8 de outubro de 2026

Educação é estratégica para prevenir desastres e reduzir riscos socioambientais, diz pesquisadora

Para Patrícia Mie Matsuo, classificar uma tragédia como “natural” pode transmitir a ideia de inevitabilidade e dificultar a adoção de medidas preventivas
Reprodução - Portal Amazônia

Mudanças climáticas intensificam desastres, que são processos sociais ligados à desigualdade, diz pesquisadora da UFABC.
Escolas devem integrar prevenção socioambiental com participação comunitária e parcerias, segundo Patrícia Matsuo.
RS cria guia para planos de contingência escolares, valorizando estratégias locais e conhecimento técnico conjunto.

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Inundações, deslizamentos, secas, incêndios florestais e ondas de calor têm se tornado mais intensos e frequentes com o avanço das mudanças climáticas. Para a pesquisadora Patrícia Mie Matsuo, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), enfrentar esse cenário exige superar a ideia de que os desastres são fenômenos exclusivamente naturais e construir uma cultura de prevenção de riscos socioambientais, com participação das comunidades e atuação estratégica das escolas.

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“Precisamos desconstruir a ideia de que os desastres são naturais. Eles são processos sociais construídos a partir da desigualdade, da pobreza e da vulnerabilidade”, afirmou Matsuo em entrevista à Agência FAPESP durante o 6º Workshop do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), realizado em setembro na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Segundo a pesquisadora, embora a ciência já tenha estabelecido a influência humana sobre a intensificação dos eventos extremos, ainda é necessário ampliar a compreensão social sobre os fatores que transformam esses fenômenos em desastres. Para ela, classificar uma tragédia como “natural” pode transmitir a ideia de inevitabilidade e dificultar a adoção de medidas preventivas.

Matsuo destaca que o aumento global da temperatura tende a tornar os eventos climáticos extremos mais intensos e frequentes. Nesse contexto, fenômenos como o El Niño podem contribuir para agravar uma situação já marcada pelas mudanças climáticas. Por isso, segundo ela, as estratégias de prevenção precisam ser permanentes e não apenas acionadas depois que uma tragédia acontece.

A pesquisadora defende que obras de infraestrutura, embora importantes, não são suficientes para reduzir os riscos. É necessário envolver a população que vive nos territórios ameaçados, construir conhecimento coletivamente, criar estratégias preventivas e fortalecer redes locais.

Um dos caminhos apontados por Matsuo é incorporar o conhecimento dos moradores aos mapas de risco. Informações sobre quais casas são atingidas primeiro pelas enchentes ou onde vivem idosos, pessoas com deficiência e crianças que podem necessitar de cuidados específicos durante uma evacuação dificilmente aparecem em modelos técnicos baseados apenas em topografia, cursos d’água e cálculos matemáticos.

Nesse processo, a escola ocupa uma posição estratégica. De acordo com a pesquisadora, a prevenção pode ser trabalhada de forma integrada à rotina escolar, envolvendo áreas como geografia e matemática. Os estudantes podem, por exemplo, analisar chuvas, ondas de calor e condições de arborização do bairro, além de identificar rios, bueiros e locais sujeitos a alagamentos.

A escola também pode elaborar planos de contingência específicos e estabelecer parcerias com a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros para mapear áreas de risco, definir rotas de fuga e organizar procedimentos de evacuação. Para Matsuo, o impacto desse trabalho ultrapassa os muros da instituição, já que o conhecimento construído pelos alunos pode chegar às famílias e se espalhar pelo território.

A pesquisadora ressalta, no entanto, que a prevenção não deve se transformar em uma nova disciplina ou em mais uma sobrecarga para os professores. A proposta é integrar o tema às atividades já desenvolvidas pelas escolas e preparar os educadores para abordar questões socioambientais.

A participação de instituições externas também é considerada fundamental. Além da Defesa Civil e dos bombeiros, Matsuo cita igrejas, agentes de saúde, associações comunitárias e universidades como possíveis parceiros. Para ela, as escolas não precisam dominar sozinhas todos os conhecimentos necessários, mas devem saber identificar os atores e serviços disponíveis em seu território.

Prevenção desde a infância

A abordagem dos riscos também pode começar na educação infantil, sem provocar medo ou ansiedade nas crianças. Matsuo defende que professores trabalhem o tema de maneira prática e não alarmista, usando atividades que permitam aos alunos observar e medir fenômenos climáticos.

Uma possibilidade é construir pluviômetros artesanais com garrafas PET para acompanhar a quantidade de chuva no pátio da escola. A atividade permite discutir eventos extremos sem associá-los necessariamente a uma situação de pânico.

Para a pesquisadora, falar sobre a possibilidade de desastres é parte da própria prevenção, especialmente porque as crianças estão entre os grupos mais vulneráveis durante esses eventos. “Ninguém se prepara ou previne um desastre em silêncio. É preciso falar sobre a possibilidade de desastres”, afirmou.

Lições das enchentes

A experiência das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 também é apontada como exemplo da importância da preparação. Matsuo atuou na elaboração dos Planos de Contingência para Escolas Resilientes da Secretaria de Educação do estado após a tragédia.

Segundo ela, muitas escolas não estavam preparadas para enfrentar as enchentes, principalmente aquelas localizadas em regiões que historicamente não registravam esse tipo de ocorrência. Em áreas do Vale do Taquari, porém, comunidades escolares desenvolveram estratégias próprias ao longo dos anos a partir da experiência acumulada com as cheias.

Entre as medidas adotadas estão a vedação de portas com espuma expansiva, a elevação de móveis, interruptores e computadores, a fixação de armários em locais mais altos e a criação de estruturas simples para elevar carteiras diante da previsão de chuvas intensas. São medidas de baixo custo que podem reduzir significativamente os danos.

A experiência mostra, segundo Matsuo, que a percepção de risco é fundamental e que as escolas podem aprender umas com as outras. Ao mesmo tempo, elas precisam receber orientação técnica dos órgãos responsáveis para identificar adaptações que possam ser feitas sem grandes obras.

Guia propõe planos específicos para cada escola

A experiência do Rio Grande do Sul também resultou na criação do Guia de Proteção e Defesa Civil para Escolas do Rio Grande do Sul, elaborado pela Secretaria de Educação em parceria com a Defesa Civil, o Instituto Alana e o Vozes da Educação.

O material não estabelece um modelo único para todas as escolas. A proposta é oferecer diretrizes para que cada instituição desenvolva seu próprio plano de contingência, levando em conta as características socioambientais, as ameaças existentes no território e a capacidade de resposta disponível.

O guia apresenta um processo dividido em 19 etapas, com fichas e orientações destinadas a envolver estudantes, professores, gestores, famílias e a comunidade. O plano deve ser revisado periodicamente, já que tanto os riscos quanto as equipes e as capacidades de resposta podem mudar ao longo do tempo.

Para Matsuo, a experiência reforça que não existe uma solução única para a prevenção de desastres. O caminho passa pela troca de experiências entre escolas e pela valorização das estratégias desenvolvidas pelas próprias comunidades, combinadas ao conhecimento técnico dos órgãos responsáveis pela proteção e defesa civil.

*Com informações da Agência Fapesp.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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