O gelo do Papa Francisco em Macri

Jornal GGN – Jornais argentinos repercutem a frieza com que o papa Francisco vem tratando o projeto político de Mauricio Macri.  No final de fevereiro, os dois se encontraram pela primeira vez e agora que seu governo passa pelas primeiras dificuldades, os periódicos nacionais decidiram abordar a distância entre os compatriotas.

A vice-presidente, Gabriela Michetti, chegou a comentar o assunto. “Eu não quero dizer que o Santo Padre não compreende o nosso projeto político, mas que, talvez, não pudemos lhe contar bem para onde queremos ir. É preciso um bate-papo, claro e profundo, no qual o presidente possa explicar ao Papa Francisco como ele pensa em levantar novamente o país”, disse.

Do Instituto Humanitas Unisinos

O “gelo” de Bergoglio que preocupa Macri

Na Argentina, estão convencidos de que o novo presidente, Mauricio Macri, não agrada muito ao Papa Francisco. Tanto que até mesmo uma audiência, a seu modo histórica, como a que se realizou nessa sexta-feira na residência privada de Santa Marta com a presidente das “Mães da Praça de Maio”, Hebe de Bonafini, é lida como um sinal desfavorável.

A reportagem é de Omero Ciai, publicada no jornal La Repubblica, 27-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

As supostas diferenças com Macri e o encontro com Hebe, símbolo histórico das vítimas da ditadura militar, não podem ser postas no mesmo plano. Mas, em Buenos Aires, nota-se como o Papa Francisco “continua recebendo personalidades muito próximas da ex-presidente Cristina Kirchner”, como foi também Hebe de Bonafini, na última década.

Tudo nasce da surpresa que provocou na Argentina a sensação de frieza do primeiro e único face a face em Romaentre o ex-arcebispo da capital, há três anos papa, e Macri, no fim de fevereiro. E que agora reverbera nas primeiras dificuldades políticas dos primeiros meses do novo governo.

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A terapia de choque em economia, logo adotada pelo novo presidente, com a desvalorização da moeda local, o aumento dos preços e o corte, por razões orçamentais, de muitos subsídios governamentais aos serviços básicos (luz, gás, transportes) causaram uma onda de descontentamento, especialmente nos setores mais pobres da população.

Assim, os sinais que vêm de Roma também são lidos como uma crítica às escolhas do novo governo. E são observados com preocupação nas salas da Casa Rosada, a sede da presidência. Quem admitiu as dificuldades, na quarta-feira, 25, foi a vice-presidente do governo argentino, Gabriela Michetti, reconhecendo que, entre Buenos Airese Roma, “há distância na compreensão do projeto político”.

“Eu não quero dizer – ressaltou a vice de Macri – que o Santo Padre não compreende o nosso projeto político, mas que, talvez, não pudemos lhe contar bem para onde queremos ir.” “É preciso – concluiu – um bate-papo, claro e profundo, no qual o presidente possa explicar ao Papa Francisco como ele pensa em levantar novamente o país.”

Poucas horas antes dessa declaração, o cardeal Mario Poli, arcebispo de Buenos Aires, tinha celebrado o Te Deumcom um discurso “de fortes ênfases sociais”, no qual pedia uma mesa de negociação entre governo, oposição e sindicatos, e uma estratégia política mais atenta aos pobres.

Recessão e inflação, que Macri herdou dos últimos anos de Kirchner, no entanto, pioraram com a terapia de choque, e 30% dos argentinos agora vivem abaixo da chamada linha de pobreza. Um dado que preocupa a Igreja, pouco persuadida pelos discursos do governo quando assegura que as suas decisões econômicas vão garantir a retomada nos próximos meses.

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Por isso, os gestos de Roma são traduzidos e aplicados à política local. Por outro lado, o pouco entusiasmo deBergoglio em relação ao presidente Macri vem de longe e retoma aos tempos em que o primeiro era arcebispo da capital, e o segundo era prefeito. Uma questão de feeling que se tornou evidente no primeiro encontro de fevereiro passado, depois do qual os jornais argentinos começaram a falar de uma “Santa Brecha”, dos dissabores que dividiriam o Santo Padre do novo líder do governo argentino. Uma lista substancial, de acordo com alguns.

Mas também porque Macri, quando foi para Roma, esperava obter do papa uma data para a sua primeira viagem pastoral à Argentina, país de ambos, que Francisco deixou quando ainda era o bispo Bergoglio e ao qual ainda não retornou. A visita, pensada para este ano, ainda está adiada, talvez justamente porque o ambiente, político e social, está inquieto.

Além disso, há muitos episódios aparentemente menores. Como as conhecidas simpatias de Macri pela religião budista. Ou as acusações contra Juliana Awada, esposa de Macri, criticada porque teria utilizado na sua empresa de tecidos a colaboração de laboratórios clandestinos com condições de trabalho consideradas “escravistas”.

Na realidade, como ficou evidente a partir da homilia do cardeal Poli, a Igreja teme que as políticas liberais de Macriacabarão favorecendo as desigualdades em vez de combatê-las, em um país que ainda tem muitas dívidas com a parte mais pobre da sua população. E talvez o papa também pensa assim.

14 comentários

  1. Filho feio

    Filho feio não tem pai. O neoliberalismo que se inicia na Argentina não emociona gente como este Papa.

  2. Macri é um ponta de lança dos

    Macri é um ponta de lança dos EUA, que quer reaver seu quintal perdido. Não foi a toa que Serra foi ver Macri, sabe que pode contar com o apoio dele, são iguais em propósitos.

    Como este Papa em questão poderia estar satisfeito com alguem que permite a uma nação estrangeira construir bases militares na terra em que nasceu? Para colocar a Argentina dentro de uma eventual 3a guerra mundial?

     

  3. Tantas palavras e floreios,

    Tantas palavras e floreios, contorcionismos verbais, e que no final o autor do texto do artigo não teve coragem de dizer de maneira asimples e que todo mundo sabe, e ficam se envergonhando em definirem: claramente o Papa Franciso é um homem de ideais esquerdistas, e o presidente argentino Macri é um homem de idéias e ações direitistas, e ligado também aos interesses econômicos americanos.

    Por isto, as diferenças e antipatias mútuas!

    Simples assim…

     

  4. O Papa é santo, mas não é bobo…

    O PAPA sabe dos 1.4 milhão de argentinos que voltaram para linha de pobreza depois do início do governo Macri…

    Tira dos pobres para dar aos Fundos abutres…

  5. Vai ver que o Papa é

    Vai ver que o Papa é kirchenista, fã de Cristina Kirchner, aquela que o maltratou ao maximo quando ele era Bispo e Cardeal na Argentina, não gosta de Macri porque ele tirou a dileta Rainha Cristina do poder, só pode ser isso.

  6. É até ocioso especular

    As diferenças são tão flagrantes que seria de impressionar se os dois tivessem um relacionamento um centímetro além da cordialidade estritamente formal.

    São profundas diferenças de valores.

    Se o Papa já as tinha com os Kirchner, achando-os lamentavelmente mundanos e um tanto desonestos, imagine então com um crápula como o Macri…

    São simplesmente antípodas.

  7. + comentários

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