Do Sr. K
A imprensa não precisa esconder uma notícia para manipular o debate público. Basta alterar a régua: dar a um fato grave a cobertura episódica que se reserva a um escândalo passageiro e transformar indícios frágeis em seriado diário.
É o que se observa na comparação entre os casos Flávio Bolsonaro–Daniel Vorcaro e Fábio Luís Lula da Silva–Roberta Luchsinger. É uma manipulação tão explícita que não consegue calar as críticas nem dos próprios jornalistas da Globo. É uma manipulação pior até do que a da Lava Jato que, na época, conseguiu a adesão incondicional de seus jornalistas.
No primeiro caso, há uma trilha documental concreta. Flávio Bolsonaro negociou diretamente com o dono do Banco Master o financiamento de Dark Horse, filme destinado a glorificar a trajetória política de Jair Bolsonaro. Segundo os documentos revelados pelo Intercept, o valor combinado chegou a US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na época. Pelo menos R$ 61 milhões foram efetivamente transferidos, em seis operações, para um fundo nos Estados Unidos administrado por advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.
Há mensagens, áudio, planilha de desembolsos, cobrança de parcelas atrasadas e comprovantes bancários. Há ainda perguntas elementares sem resposta satisfatória: qual era o orçamento analítico do filme? Quem eram os investidores? Por que o dono de um banco mergulhado em operações suspeitas destinaria dezenas de milhões de reais a uma cinebiografia política? Para onde foi cada parcela? Que contrapartida esperava receber?
Não se pode reduzir o episódio a uma relação privada entre um banqueiro e produtores de cinema. Flávio não era um captador qualquer: era senador, filho do personagem retratado e candidato à Presidência da República. Vorcaro não era um mecenas cultural: era o controlador de um banco acusado pela Polícia Federal de comandar fraudes bilionárias.
No caso de Fábio Luís, o quadro público é diferente. Há uma lobista de trajetória duvidosa, relações pessoais imprudentes, visitas, mensagens, suspeitas de pagamento de passagens e tentativas de abrir portas em Brasília. Tudo isso merece apuração. Mas, até agora, não apareceu publicamente o equivalente a uma transferência milionária para Fábio Luís, um contrato de pagamento por influência, uma ordem dada por ele a autoridade ou um negócio consumado graças à sua intervenção.
A diferença entre os dois casos não absolve ninguém. Apenas estabelece a hierarquia jornalística que deveria ser óbvia: quanto maior a materialidade, a escala financeira, a função pública e a relevância eleitoral do personagem, maior deve ser o escrutínio.
A cobertura inicial do caso Dark Horse existiu e foi relevante. Em maio, o Jornal Nacional, o G1 e O Globo divulgaram as mensagens e os R$ 61 milhões. Em agosto, o jornal voltou ao tema com informações sobre a perícia, a Ancine e as frentes de investigação.
Mas a manipulação moderna raramente se dá pelo apagamento completo. Ela se manifesta na duração e na intensidade. O caso Flávio–Vorcaro apareceu como uma explosão e depois perdeu pressão. O caso Lulinha transformou-se em fluxo contínuo, abastecido por fragmentos de relatórios policiais, detalhes laterais e inferências repetidas até adquirirem aparência de prova.
É o velho método da Lava Jato adaptado ao calendário eleitoral. A fonte vaza. A reportagem publica o fragmento. A manchete amplia a suspeita. No dia seguinte, outro pedaço do mesmo material é apresentado como novidade. A repetição substitui a demonstração. Quando a falta de provas levar ao arquivamento ou à anulação, o desfecho será narrado como obra de proteção política — nunca como consequência da fragilidade original.
Há ainda uma inversão democrática. Flávio Bolsonaro ocupa mandato, disputa a Presidência e aparece negociando dezenas de milhões com o controlador de um banco investigado. Fábio Luís é filho do presidente, mas não exerce função pública e não concorre a cargo algum. Mesmo assim, o segundo passa a ocupar o centro da cobertura, enquanto o primeiro é tratado como problema administrável de campanha.
O jornalismo não deve proteger Fábio Luís por ser filho de Lula. Deve investigar seus atos e cobrar explicações. Pela mesma razão, não pode aliviar Flávio por ser candidato competitivo ou por representar interesses simpáticos ao mercado e às empresas de comunicação.
A questão central não é escolher qual filho investigar. É aplicar aos dois a mesma regra: fato é fato, indício é indício, inferência é inferência. E a importância da notícia deve guardar proporção com as provas, os valores envolvidos, o poder exercido e as consequências para o país.
Quando essa régua é invertida, a imprensa deixa de organizar a realidade para o leitor. Passa a fabricar equivalências destinadas a produzir um resultado político.
No caso presente, a falsa equivalência é evidente: de um lado, uma negociação documentada, com dezenas de milhões transferidos entre um banqueiro investigado e um projeto político-familiar; de outro, relações imprudentes e suspeitas ainda à procura de um ato ilícito demonstrável.
Investiguem-se os dois. Mas parem de chamar de equilíbrio aquilo que é apenas desproporção editorial.
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