As eleições na Bolívia: um bom caso sobre jornalismo de baixa qualidade, por Sergio Guedes Reis

A história que a imprensa está querendo contar, nos termos atuais, causa vergonha, seja pela falta de rigor técnico, seja pelo esforço paralelo de construção de uma narrativa tão frágil quanto ideologicamente orientada.

Foto RFI

As eleições na Bolívia: um bom caso sobre jornalismo de baixa qualidade

por Sergio Guedes Reis

Quem gosta de eleições deve estar acompanhando o pleito presidencial na Bolívia. Para conquistar o quarto mandato já no primeiro turno, Evo Morales precisa ou obter pelo menos 50% dos votos válidos, ou 40% e mais de 10 pontos de vantagem para o segundo colocado. Esta eleição sem dúvida foi a mais controversa dos últimos 15 anos por lá, não só pela polarização e pela existência de uma candidatura concorrente viável – o ex-presidente Carlos Mesa, mandatário justamente no período mais turbulento da história recente da Bolívia, como conta o excelente documentário “Our Brand is Crisis” (2006) –, mas também pelo fato de que Evo passou por cima do referendo que havia convocado – e perdido, por pequena margem – a respeito da possibilidade de que viesse a se candidatar novamente à presidência. Pessoalmente, achei equivocada a insistência de Morales em continuar à frente do país, e o argumento usado para rejeitar a derrota no referendo é sofrível – a ideia de que o resultado da consulta popular atacaria seu direito humano a concorrer. É um tipo de decisão que alimenta no imaginário popular a ideia de que governos progressistas na América Latina têm um componente autoritário.

Sem a menor pretensão de responder sobre isso, entendo que um fator fundamental a explicar a posição de Evo é o que se costuma chamar de “problema da sucessão”. Juan Linz, cientista político espanhol e ferrenho crítico do presidencialismo, apontara que uma das principais fragilidades desse regime seria o poder plebiscitário que o sistema dava ao presidente, o qual lhe conferiria um poder centralizado demais na sua pessoa. Desse e outros fatores adviria um vício do presidencialismo: que fazer quando o/a presidente é extremamente competente e popular, e não tem direito à reeleição? A questão se torna mais séria quando se leva em conta o quanto o presidencialismo resulta na produção de uma grande carga de responsabilidade pessoal ao presidente. Como argumenta o próprio Linz, não dá pra produzir um Abraham Lincoln a cada 4 anos – e, talvez, um Evo Morales, no contexto boliviano.

O que chama a atenção nas eleições, contudo, é a pobreza da cobertura da imprensa. Desde ontem, quem visitou o UOL, a Folha ou o El País e leu sobre o pleito muito provavelmente ficou convencido da ideia de que ou há uma grande fraude eleitoral a favor de Evo, ou que as instituições bolivianas são caóticas. A Folha noticiou, primeiro, que a primeira parcial apontava vantagem de cerca de 7 pontos a Evo, com cerca de 83% dos votos apurados. O jornal passava a ideia de que o segundo turno era o cenário mais provável, diante desses números – sem fazer uma análise trivial sobre quais regiões do país ainda precisavam enviar suas urnas para a apuração (como se sabe, Evo é particularmente popular nas regiões rurais, pobres e distantes de La Paz). Por sinal, a informação, fácil de checar, estava errada. Bastava acessar o site do Tribunal Eleitoral boliviano para constatar que, na verdade, 88% dos votos haviam sido computados, e Evo vencia por 8 pontos. Faltou ao jornalista da Folha simplesmente deixar de selecionar “Bolívia” no filtro de análise de votos, e colocar “Mundo”. Esse seletor incluía todos os votos, inclusive os dos cerca de 340 mil bolivianos registrados no exterior (quase 5% do total de eleitores).

Em seguida, o El País produziu uma matéria de capa anunciando que a contagem de votos estava paralisada, e várias outras fontes replicaram a informação (como G1 e UOL). O tom da matéria dava a entender que algum movimento obscuro estaria acontecendo, já que a interrupção da contagem era inesperada, trazia opacidade ao processo, e a explicação da Presidenta do Tribunal não foi, afinal de contas, “traduzida” para o eleitor, mas apenas reproduzida. Dois problemas graves nessa cobertura: 1) não houve paralisação da contagem de votos, mas sim o início da contagem voto-a-voto. A primeira parcial havia sido feita com relação às atas das urnas (o voto é impresso). O segundo sistema, mais preciso, iria então fazer o batimento das informações, produzindo um resultado mais confiável, mas menos tempestivo. 2) Quem quisesse, portanto, poderia acompanhar essa contagem mais precisa de votos em outro sistema, também constante da página inicial do TSE boliviano: https://computo.oep.org.bo/# . Foi o que eu fiz, várias vezes ao longo do dia, desde ontem, e obtendo atualizações a cada 5 minutos ou menos. Neste momento, cerca de 68% das urnas foram apuradas, e Evo vence com quase 2 pontos de vantagem, ou cerca de 70 mil votos a mais. Até quando cerca de 52% das urnas haviam sido apuradas, Carlos Mesa ainda aparecia à frente, puxado pelos votos das províncias de Santa Cruz, Tarija e Chuquisaca.

Agora, o UOL publica uma matéria alarmante, dizendo que o Tribunal teria “mudado de ideia”  e proclamado, subitamente, que Evo teria ganhado a eleição no primeiro turno. A matéria informa que o Tribunal teria soltado nova parcial da contagem das atas, agora com 99% de apuração concluída, na qual Evo aparece 10,1 pontos a frente de Mesa. Esses movimentos, tratados isoladamente e lidos a partir de uma sequência conveniente resultam na conclusão de que há algo que não cheiraria nada bem nas eleições bolivianas. A matéria ressalta como o Tribunal em questão é o mesmo que validou a candidatura de Evo, e ainda aponta que esse resultado seria surpreendente, já que no outro sistema – até então com cerca de 60% de votos apurados, Evo e Mesa apareceriam em “empate técnico” (uma expressão que existe apenas para pesquisas de opinião, baseada em intervalos de confiança, mas não para resultados de eleições, que indicam a votação real). Em seguida, nova matéria força mais um pouco a barra, apontando que “mesmo sem encerrar a eleição, Tribunal declara Evo presidente”, enquanto a oposição denuncia “fraude”, e manifestantes “tomam as ruas”. No texto, mais menções ao “empate” na contagem voto-a-voto, sem qualquer estudo sobre quais distritos já encerraram ou estão próximos de encerrar a contagem (como Santa Cruz, a principal província pró-Mesa).

Com os dados disponíveis na contagem voto-a-voto, é possível ver como uma vitória para Evo por mais de 10 pontos não é nada improvável. Ele precisaria conquistar cerca de 60% dos votos que faltam, algo que já está fazendo com relação aos 300 mil últimos votos apurados – os quais, mais uma vez, provêm de regiões mais leais a ele. Quando Dilma, em 2014, ou Bolsonaro, em 2018 foram declarados presidentes, havia ainda milhões de votos a serem apurados, muitos mais do que a diferença entre os respectivos vencedores e seus adversários – mas seria preciso uma mudança sem precedente do perfil do voto nas regiões que ainda precisariam contabilizar os votos para que o resultado geral mudasse. É um cenário similar ao existente nesse momento na Bolívia.

Pode haver fraude? Com certeza, ainda que haja organizações internacionais monitorando o pleito, como é de praxe. Mas a história que a imprensa está querendo contar, nos termos atuais, causa vergonha, seja pela falta de rigor técnico, seja pelo esforço paralelo de construção de uma narrativa tão frágil quanto ideologicamente orientada. A responsabilidade pela produção de informação pública deve vir antes da simpatia ou ojeriza a Evo e sua agenda política.