As ilusões perdidas diante da crise do Ocidente
Colapso climático, guerras e desigualdades foram naturalizados pela velha política. A saída do mal-estar civilizatório exige um salto cultural e cognitivo: a cooperação como princípio fundamental da existência. Obras de Humberto Maturana e Francisco Varela dão pistas
por Antônio Sales Rios Neto
“Enquanto todas as demais ciências progrediram, a de governar marcou passo; está sendo praticada, hoje, um pouco melhor do que há três ou quatro milênios.”
John Adams, em 1813
“Caso John Adams tenha razão, não podemos esperar muita melhoria. Poderemos, tão somente, seguir entontecidos, como temos feito nesses mesmos três ou quatro mil anos, com alternâncias de glória e declínio, grandes esforços e sombras.”
Barbara Tuchman, em 1984
Não obstante o recorrente ceticismo em relação à irrefletida classe de agentes políticos, sempre houve um consenso entre governantes e governados (e até mesmo entre opressores e oprimidos, tiranos e tiranizados) em torno da ideia de que não há saída para os conflitos humanos fora da política, a reverenciada arte de gerenciar interesses dissonantes na busca de um modus vivendi na pólis, que germinou nas ágoras atenienses 2.500 anos atrás. Se assim o é, cabe então investigar em profundidade por que essa mesma política nunca conseguiu cumprir, a despeito de uma infinidade de assembleias, leis e regras de convivência já postas em prática, seu propósito de promover relações minimamente harmoniosas entre povos, sociedades e nações, bem como de solucionar a histórica relação predatória dos humanos com o meio ambiente. Relação esta que, no atual e agônico contexto geopolítico, alcançou o inaudito patamar de colapso civilizatório, o que coloca a humanidade diante de uma policrise de dimensões existenciais.
O fato é que, diferentemente dos avanços observados na ciência e na tecnologia, o ethos humano só tem regredido ao longo da história, contrariando tudo o que se esperava da política, a principal expressão desse ethos. Pelo menos três momentos de depressões civilizatórias profundamente agudas são bem representativos dessa vacuidade do ato de fazer política:
1) durante o desastroso século XIV, a Peste Negra, herdada da ignorância que reinava na Idade Média, e as invasões mongóis dizimaram metade da população da Europa e 2/3 da população da China, respectivamente;
2) no trágico século XX, com duas guerras mundiais e os muitos totalitarismos patrocinados pelo Estado, eliminou-se, deliberadamente e com as melhores técnicas, instrumentos e métodos científicos até então desenvolvidos, entre duas e três centenas de milhões de pessoas;
3) e agora, neste agonizante início de século XXI, que já nasce marcado pela policrise resultante da imbricação e sinergia entre o acelerado processo de colapso socioambiental em curso, a supressão dos regimes democráticos, a crescente insegurança energética e alimentar, a perspectiva sombria de novas pandemias, a amplificação das instabilidades do sistema-mundo capitalista, a potencial ameaça de uma conflagração nuclear global e, mais recentemente, os riscos envolvidos no avanço da inteligência artificial.
A política não só tem sido inócua, ela reflete a perene insensatez dos que governam e, assim, parece preparar as circunstâncias para a próxima tragédia, que, como a história demonstra, normalmente é mais devastadora que a precedente. Após 2.500 anos dessa busca do ideal de progresso emancipatório levado a cabo por toda a humanidade, chegamos agora no século XXI numa confluência de crises terminais que está pondo em questão a sobrevivência da nossa espécie. Como bem percebeu o escritor inglês John Gray, “o progresso na ciência e na tecnologia é um fato, ao passo que o progresso na ética e na política é uma ficção. (…) Os velhos demônios regressam, geralmente com novos nomes. O que vemos como características inalteráveis da vida civilizada se desvanece em um piscar de olhos.”
Para refletirmos em profundidade sobre essa contradição inerente à política, vou resgatar aqui o pensamento do pesquisador da Unicamp, Luiz Marques, que vem fazendo um meticuloso trabalho de investigação científica acerca da ameaça que o processo de colapso climático em curso representa para a humanidade. O resultado desse trabalho está bem articulado em três obras: Capitalismo e colapso ambiental (Editora Unicamp, 2015); O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência (Elefante, 2023); e Ecocídio, por uma (agri)cultura da vida (Expressão Popular, 2025). Essa trilogia de Marques trata-se, na verdade, de um dos dossiês mais consistentes e abrangentes já produzidos, que atesta a inviabilidade do sistema-mundo capitalista face ao acelerado processo de falência ambiental e civilizacional que ele tem desencadeado.
Transcrevo, a seguir, o trecho de um artigo-síntese desse elucidativo trabalho de Marques. Nele estão listadas as inúmeras crises interdependentes que, agindo em sinergia e reforçando-se mutuamente, compõem a policrise global que se abate sobre a humanidade. Para sairmos dessa policrise, Marques conclama as sociedades a uma insurreição, apostando na radicalização da política como nossa alternativa última para evitar o abismo civilizatório:
“Se não houver uma revolta política das sociedades à altura da extrema gravidade dessa poliédrica crise planetária, a condenação ao pior num futuro cada vez mais próximo é inapelável.
Essa revolta política contra o caos tem por condição primeira de possibilidade a revalorização da política e a recusa de sua substituição pela guerra. Clausewitz está errado quando afirma que a guerra é a continuação da política por outros meios. Essa tese é repetida ad nauseam pelos que lucram com a guerra ou, mais amplamente, pelos que a consideram inevitável, posto que resultante da agressividade de nossa espécie. Ninguém ignora que nossa espécie é extremamente agressiva e que a guerra é parte constitutiva da história humana. Mas justamente por isso a política é a mais importante invenção de nossa espécie, pois sua finalidade é dupla. Antes de mais nada, a política permite conter e controlar essa agressividade, sublimá-la e canalizá-la para o jogo de enfrentamentos extremos, mas civis e pacíficos, entre grupos sociais, entre alianças partidárias, parlamentares e eleitorais. É justa a inversão da fórmula de Clausewitz proposta por Michel Foucault, quando afirma em 1976 que “a política é a guerra continuada por outros meios”.
Mas se a política é uma forma de guerra pela qual se pode evitar a guerra, ela é também a invenção pela qual é possível fortalecer a outra componente constitutiva de nossa espécie e de nossa história: a cooperação. A política permite imaginar outras formas de civilização nas quais a linguagem, a lógica, o conhecimento da experiência histórica, os padrões de causalidade, a argumentação, o direito e as aspirações à justiça têm melhores condições de prevalecer sobre nossa agressividade. Política e linguagem são duas faces da mesma moeda. Ambas constituem em geral o domínio do simbólico e do imaginário e é delas que se faz a substância do melhor de qualquer civilização. A guerra, ao contrário, é a negação do poder da linguagem e, portanto, a desistência do projeto humano. Além de negar esse projeto, a guerra funciona, hoje, como: (1) uma poderosa alça de retroalimentação de todas as crises acima enunciadas [ver artigo] e (2) um obstáculo fundamental a qualquer esforço de concertação entres as sociedades para atenuar os impactos atuais e vindouros das crises planetárias, de modo a torná-los menos adversos às sociedades e à vida pluricelular em geral. Hoje, mais que nunca, a guerra deve ser evitada, se temos, de fato, alguma intenção de sobreviver.”
Ao que a história tem mostrado, a saída dessa policrise planetária a partir da política, como propõe Marques, é improvável, mas os principais constituintes da cultura (no sentido antropológico que este termo comporta) que forjou tal policrise parecem estar todos bem articulados nessa síntese de Marques. Sempre bem amparado nas melhores evidências das ciências que lidam com as mudanças climáticas, Marques é muito preciso no diagnóstico da condição terminal da nossa e das demais espécies por nós ameaçadas que habitam a Terra, cuja interdependência biológica encontra-se num acelerado processo de degradação. Já quanto à salvaguarda que poderá nos livrar dessa situação de policrise descontrolada, ou seja, se ela virá da radicalização da política como “uma forma de guerra pela qual se pode evitar a guerra”, se não indica uma saída factível, pelo menos parece apontar os principais elementos implicados nessa crise existencial na qual estamos imersos, a saber: a linguagem, a cooperação e a agressividade.
Entender como esses três elementos forjaram o comportamento do Homo sapiens moderno pode estar a chave para vislumbrarmos, ainda que remotamente, a possibilidade de saída dessa policrise terminal na qual estamos existencialmente imbricados neste século XXI. Se é que essa saída ainda é possível, ela seguramente não está na política, mas na cultura (entendida como atributo humano que delimita seu modo de estar e se relacionar com o mundo). A intenção aqui, portanto, é tentar mostrar que essa perspectiva, embora muito incongruente à primeira vista, pode ser a mais razoável para compreendermos que talvez estejamos presos ao autoengano de que a política um dia possa livrar a humanidade de uma policrise que ela mesma inaugurou e sustenta cotidiana e sistematicamente.
A primazia da Cultura sobre a Política – uma ontologia da cognição humana
A principal característica da cultura, compreendendo-a como conceito antropológico definidor do comportamento e modo de vida dos hominídeos, é que ela é um sistema conservador fechado. Em decorrência desse atributo de autorreferenciamento da cultura, nós humanos tendemos a antropomorfizar tudo, até mesmo a compreensão sobre como se deu a longa evolução do Homo sapiens e de seus ancestrais. Recentemente, o cientista político José Luís Fiori, que considero uma das melhores referências aqui no Brasil para o entendimento da conflagrada geopolítica atual, ao explicar o porquê de existir “a guerra, como forma regular, organizada e estratégica de exercício da violência entre os povos”, recorreu à seguinte justificação de cunho científico:
“Já faz tempo que a pesquisa antropológica e arqueológica acumula evidências de que a ‘violência’ nasceu junto com os primeiros primatas, e foi companheira inseparável do Homo sapiens, através de todo o seu processo evolucionário.” (grifo meu) (Boletim de Conjuntura nº 17, maio de 2026, do Observatório Internacional do Século XXI, NUBEA-UFRJ)
De fato, não podemos negar que há uma inarredável incongruência inerente à convivência humana, que fez da guerra não só o modus operandi da política, mas a principal característica definidora da suposta natureza humana. No entanto, a violência, e consequentemente a política (as relações de força e poder) forjada a partir dela, estão longe de constituir o fundamento primário indutor do comportamento humano. A política constitui antes um desdobramento da cultura, embora haja sempre uma relação de retroalimentação entre ambas. Política e cultura estão tão imbricadas que o que se convencionou chamar de guerra cultural – a perene e irremediável disputa ideológica e social pelo controle de narrativas, visões de mundo e valores morais – tornou-se uma constante na conflituosa convivência humana.
A noção de cultura aqui utilizada diz respeito a capacidades desenvolvidas e internalizadas pelos seres humanos no sentido antropológico, o qual inclui valores, crenças, premissas, teorias, modelos, símbolos e rituais, todos elaborados a partir de cosmovisões e concepções da realidade que nos cerca. Logo, a cultura pertence ao âmbito do imaginário humano, que comumente representamos pela noção de mitos, ficções ou ilusões. Portanto, a cultura, enquanto modo de viver, é o esteio que forja e sustenta a política, influenciando, assim, as várias dimensões da experiência humana: religião, economia, filosofia, ciência, ética educação, moral, costumes etc. Em resumo, a cultura define e delimita o viver humano, induzindo e sendo induzida pelo comportamento e pela interação dos seres humanos com as suas diversas realidades.
Assim, podemos afirmar que a cultura e a política operam no âmbito da cognição humana. Enquanto a cultura fornece o repertório de significados, valores e símbolos de uma sociedade, a política é o processo pelo qual esses significados são mobilizados para tentar organizar e harmonizar a convivência, gerir as relações de poder e distribuir equanimemente os recursos materiais necessários à vida na pólis. A cultura funciona, desse modo, como um sistema autopoiético: ela produz a si mesma continuamente, em processos recursivos, por isso é inerentemente fechada, portanto, conservadora. A política é o mecanismo de regulação desse sistema, garantindo que a identidade cultural se conserve e se mantenha. Essa imbricação tem a ver com aquilo que o sociólogo alemão Niklas Luhmann chamou de sistemas autorreferenciados. Todo sistema social é “fechado” na sua própria realidade e, assim, se mantém preso a ela, por mais incongruente que esta realidade percebida esteja em relação ao mundo externo.
Uma das decorrências do caráter conservador de uma cultura é que estamos sempre projetando fenômenos circunstanciais – portanto circunscritos a um contexto ambiental e histórico – como se fossem algo inato aos hominídeos, cujas culturas são forjadas em processos que duraram milhões de anos. Logo, se considerarmos a longa história da evolução do Homo sapiens e de seus ancestrais hominídeos, esse acoplamento entre cultura e política é um fenômeno cognitivo não só anômalo, mas também biologicamente insustentável e, em razão disso, parece constituir o âmago da impossibilidade civilizacional que se apresenta neste século XXI.
Embora haja um argumento aristotélico já sacramentado de que uma suposta racionalidade política seja algo inerente à natureza humana, tal axioma só tem apenas 2.500 anos de prevalência, correspondendo ao longo período de predomínio da chamada cultura ocidental. Essa suposta racionalidade humana que fundamenta e sustenta a cultura ocidental mostrou-se irracional agora neste século XXI, em face da sua convergência com a policrise em andamento, haja vista que não há até agora nenhuma ação política humana, racional e consistente, de entendimento e mitigação de seus efeitos catastróficos e terminais para a humanidade. Pelo contrário, essa policrise, que é subproduto da cultura ocidental, aproxima-se de seu estágio mais agudo, daí a constatação da atipicidade dessa cultura estabelecida.
Para entendermos como este fenômeno cognitivo atípico chamado cultura ocidental pode ter emergido, faremos antes uma digressão acerca de um trabalho seminal do neurobiólogo chileno Humberto Maturana (1928-2021) em parceria com o biólogo e filósofo Francisco Varela (1946-2001), chamado biologia do conhecer (ver livros Autopoiese e cognição: a realização do vivo, 1972; A árvore do conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano, 1984; e Cognição, ciência e vida cotidiana, 2001).
Para explicar a evolução dos seres vivos, a biologia utiliza dois campos interdependentes de estudo: a ontogenia, que estuda a história do ser vivo, incluindo mudanças morfológicas, fisiológicas e comportamentais; e a filogenia, que estuda a história evolutiva considerando as relações de parentesco entre diferentes grupos de seres vivos. Maturana e Varela dão um salto nesse entendimento ao conceber a biologia do conhecer, por meio da qual eles explicam que a humanidade surgiu não pela sobrevivência do mais forte (ideia oriunda do consenso científico, contido na manifestação de Fiori, de que a natureza dos primatas hominídeos é essencialmente violenta), mas por uma deriva evolutiva forjada na cooperação e na linguagem.
Segundo Maturana e Varela, a ontogenia é a história da mudança estrutural que um ser vivo está sujeito desde o momento da sua concepção até a sua morte. A mudança em qualquer ser vivo se dá por meio de um acoplamento estrutural (conceito também elaborado por Maturana e Varela), em que o ser vivo, para manter sua organização, precisa estar em um permanente estado de congruência com o ambiente em seu entorno. O mundo vivo constitui-se, assim, de uma grande comunidade com variadas formas de vida, todas em um contínuo estado de interação, em diversas ordens de organização, cujos comportamentos afetam-se mutuamente (ser vivo e meio) e, assim, vão estabelecendo consensos contextuais que garantem a coexistência e a coevolução de todos os integrantes dessa imensa rede que é a comunidade de biodiversidade na qual estamos inseridos. Como diz Maturana, “o que define uma espécie é o seu modo de vida, uma configuração de relações variáveis entre organismo e meio”.
Por isso, Maturana preferia usar termo deriva ontogenética (ou deriva estrutural) em vez de adaptação, pois sugere que o indivíduo apenas deriva e sobrevive nas circunstâncias em que sua estrutura permite. A linhagem só continua existindo se for capaz de conservar sua autopoiese (capacidade de produzir a si mesma) e seu acoplamento com o meio. A filogenia passa então a ser a história dessa deriva estrutural de uma infinidade de linhagens de organismos interagindo-se mutuamente ao longo de gerações. Ou seja, para Maturana, a evolução não decorre de uma suposta “sobrevivência do mais apto” (expressão cunhada pelo filósofo, biólogo e antropólogo inglês, Herbert Spencer, considerado o profeta do capitalismo laissez-faire), mas sim da conservação da organização e do acoplamento ao longo do tempo. Portanto, não há um progresso (uma teleologia) em que o ambiente atua como um filtro (um agente seletivo) que busca aperfeiçoar cada espécie de ser vivo. O meio ambiente apenas estabelece limites de viabilidade. Se o organismo sobrevive e se reproduz, ele continua a sua deriva estrutural.
A transição dos primatas bípedes para humanos ocorreu através de um entrelaçamento profundo entre as mudanças biológicas das interações entre uma infinidade de espécies existentes (filogenia) e as experiências de aprendizagem em cada espécie (ontogenia). A filogenia deu-se, desse modo, na conservação de uma dinâmica de sociabilidade e proximidade. A característica central da filogenia nos hominídeos foi a evolução de uma linhagem de primatas bípedes em que o compartilhar de alimentos e a vida em intimidade foram predominantes, ou seja, desenvolveram-se numa relação de autorrespeito e aceitação mútua. O ser humano tornou-se o que é porque, ao longo das gerações na sua deriva evolutiva, passou a viver imerso em conversações e afetos, ou seja, no entrelaçamento do linguagear com o emocionar. Dizendo de outro modo, o tecido da nossa existência é sempre emocional e relacional.
Portanto, o marco definidor da linhagem humana foi o desenvolvimento da linguagem, que surgiu não apenas para comunicar, mas como uma coordenação de ações e comportamentos compartilhados. Logo, o traço principal que guiou a filogenia dos hominídeos foi a convivência na cooperação, intimidade e aceitação mútua. Inclusive, Maturana chamou esse fenômeno relacional de “biologia do amor”, que o fez concluir que “a origem antropológica do Homo sapiens não se deu através da competição, mas sim através da cooperação”; e ainda acrescentava que “o amor é a emoção central na história evolutiva humana desde o início”. A palavra “amor” utilizada por Maturana está associada à noção de cuidado mútuo e não a qualquer conotação cristã ou romantizada que ela enseja no senso comum, ou seja, diz respeito à “emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência”.
É exatamente nessa perspectiva que a linguagem representa um fator determinante na formação antropológica da cultura. A origem do humano está no surgimento da linguagem e no seu entrelaçamento com o emocionar. O âmago do modo de viver humano está nesse emaranhamento, ao contrário do que pensa o establishment científico que dá centralidade à razão e à objetividade nas ações humanas, entendimento que constituiu o fundamento da revolução científica e do iluminismo, ocorridos nos séculos XVI ao XVIII, na Europa, e que, por sua vez, deu esteio ao racionalismo econômico que se consolidou nos séculos XIX e XX. Como Maturana mesmo dizia, “todo sistema racional tem um fundamento emocional”. No entanto, “pertencemos a uma cultura que dá ao racional uma validade transcendente, e ao que provém de nossas emoções, um caráter arbitrário.”
Portanto, a linguagem não é um mero sistema de códigos inventado para transmitir informações sobre um mundo que existe independentemente de nós. Pelo contrário, a linguagem é um fenômeno biológico de coordenação contínua de ações que não apenas descreve a realidade; ela a faz emergir. A linguagem molda a percepção do que é real para um grupo social. Como a linguagem está entrelaçada ao emocionar, as coordenações de ações dos humanos estão biologicamente propensas a convergir para a cooperação.
Porém, em circunstâncias muito atípicas, o emocionar humano pode convergir para a agressividade, o que pode explicar a emergência da cultura ocidental na qual estamos imersos. Há vastas evidências arqueológicas de que uma profunda ruptura cultural interrompeu o curso dessa filogenia humana baseada na cooperação, por volta de sete ou seis mil anos atrás, possivelmente causada pelas invasões kurgan, referentes às sucessivas ondas migratórias indo-europeias dos povos pastores guerreiros vindos do Leste, na qual emergiu gradualmente uma nova identidade cultural, a cultura patriarcal europeia, estabelecendo-se uma sociabilidade de dominação em contraposição a uma sociabilidade de parceria que sempre caracterizou o ethos humano. Com essa ruptura, o viver humano passou a se sustentar na negação do outro e no domínio da natureza, operando num linguajear da agressividade.
A partir de então, pôs-se em marcha o conflito interno, ou seja, o permanente entrechoque do novo viver patriarcal, que opera sob a lógica da apropriação, com a filogênese cooperativa e não-hierárquica do Homo sapiens e de seus parentes animais. A noção do que seja patriarcal utilizada aqui não é, portanto, a do consenso acadêmico que se restringe à superioridade de gênero, mas a que diz respeito ao atributo de apropriação característico de um modo de viver (ver explicação de Maturana). Abordei mais aprofundadamente sobre essa ruptura cultural nesses dois textos: Como nasceu e germinou a civilização patriarcal? e Uma autópsia do Ocidente.
Portanto, a linguagem emaranhada com a cooperação constitui dinâmica que permitiu a evolução dos primatas hominídeos por milhões de anos, enquanto a linguagem imbricada com a agressividade constitui um fenômeno cognitivo antropológico anômalo na história evolutiva da nossa espécie, catalisador tanto da pulsão de morte quanto do permanente mal-estar civilizatório que essa pulsão acarreta. Desencadeou-se, desse modo, um fenômeno desestabilizador da psiquê individual e coletiva, ao qual se dedicou o criador da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), para quem as noções de cultura e civilização representavam a mesma coisa. “Recuso-me a separar cultura e civilização”, dizia Freud. Daí a relevância da cultura como principal fator constitutivo do viver humano e da profunda imbricação existente entre esses três elementos fundantes da cultura (a linguagem, a agressividade e a cooperação), muito bem concatenados na síntese acima de Marques.
O fato é que estamos aprisionados cognitivamente a este desvio antropológico da cultura patriarcal, e o conflito interno daí gerado está intimamente associado às três ordens políticas estabelecidas pela cultura ocidental: a militar, a religiosa e a comercial. Também abordei recentemente num texto intitulado Mercado, a última parada do Ocidente patriarcal?, no qual tratei da gênese e da evolução dessas três ordens políticas. A partir delas, generais, sacerdotes e mercadores se reversaram no poder e sempre dominaram, sob um falso pressuposto filogênico da “guerra de todos contra todos”, o destino dos povos e civilizações, legitimando a percepção hobbesiana de que estaríamos, desde sempre, condenados a uma de vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta” (Thomas Hobbes, em Leviatã, de 1651).
A biologia do conhecer concebida por Maturana e Varela nos mostra que a cultura é uma variante antropológica inerente a ontologia do animal humano. Amparados não só numa reformulação das bases biológicas que explicam a vida, mas também em evidências arquelógicas, paleontológicas e etnográficas, eles descobriram que o Homo sapiens e seus ancestrais são um animal emocional e relacional, e não racional superior aos demais. Somos um animal cooperativo com a mesma relevância evolutiva dos demais, cujo comportamento foi forjado numa perene interação de cuidados e afetos mútuos.
Portanto, o atributo político dado ao Homo sapiens é apenas uma constante sociológica circunstancial inerente à cultura patriarcal instalada há seis mil anos, da qual derivou a cultura ocidental. Por isso, cabe se debruçar sobre a armadilha cognitiva que nos faz acreditar na ideia de que só há salvação dentro da política, o que equivale a afirmar que só dispomos da cognição ocidental–patriarcal para a compreensão e atuação no mundo em nossa volta.
Política, uma derivação judaico-cristã e greco-romana
Aristóteles havia vaticinado a ideia do ser humano como um animal político e racional, que só alcançaria sua plena realização, virtude e felicidade vivendo de acordo com a política instituída na pólis, a cidade-estado. No entanto, contrariando o ideário ocidental de que há um suposto progresso civilizatório conduzido racionalmente, a história do Homo sapiens tem sido, desde a antiguidade, um continuum de guerras, massacres e destruições, o que confirma que o ato de fazer política, que tem pelo menos 2.500 anos de existência, nunca se constituiu como um meio efetivo de superação dos males humanos. Entre lampejos de sensatez política – a exemplo de Sólon e Péricles, em Atenas; ou dos “cinco bons imperadores” de Roma, segundo Maquiavel –, o que sempre predominou foi a irracionalidade e a insensatez política. Como bem expressou o escritor britânico John Gray, “a política é arte de inventar remédios temporários para males recorrentes – uma série de expedientes, não um projeto de salvação.”
A política, assim como a noção de poder, é apenas mais um dos muitos conceitos constitutivos do Ocidente, derivado dos ideais greco-judaicos que irromperam nos primórdios da formação da cultura ocidental. A política é um meio de lidar com relações assimétricas de poder, cuja origem provavelmente remonta a um contexto de época em que se buscava uma forma de racionalizar (por ordem) as conflituosas relações de poder (no caos) inerente à vida na pólis. Por outro lado, a própria noção de poder é um fenômeno decorrente do desejo de apropriação que caracteriza o que Maturana chamou de cultura patriarcal, esse novo modo de viver que (em oposição às culturas pré-patriarcais ou matrísticas precedentes) ganhou predominância provavelmente após as sucessivas invasões kurgan ocorridas na Europa Antiga – o fenômeno antropológico-cultural que teria provocado a ruptura no processo civilizatório, conforme mencionamos antes.
Sob essa perspectiva, quem talvez tenha conseguido identificar melhor as forças que forjaram o nascimento da política na pólis grega, e que continuam atuando até os dias atuais, foi o escritor e economista francês Jacques Attali, quando disse: “três poderes sempre coexistiram: o religioso, que fixa o tempo das preces, dá ritmo à vida agrícola e determina o acesso à vida futura. O militar, que organiza a caça, a defesa e a conquista. O comercial, que produz, financia e comercializa os frutos do trabalho.”
Assim, a política constitui um sistema de mediações gerido no âmbito de instituições forjadas no mundo ocidental: o exército, a igreja, o Estado e o mercado, todos regidos por um emocionar na apropriação, em disputa permanente pelo monopólio do poder e da violência. A política é, portanto, uma invenção histórica e contingente. Ela não deriva de um processo filogênico como ocorreu com a sociabilidade animal, que precisou de milhões de anos para se constituir. Sua história é a história de disputas territoriais e mecanismos de regulação social restrita a uma circunstância imposta pela cultura, no caso, a cultura ocidental. Faz parte da estrutura cognitiva que governa o mundo apenas a partir de uma confluência de ideais de vida surgidos na Grécia Antiga, Fenícia, Mesopotâmia e noutros povos que habitavam as cercanias do Mediterrâneo, berço da cultura ocidental.
O que hoje chamamos de “fazer política” não é um desdobramento constitutivo da natureza do animal humano. A política não é um atributo biológico do humano, mas um produto histórico dessa matriz cultural muito específica, que forjou aquilo que podemos chamar de ocidente cognitivo. Esse fenômeno cultural decorre de duas principais construções psíquicas que se reforçam mutuamente:
1) a herança judaico-cristã: a partir dela foi se estabelecendo a crença numa ética monoteísta, forjando a noção de universalismo e criando a teleologia. Seu principal desdobramento é a racionalização e naturalização das hierarquias. A partir dessa herança, emergiu gradualmente uma concepção de tempo linear, com um início, propósito histórico e um destino final (o Telos) em contraste com as cosmovisões cíclicas das culturas pré-patriarcais. Diversas evidências arqueológicas sugerem que, na Europa Antiga, haviam culturas neolíticas organizadas sob um “modelo de parceria”, cooperativo e não hierárquico — sociedades mais igualitárias onde predominava, desde o Paleolítico Superior, uma transcendência associada às divindades femininas, ao culto a uma Deusa-Mãe provedora da vida e da fertilidade, uma vez que vigoram cosmovisões cujas culturas percebiam-se interdependentes e indissociáveis do mundo natural.
2) a herança greco-romana: influenciada e imbricada com a herança judaico-cristã, ela concebeu e aperfeiçoou o desenvolvimento da pólis, reformulando o “modelo de dominação” patriarcal pré-existente. Por meio das ágoras (praças públicas), cristalizou-se a ideia de que os assuntos da cidade deveriam ser decididos pelo debate supostamente racional entre os “cidadãos” atenienses. No entanto, a política que aflorou na pólis grega já nasce amparada na exclusão de mulheres, escravos e estrangeiros (metecos). Ela consolidou o espaço público como um domínio estritamente masculino, aristocrático, branco e belicoso. A transição para a pólis grega marcou uma espécie de normalização do “modelo de dominação” desencadeado pelas ondas migratórias dos chamados povos kurgan (migrações indo-europeias), onde a política passou a ser a gestão das cidades-estado, das instituições, das fronteiras, dos recursos, das apropriações e, principalmente, da guerra.
A tradição judaico-cristã introduziu o elemento moral e transcendente justificador de um cosmos ordenado e supostamente harmonioso, na tentativa de opor-se a um caos social que reinava no tempo dos impérios. O mundo greco-romano forneceu, por meio do debate, do direito e da lei escrita, uma forma institucional a este cosmos, culminando na formação do Estado soberano, supostamente racional e redentor. Esta imbricação constitui a essência da política até hoje.
A implicação mais nefasta deste longo processo foi ter forjado a percepção de separação entre homem e natureza. Estabeleceu-se, assim, uma cosmogonia que colocou o homem, literalmente, como senhor da Criação, com a missão de dominar a Terra, despojando o mundo natural de sua complexidade, interdependência e autorregulação. A natureza deixou de ser um ente participativo nas decisões coletivas para se tornar mero “recurso” a ser administrado pela política em busca de um suposto bem comum, mas que só teve como beneficiário uma parcela mínima da humanidade, que, via de regra, restringiu-se ao europeu branco, masculino, afortunado, supostamente superior às maiorias marginalizadas: mulheres, negros, indígenas, ciganos e povos colonizados.
O ato de fazer política é, essencialmente, uma derivação greco-romana e judaico-cristã de perceber e moldar o mundo segundo esse entendimento. A percepção de que há uma Entidade transcendente no controle da realidade transmutou-se para a política primeiro nas cidades-estado e depois na forma do Estado soberano, com leis universais que, pouco a pouco, foram se sobrepondo às tradições locais. Foi assim que se pavimentou o caminho para uma sucessão de impérios hegemônicos: iniciando com o Império Romano (27-395 d.C.), seguido dos impérios Bizantino (395-1453), Romano-Germânico (800-1806), Britânico (1583–1783) e agora o decadente imperialismo Americano (1803-2001), que liderou a ordem internacional liberal baseada em regras, que vigorou nos últimos 80 anos.
Política, meio de legitimação e conservação da cognição ocidental
A política certamente foi praticada pelos seres humanos em vários lugares e circunstâncias concomitantes à experiência nas ágoras gregas, sob outras denominações. Mas foi a partir da conservação e prevalência dos ideais do Ocidente que surgiu a política e a democracia como a conhecemos hoje. Os ideais do Ocidente afloraram no momento em que gregos, fenícios e judeus romperam com o entendimento cíclico sobre o mundo e passaram a direcionar os desejos humanos para a razão, a metafísica, a ação e a permanente busca do novo, todos convergindo para a necessidade de progresso, como meio de alcançar uma redenção humana na História, face à destrutividade vivenciada num mundo permanentemente conflagrado, regido pela ordem militar do tempo dos impérios, na antiguidade.
A agressividade humana despertada pelo irromper da cultura patriarcal gerou a necessidade de redenção na História. A cultura judaico-cristã, entrelaçada aos ideais greco-romanos, constitui a manifestação dessa necessidade de aprimoramento humano e salvação a ser alcançada no desdobrar da História. Assim, a ideia de tempo linear e de progresso se sobrepôs às visões cíclicas da vida comuns a várias culturas ancestrais. Mesmo tendo sido gradualmente secularizada, ao longo dos séculos XVI a XIX, essa confluência entre o divino e a razão deu esteio ao mito do progresso inescapável a ser alcançado num suposto espírito do mundo. Essa redenção nos arrastou para o absurdo do crescimento econômico ad infinitum que move o sistema-mundo capitalista e constitui a promessa central de qualquer projeto político moderno.
A política nascida em Atenas é, ao mesmo tempo, filha e parteira das guerras. Com a intenção de superá-las, a política terminou amplificando-as a patamares que hoje ameaçam a sobrevivência da humanidade. Antes da política inaugurada na pólis grega, os humanos já se digladiavam localmente fazendo uso de espadas, adagas, punhais, lanças, bigas, catapultas e aríetes. Após o advento da racionalidade política, as armas foram institucionalizadas e se sofisticaram ao longo do tempo. Um dos primeiros armamentos com grande poder de destruição foi o chamado “fogo grego”, usado nos séculos VII ao XIV, que era disparado por lança-chamas primitivos em navios conhecidos como dromons; depois veio a pólvora chinesa, que permitiu o uso de pistolas, mosquetes e canhões; seguido, já no século XX, pelo desenvolvimento de tanques, mísseis, armas químicas, biológicas e cibernéticas; até alcançarmos a adoção de armas nucleares, que, na atualidade, potencializam assustadoramente as recorrentes tensões geopolíticas e flertam com a vertigem da iminência de uma guerra nuclear terminal.
Portanto, no seu âmago, a política, embora tenha sido criada como instrumento para gerir e conter a agressividade entre os humanos, constitui-se na verdade num meio de manutenção da cultura patriarcal. Esta se caracteriza, segundo Maturana, “pelas coordenações de ações e emoções que fazem de nossa vida cotidiana um modo de coexistência que valoriza a guerra, a competição, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procriação, o crescimento, a apropriação de recursos e a justificação racional do controle e da dominação dos outros por meio da apropriação da verdade”. Logo, a assertiva de Luiz Marques de que “a política é a mais importante invenção de nossa espécie”, uma vez que é ela quem “permite conter e controlar essa agressividade, sublimá-la e canalizá-la para o jogo de enfrentamentos extremos, mas civis e pacíficos”, mais do que uma saída viável para a policrise, constitui o reflexo de uma armadilha cognitiva que precisa ser urgentemente neutralizada.
A política é um desdobramento dos ideais greco-judaicos e seus sucedâneos romano-cristão. Como tal, não podemos esperar que ela sirva a algo que negue os pressupostos sobre os quais ela foi criada. Isso equivale ao mesmo fenômeno – que também opera no âmbito da linguagem – que Maturana chamou de “conversações recorrentes que negam a democracia”. A política é, portanto, uma resultante da cognição ocidental que, ao longo da história, serviu tão somente aos seus senhores: primeiro aos generais, depois aos sacerdotes e, agora neste conflagrado século XXI, aos mercadores. Ou seja, a política constitui-se e sempre esteve a serviço das armas, da fé monoteísta e, neste agônico século XXI, do mercado.
Não à toa, o realismo político tem sido a abordagem teórica mais tradicionalmente aceita em ciência política, sobretudo no entendimento das relações interestatais. A realpolitik foi a abordagem que melhor captou a relação entre os homens e suas instituições como ela é, e não como ela deveria ser. A política articula-se em torno de outros dois conceitos-chave que são o poder e o conflito, também constitutivos da cultura patriarcal, partindo do pressuposto hobbesiano de que a natureza humana é inarredavelmente egoísta, predatória e propensa à conquista e à agressividade. Por isso, os melhores guias para a compreensão da política sempre foram referências como Sun Tzu, Hobbes, Maquiavel. Clausewitz e, mais recentemente, autores como Hans Morgenthau e Kenneth Waltz. Como havia prenunciado Hobbes, “os pactos, não passando de palavras e vento, não têm qualquer força para obrigar, dominar, constranger ou proteger ninguém, a não ser a que deriva da espada pública.” (Hobbes, no capítulo XVII do Leviatã.)
No lado oposto do realismo político, expoentes como Aristóteles, Locke, Tocqueville e Kant integram a corrente do idealismo político (para não dizer utópicos). Seguindo as concepções de Maturana, eles na verdade são nostálgicos. Concebem a noção de política e democracia racionalmente, mas as ações humanas, antes de serem racionais, operam no entrelaçamento do emocionar com o linguagear. Portanto, pensadores que seguem esta vertente são provavelmente movidos por um emocionar não patriarcal. Estão, inconscientemente, buscando resgatar um passado ancestral cuja cognição não era regida pela força da espada, mas por um fluir natural na cooperação.
Quando afirmamos que a política é uma invenção greco-judaica, depois reforçada pela tradição romano-cristã, estamos constatando o sucesso dessa matriz cognitiva em universalizar seus ideais e sua visão de mundo, impondo-se ao resto do globo como se fosse o único caminho civilizatório viável. A decorrência mais nefasta dessas duas heranças é que, por leio da linguagem entrelaçada à agressividade, forjaram-se as forças constitutivas da cognição ocidental: Estado, soberania, separação homem-natureza, transcendência monoteísta e racionalidade econômica. Tais forças nos conduziram à atual policrise e ao processo de colapso socioambiental, sintomas terminais do que hoje se reconhece por antropoceno, a época em que se submeteu a natureza a serviço da cultura de apropriação ocidental-patriarcal.
Os pressupostos que criaram a policrise são os mesmos que a política adota, inutilmente, para resolvê-la. A política tornou-se, desse modo, um meio de legitimação e conservação da cognição ocidental que, mais do que gerenciar interesses dissonantes na busca de um modus vivendi na pólis, tem sido a maior força impulsionadora do conflituoso mundo humano. Esse longo condicionamento cognitivo culmina agora com uma supremacia difusa que nem as religiões monoteístas e nem o Estado controlam, a hegemonia do mercado, essa nova entidade abstrata que capturou a subjetividade humana ao longo de cinquenta anos de hipnose neoliberal. O mercado constitui hoje a principal expressão da política. Firmou-se como novo eixo civilizatório e indutor comportamental, arrastando as civilizações para o precipício neste século XXI.
Portanto, se ainda há uma saída da policrise planetária na qual estamos psiquicamente imbricados, ela está em reconhecer esse fenômeno antropológico cognitivo e resgatar as formas de organização e viver humanos que foram apagadas e silenciadas por essa cultura hegemônica regida pela agressividade. Do ponto de vista da atuação dos nossos desacreditados agentes políticos, essa hegemonia se traduz hoje nas duas principais correntes políticas, ambas desdobramentos da cognição ocidental:
1) a esquerda ainda acredita numa emancipação humana via resgate de uma democracia liberal que só atendeu às elites econômicas dos países do Norte Global, ainda assim, temporariamente. Ela está presa à ilusão de que o Estado pode ser regenerado de sua condição constitutiva de Leviatã, e que o Mercado ainda pode ser domesticado para universalizar o ideal de igualdade e solidariedade entre os povos.
2) a ultradireita, em ascensão no mundo todo, negadora da crise climática em andamento, deslegitimadora do ideal de democracia, maior patrocinadora da desconstituição do Estado tripartite idealizado por Montesquieu (que deveria realizar justiça e democracia, mas não o fez), acredita e investe na radicalização do mercado hiperturbinado pelo inebriante mundo das comodidades tecnológicas.
As duas são heranças da Revolução Francesa que estabeleceu uma nova divisão para humanidade. Antes separada entre cristandade e povos não-cristãos, depois entre lobos hobbesianos e cordeiros rousseaunianos. Juntas reverberam os ecos desse ocidente agonizante, mas é a ultradireita que está em franca vantagem porque sabe mobilizar e canalizar a cultura melhor do que a esquerda. Como bem disse o articulista Ricardo Queiroz Pinheiro: “A cultura não é um elemento acessório na luta política; ela é o campo onde se constroem as bases da hegemonia. Quem controla a cultura não apenas domina narrativas, mas define os limites do possível, orienta valores e molda a percepção da realidade. (…) O erro da esquerda foi tratar a cultura como algo secundário, permitindo que a direita ocupasse esse espaço estratégico.”
A inelutável catástrofe planetária, última oportunidade de saída da policrise
Luiz Marques entende que “nada pode ser considerado impossível diante de uma ameaça existencial” e confia à política essa superação. Embora não vislumbre uma alternativa fora da política, Marques soube formular uma proposta inicial de saída da policrise capaz de desencadear a necessária ruptura civilizacional à altura dos desafios atuais. Sua proposta está consignada na sua reveladora obra O Decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência (Editora Elefante, 2023), em que ele delineia uma “política de sobrevivência das sociedades”, a qual precisaria ter sido articulada e implementada ao longo deste decênio (2021-2030), amparada nos seguintes princípios:
“1- redução emergencial das diversas desigualdades entre os membros da espécie humana;
2- diminuição do consumo humano de materiais e de energia;
3- extensão da ideia de sujeito de direito às demais espécies, à biosfera e às paisagens naturais;
4- restauração e ampliação das reservas naturais e das reservas indígenas, a serem consideradas como santuários inacessíveis aos mercados globais;
5- desmantelamento da economia global e transição para uma civilização descarbonizada;
6- desglobalização do sistema alimentar e sua transição para uma alimentação baseada em nutrientes vegetais;
7- o arcabouço jurídico internacional vigente deve superar o axioma da soberania nacional absoluta em benefício de uma soberania nacional relativa;
8- a aceleração da transição demográfica aumenta as chances de sucesso das rupturas acima enunciadas.”
Uma proposta dessa magnitude, neutralizadora da cognição ocidental, só pode ser viabilizada no âmbito de uma mudança de cunho antropológico, ou seja, no âmbito de uma transformação da cultura, dos pressupostos que justificam o modo de viver do Homo sapiens moderno ocidentalizado. Esperar que a política opere tal transformação, seria imaginar uma autonegação da própria política. Tanto é assim que, a despeito das inúmeras evidências científicas reunidas nas obras de Marques, os dirigentes políticos e sobretudo o mercado, em prol do qual trabalham, continuam subestimando o processo de colapso climático em acelerado curso. A vacuidade da política tem sido a norma. O fato do establishment político mundial ter ficado paralisado desde o final dos anos 1960, quando surgiram os primeiros alertas científicos (The Population Bomb, 1968; Conferência de Estocolmo, 1972; Os Limites do Crescimento, 1972) sobre a inviabilidade climática para sustentar nossa civilização do progresso e da abundância material para uma ínfima minoria, comprova que nosso problema está na cultura e não fundamentalmente na política.
No fundo, a atual catástrofe planetária já estava contratada desde quando se iniciou o nosso aprisionamento cognitivo à cultura patriarcal milenar, possivelmente desencadeado pelas sucessivas ondas migratórias dos povos guerreiros kurgan. O que é mais emblemático é que ela continua sendo amplificada neste exato momento de policrise terminal, e não há nenhum consenso sobre esse drama existencial. Para mencionar apenas uma evidência mais atual dessa catástrofe em curso, segundo a Rede Mundial de Atribuição (WWA), mais de 150 milhões de hectares de vegetação foram queimados no mundo todo entre janeiro e abril de 2026, uma área equivalente ao estado do Amazonas. O número é cerca de 50% maior do que a média recente (2012-2025) e o dobro do mesmo período em 2024, ano mais quente da história até o momento. Portanto, dada a inconteste aceleração da predação ambiental, a catástrofe, bem como o flagelo humanitário dela decorrente, é inevitável no curso desse século XXI.
Mas bem antes dessa policrise eclodir, sua gênese e evolução já estavam inscritas no próprio desdobrar da História. Hegel, após observar Napoleão Bonaparte montado em seu cavalo, em outubro de 1806, nas ruas de Jena (Alemanha), celebrando sua vitória na famosa batalha de Jena–Auerstedt, afirmou: “o ‘espírito do mundo’ a cavalo”. Napoleão encarnava a própria Razão em movimento, a força de mudança que estava, naquele momento, destruindo o antigo regime feudal absolutista e unificando o mundo sob os ideais da Revolução Francesa, mostrando que tragédia e progresso andam de mãos dadas. Para Hegel, um espírito bélico, mas com potencial de transformação social profunda, é o que permite ao Weltgeist avançar pelo conflito, dando seguimento ao inelutável destino da tortuosa história ocidental.
De fato, 150 anos depois desse evento definidor do modus operandi do “avanço” do progresso ocidental, em abril de 1945, os hegelianos diriam que Harry Truman era “o ‘espírito do mundo’ cruzando os céus da terra do sol nascente com o artefato nuclear”. Com o objetivo de forçar a rendição japonesa, Truman, ao despejar suas ogivas nucleares sobre as cabeças de cerca de 600 mil habitantes de Hiroshima e Nagasaki, conseguiu conter o ímpeto do socialismo soviético e assegurar a continuidade do consagrado processo civilizador. Depois desse contundente evento de destruição criativa patrocinado pela cognição ocidental, um progresso tecnológico e material vertiginoso foi desencadeado.
Após 1945, veio a Grande Aceleração que explodiu todos os indicadores demoeconômicos, provocando a desestabilização do sistema Terra. Mesmo já tendo sido cientificamente reconhecido o início do desequilíbrio ecológico em escala global (Os Limites do Crescimento, 1972), o filósofo Francis Fukuyama, inspirado pela queda do muro de Berlim em novembro de 1989, anunciou que a redenção humana na História (O fim da história e o último homem) havia chegado a um bom termo com a expansão global da democracia liberal a todos os povos, sob a tutela da quimera de Estados-nação harmoniosos, orbitando na esfera de influência do “capitalismo democrático” estadunidense. A continuidade do Weltgeist estaria, assim, assegurada pela via da política que tão bem regula os ideais do Ocidente.
Contrariando todas as previsões hegelianas, o que eclodiu após 1989 não foi a desejada pax occidentalis, mas sim a policrise que já vinha sendo lentamente maturada ao longo dos últimos seis milênios de insensatez da cultura patriarcal, que constitui o evento antropológico definidor da nossa atual época do antropoceno. Nos conflagrados dias atuais, a cognição ocidental sempre hegemônica certamente descreveria Trump assim: “o ‘espírito do mundo’, agora com um taco de golfe”. Um magnata, legítimo representante da ordem política comercial, conseguiu, com o apoio de um punhado de mercenas que comandam os algorítimos, o extraordinário feito de sacramentar o Mercado como principal eixo regulador e redentor da subjetividade humana. Ao infringir todas as balizas da decadente ordem internacional hegeliana baseada em regras liberais, Trump pode ter deixado o projeto iluminista do secularismo ancorado no Estado-nação irreversivelmente no passado, como fez Napoleão com o absolutismo feudal.
Frustrando o que os hegelianos sempre esperavam da História, Trump parece figurar um autêntico Napoleão do século XXI, porém em sua versão invertida. Embora seus pares autocráticos na China e na Rússia não estejam tão distantes, Trump é o maior artífice da potencialização da policrise, pois está na verdade mais próximo de constituir a antítese desse longo movimento apoiado pela simbiose cultural entre Fé (monoteísta) e Razão (aristocrática). Trump está na verdade promovendo o início do embate final entre a razão de Estado e o seu contraste, a desrazão de Mercado. Este talvez seja o choque derradeiro do longo pesadelo ocidental. Logo, esse reverenciado espírito do mundo, nascido dos ideais greco-judaicos, representa uma promessa de redenção dos males humanos que hoje se revela ilusória e catastrófica.
Considerando que o tempo de conter o processo de colapso socioambiental é uma variável decisiva para a sobrevivência da humanidade, que atua cada dia mais a nosso desfavor, esse embate final trumpiano (e não mais hegeliano) pode, contraditoriamente, representar o começo de uma verdadeira ruptura civilizatória, ao criar as condições de antecipação do agravamento da policrise. Resta-nos, portanto acreditar que os seres humanos, mesmo aqueles irredutivelmente ocidentais-patriarcais, não suportam uma realidade muito distópica. Ao estarem elevando a catástrofe a um patamar de destruição planetária capaz de perturbar suas próprias consciências, poderão ser induzidos à inadiável premência existencial de necessidade de reconhecimento e retorno às suas ancestralidades suprimidas pelo desvio antropológico forjado pela cognição ocidental.
Parece residir nessa inelutável catástrofe planetária a possibilidade de saída da policrise. Como havia intuído o audacioso e resistente Edgar Morin, profundo conhecedor da condição humana, falecido recentemente, “a pior ameaça e a maior promessa chegam, simultaneamente, ao século. Com a condição de não naufragar nela, a catástrofe se converte na última oportunidade.” O impasse está dado: o colapso infligido pela cognição ocidental, sustentada pela agressividade da política, ou o retorno à cultura da cooperação constitutiva da nossa ancestralidade. O resultado desse impasse: a humanidade só poderá atestá-lo a posteriori, obviamente, se uma extinção humana não se consumar neste incognoscível século XXI.
“A barbárie é o mais provável. O político é uma rolha flutuando à deriva, na tempestade das paixões.”
Jacques Attali
Nota
Este texto contou com uma proveitosa leitura crítica do articulista Ruben Bauer Naveira, colaborador do Outras Palavras, a quem agradeço.
Antônio Sales Rios Neto – Servidor público federal. Estudioso da cultura patriarcal (entendida como principal elemento constitutivo do processo civilizatório e propulsor do antropoceno) e das novas abordagens da Complexidade (um dos meios de superação do patriarcado). Coordenador, representando o Brasil, do projeto “La Emergencia de los Enfoques de la Complejidad en América Latina”, iniciativa da Comunidad de Pensamento Complejo (CPC), sediada na Argentina.
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