liberdade de imprensa, sem se deter na análise dos fatos.
O interesse escuso
Afinal, o que pretendem os jornalões? A situação é tão insólita que, ao contrário de outros tempos, não houve adesão do primeiro time da imprensa a esse jogo. As manipulações ocorrem na pauta, na edição e na reabilitação do tráfico de vazamentos entre policiais federais e colunistas conhecidos.
O que ocorre é um pouco mais complexo.
O país passou por um enorme desmonte institucional no período da Lava Jato, do impeachment e dos governos Temer e Bolsonaro. Esse desmonte desequilibrou toda a hierarquia institucional, provocou um superdimensionamento dos órgãos de controle, em detrimento da racionalização dos métodos, e esparramou-se pelo mercado financeiro.
A partir da gestão de Roberto Campos Neto, o mercado financeiro foi invadido pelo crime organizado e pela engenharia tributária. Permitiu-se a criação de uma série de fundos pouco transparentes, que transformaram o mercado na maior máquina de descontrole da República.
Foi um dos pontos mais graves do desmonte institucional.
O grande desafio das próximas décadas será reconstruir o arcabouço institucional, tapar os vazamentos que beneficiam o crime organizado e estabelecer transparência no controle das verbas públicas.
Diante desse tema, há duas posições absolutamente conflitantes: Flávio Bolsonaro representa a desregulação como instrumento para armar o crime organizado; Lula, a tentativa de uma reconstrução lenta e penosa, para recuperar ferramentas mínimas de políticas públicas.
Desafios da imprensa
Entra-se, agora, em uma nova fase crucial para o futuro da imprensa.
Há uma desconfiança antiga em relação ao papel da imprensa.
Em Public Opinion (1922), Walter Lippmann argumentava que o cidadão comum nunca tem acesso à realidade dos fatos — apenas a “imagens na cabeça” fabricadas pela imprensa, que por sua vez trabalha com estereótipos, fontes interessadas e limitações de tempo e espaço. Para Lippmann, o ideal do “cidadão informado” que fiscaliza o poder por meio da imprensa é uma ficção; ele propunha, como correção, órgãos técnicos de inteligência especializada — em vez de confiar na opinião pública mediada pelos jornais.
Habermas falava em “refeudalização” dessa esfera pública, quando a imprensa comercial de massa passa a fabricar consenso e vender opinião como mercadoria, em vez de intermediar debate racional.
O Brasil passou por poucos consensos na história: a campanha da Abolição, a do “O Petróleo é Nosso” e a das Diretas Já. Em cada um desses episódios, os jornais construíram ou destruíram as próprias reputações.
A última delas, a das Diretas, permitiu à Folha de S. Paulo transformar-se no jornal mais influente do país, porque soube captar o momento. A Lava Jato, pelo contrário, provocou a desmoralização de veículos como Veja, O Globo e Estadão assim que os detalhes vieram à tona.
A história há de registrar que, neste ano da graça de 2026, o país enfrenta o maior desafio de sua história: a luta pela democracia e pela reinstitucionalização. E há de cobrar um preço caro do veículo que não entender o momento.
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fabricio coyote
20 de agosto de 2026 10:19 amquem veio primeiro: o político ou o jurídico? quem veio primeiro, a Política ou o jornalismo?
Fábio de Oliveira Ribeiro
20 de agosto de 2026 10:46 amA imprensão que fica é que a imprensa brasileira entrou no “modo Penélope”. Fieis aos seus princípios sessentequatreanos, os jornalões tecem freneticamente o tecido do manto de uma nova ditadura durante o dia e desmancham uma pequena parte dele a noite. Os jornóialistas penelopeanos esperam anciosamente o retorno de seu amado Odisseu-Bolsonaro como se os petistas fossem pretendentes ilegítimos do poder em Ítaca-Brasília. Sobretudo eles desejam o banho de sangue durante a vingança do legítimo ditador que eles escolheram para restaurar a normalidade da opressão da classe operária, dos sem terra e dos miseráveis. “Se não terão mais picanhas, que comam ossos”, diz Merval como se fosse um clone bigodudo de Maria Louca interpretando Maria Antonieta.
Jose
20 de agosto de 2026 11:10 amDois ministros do STF são assumidamente bonecos de ventríloquo do Bozzo, e estão no comando do processo eleitoral e da Lava Jato 2
Triste viu
Paulo Dantas
20 de agosto de 2026 12:41 pmMas seu Fábio precisa explicar este lobby sendo filho do Presidente.
Lembro da briga do Glenn Greenwald com o Intercept por conta das encrencas do “Binden jr”.
Que os jornalhões e parte dos jornalistas implicam com seu Luis é notório.
Lembro de um filme do Denzel Washington, ele tenta ler um jornal e o Ethan Hawke o interrompe ele fala , “aqui só tem bullsh1t mas gostaria de ler assim mesmo”.
Veritas
20 de agosto de 2026 1:28 pmA Folha também perdeu a credibilidade com a lava jato, o golpe e o bolsonarismo militante desde então, apesar de mascarada pela pseudo diversidade jornalística. A linha editorial após a morte de Otavio Frias Filho é principalmente trumpista, mercado financeiro, nada de aprofundar contra o crime organizado e seus apoiadores, por exemplo. Infelizmente, não há grandes divergências desta linha editorial entre os jornalões do Brasil.
JuzéPULIYZER e ponto.
21 de agosto de 2026 7:49 amUma relação csuja,promíscua,ilegal de agentes públicos atacando o próprio País em RSQUEMA com empresas de comunicação privadas de bilionários mimados ISTO VEM DESDE A LAVSJATO ng desbaratou esta quadrilha ao qual vemos odesmonte e desestruturação do Brasil e elegendo bamdidoes iQUAL A DÚVIDA?NOSSAS INSTITUIÇÕES SE ACOVARDARAM e infelizmente sobrou para Lula defendelas e agora sendo.vitima disto.tudo de novo como sempre foi e não denunciou se calou oq se apavorou aff QUAL A SURPRRSA?Os 1 por cento compram meio mundo contta o País e o errado é quem não sabe resistir lutar identificar denunciar tudo isto naturalizando como pot exemplo.o governo.passado deixarnde dar uns dez reais deaumento do salario minimo.de.fome só porsadismo contra o povo tudo isto tem nome tem culpadosbe não são o.sol e a lua como dizem quem deverua resistir afg !!!
Paulo José Gonçalves Gonçalves
21 de agosto de 2026 1:57 pmExcelente análise. Ajuda a entender o brasil e a “democracia”.