16 de setembro de 2026

O que a comunicação digital revela sobre as alianças de 2026, por Eduardo Barbabela

Aparecer publicamente ao lado do aliado, pedir voto para ele, colar o próprio número ao dele, pode custar politicamente.
Jean-Michel Basquiat

Análise de 7.090 publicações digitais mostra que vices citam mais aliados que presidentes nas campanhas de 2026.
Campanhas estaduais citam presidenciáveis, mas estes raramente mencionam palanques locais em suas redes sociais.
Ataques digitais geram maior alcance, mas engajamento proporcional é semelhante ao das publicações de apoio.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Quem precisa de quem : O que a comunicação digital revela sobre as alianças de 2026

por Eduardo Barbabela

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Há uma pergunta que as coligações registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não respondem: a aliança existe de fato? Assinar uma composição é barato e reversível na prática política. Aparecer publicamente ao lado do aliado, pedir voto para ele, colar o próprio número ao dele, pode custar politicamente. E é justamente o que as redes sociais permitem observar, com data e hora, para cada candidato do país.

Acompanhamos 1.716 publicações dos candidatos presidenciais entre 1 e 20 de agosto, e 5.374 publicações de 69 candidatos a governador entre 17 e 31 de agosto, todas coletadas na Meta Content Library. O que aparece nesses dois conjuntos é um padrão só, e ele não é o que a leitura convencional das alianças sugeriria.

Nas seis chapas presidenciais em que titular e vice estão no corpus, quem exibe a aliança é sempre o vice. Geraldo Alckmin cita Lula em 30,8% das suas publicações; Lula cita Alckmin em 0,9% das dele. Eduardo Girão cita Romeu Zema em 62,5%; Zema o cita em 3,5%. Alfredo Gaspar cita Flávio Bolsonaro em 54,2%; Flávio o cita em 6,6%. Nenhum candidato a presidente menciona o companheiro de chapa em mais de 7% do que publica, e nenhum candidato a vice fica abaixo de 11%.

O padrão atravessa campos ideológicos, tamanhos de partido e graus de institucionalização. Ele não depende de simpatia nem de coesão programática. Depende de quem precisa da transferência de capital político e de quem a concede. Quem depende, mostra. Quem concede, economiza o gesto.

O mesmo movimento reaparece um degrau abaixo. Nos estados, 403 publicações de candidatos a governador citam um presidenciável em quinze dias. A recíproca praticamente inexiste: nas três semanas que monitoramos as contas presidenciais, os candidatos a presidente quase não nomeiam seus palanques estaduais. A campanha nacional é invocada pelos estados; os estados não são invocados pela campanha nacional.

O mapa das alianças que se vê nas redes não coincide com o mapa registado no TSE. É um mapa de necessidades, e a intensidade da sinalização mede carência de apresentação, não força do vínculo. A menor assimetria do corpus presidencial está na chapa formada mais recentemente, entre Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar, anunciada em 16 de agosto. A maior está em Lula e Alckmin, parceria com quatro anos de governo compartilhado. A aliança nova precisa ser apresentada ao eleitor; a antiga ele já conhece.

Entre os candidatos a governador, o alvo das citações é quase sempre o mesmo. Lula aparece em 314 das 408 menções; Flávio Bolsonaro, em 31. Vinte e nove perfis citam Lula, dez citam Flávio. Em 5.374 publicações de campanhas estaduais, o nome do principal desafiante aparece 0,6% das vezes.

O número mais revelador está dentro do campo de direita. Entre os candidatos a governador alinhados à oposição, as citações se dividem quase pela metade entre os dois: 19 mencionam Lula, 22 mencionam Bolsonaro. Do lado governista, a proporção é de 288 para 5. Ou seja, mesmo as campanhas que combatem o governo dedicam quase metade das suas menções presidenciais ao adversário, e não ao próprio candidato.

Quinze dias depois de aberta a campanha oficial, a disputa presidencial que chega à comunicação estadual continua organizada em torno do presidente, movida com igual empenho por quem o apoia e por quem o ataca. O desafiante ainda não se tornou referência para as campanhas estaduais, nem para as aliadas.

Comparando cada candidato a governador consigo mesmo, as publicações que citam um presidenciável ficam 45% acima da sua própria linha de base em reações, 51% em comentários e 34% em compartilhamentos. Publicações de ataque rendem cerca de três vezes o que rendem as de apoio. Esse último resultado, porém, não sobrevive ao escrutínio. São apenas 25 publicações de ataque no período, e uma única peça, de Sergio Moro sobre a entrevista de Lula ao Jornal Nacional, responde por metade do efeito estimado. Removida essa publicação, o ganho cai de 160% para 94%.

Quando se mede a taxa de engajamento, ou seja, reações divididas por visualizações, a vantagem desaparece. As publicações de apoio ganham 41% de alcance e 5% de taxa; as de ataque ganham 151% de alcance e nada de taxa. Citar um presidenciável está associado a mais circulação, não a público mais responsivo. Quem vê a peça não reage mais do que reagiria a qualquer outra daquele candidato.

Para quem faz campanha, a implicação é desconfortável. A campanha negativa estaria comprando alcance, e alcance é exatamente aquilo que também se compra com dinheiro. Aqui esbarramos em um limite que nenhuma metodologia resolve. A Content Library não informa se uma publicação foi impulsionada com verba de campanha. Nós, que temos acesso de pesquisa à base, não distinguimos a peça que viralizou da peça que foi paga. O eleitor, evidentemente, muito menos.

A impressão corrente é a de que candidatos a governador se agarram ao presidenciável do seu campo e que o ataque é a moeda forte da campanha digital. As duas coisas são verdadeiras pela metade, e a metade que falta muda o sentido político de cada uma. Seguiremos medindo até outubro.

Eduardo Barbabela (ISCSP-ULisboa)

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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