Como o MI6 ficou tão incompetente?
Uma investigação levanta questionamentos sobre os vínculos do governo britânico com os Emirados Árabes Unidos e ecoa as falhas de inteligência que antecederam a Guerra do Iraque
por Mohamed Saad Kamel
Como o MI6 permitiu que considerações políticas influenciassem decisões que afetaram uma nação inteira? E quais são as semelhanças entre sua atuação no Sudão e a desastrosa avaliação de inteligência da CIA sobre as supostas armas de destruição em massa do Iraque — uma falha que contribuiu para a destruição do país?
Para responder a essas perguntas, é preciso voltar às primeiras horas de 15 de abril de 2023.
Os sudaneses acordaram naquele dia ao som de disparos contínuos vindos de diferentes pontos da capital, Cartum. Naquele momento, havia poucas informações sobre o que estava acontecendo. Mais tarde, ficou claro que as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) haviam lançado uma ofensiva para tentar tomar o poder pela força.
Desde aquele dia fatídico, o povo sudanês tem testemunhado atrocidades que as Nações Unidas classificaram como parte de uma das maiores catástrofes humanitárias da história moderna.
Na escuridão que tomou conta do Sudão em abril, as Forças de Apoio Rápido deixaram de atuar nas margens do cenário político para se transformar em uma força armada capaz de espalhar violência e destruição por Cartum, Darfur e pelas cidades de Gezira. Sua guerra não foi apenas uma disputa pelo poder. Tornou-se uma catástrofe moral que transformou casas antes consideradas lugares de proteção em cenários de medo e destruição.
As ruas se tornaram locais de terror. Casas foram invadidas, propriedades foram saqueadas e a dignidade das pessoas foi violada sob a ameaça de armas.
Em Darfur, a tragédia de El Geneina voltou a se repetir com uma brutalidade ainda maior. Os assassinatos vieram acompanhados de violência sistemática com motivação étnica, enquanto os corpos de pessoas inocentes eram deixados espalhados pelas ruas. As ações da milícia provocaram uma crise humanitária que chocou o mundo.
Casas foram transformadas em bases militares, enquanto famílias eram forçadas a abandonar seus lares depois de perderem tudo o que possuíam. Em todo o Sudão, civis foram sistematicamente perseguidos por motivos étnicos, levando à formação de valas comuns e ao deslocamento de milhões de pessoas que fugiam para salvar suas vidas.
Outros métodos de terror — incluindo estupros, sequestros e o uso da fome como arma de guerra — foram empregados para subjugar comunidades. A própria identidade do país e sua memória nacional também foram atingidas pela destruição e pelo saque de hospitais, universidades e arquivos, deixando comunidades inteiras sem as estruturas fundamentais para a vida.
O que essas forças cometeram desde abril não representa apenas uma ferida infligida ao Sudão. É uma cicatriz profunda na própria memória da humanidade. Os relatos das vítimas permanecerão como parte da história do Sudão até que a justiça finalmente prevaleça.
No entanto, apesar da ampla documentação e das evidências conhecidas internacionalmente, a atuação britânica no caso levanta questionamentos sobre uma possível escolha de ignorar informações relevantes, influenciada por cálculos políticos e materiais. Isso coloca em debate a responsabilidade do Reino Unido e até que ponto seu silêncio pode ter contribuído para dar cobertura indireta a atrocidades cometidas diante das próprias instituições britânicas de inteligência e segurança.
A relação dos Emirados Árabes Unidos com as Forças de Apoio Rápido — e o papel britânico
Investigações, documentos das Nações Unidas e reportagens da imprensa indicam que o apoio dos Emirados Árabes Unidos teria desempenhado um papel relevante no fortalecimento das capacidades logísticas e militares das Forças de Apoio Rápido, contribuindo para a continuidade de suas operações.
Relatórios internacionais e de inteligência, assim como documentos produzidos em campo, têm apontado para um suposto envolvimento dos Emirados Árabes Unidos no apoio às Forças de Apoio Rápido durante a guerra iniciada no Sudão em abril de 2023. Segundo essas fontes, o suporte militar, logístico e financeiro teria se tornado um dos fatores que contribuíram para a prolongação do conflito.
As informações apresentadas a seguir não se baseiam apenas em interpretações políticas, mas em documentos, relatórios e registros que precisam ser analisados individualmente. Entre os elementos citados estão:
1. A ponte aérea e as rotas transfronteiriças: Chade e a fronteira do deserto
Aeroporto de Amdjarass, Chade
Relatórios do Painel de Especialistas do Conselho de Segurança da ONU registraram uma série de voos de aeronaves de carga dos Emirados Árabes Unidos com destino ao aeroporto de Amdjarass, no leste do Chade, apresentados oficialmente como operações de ajuda humanitária.
Rotas de abastecimento
Investigações de inteligência mencionadas no material analisado indicam que armas e munições teriam sido transportadas de Amdjarass por caminhões até Darfur — especialmente para a base de Zurug, no Norte de Darfur — e, posteriormente, para outras frentes de combate em Cartum e Gezira.
2. Armamentos e tecnologia militar
Drones e equipamentos avançados
Nos campos de batalha, incluindo a sede da Corporação Nacional de Rádio e Televisão em Omdurman, foram encontrados, segundo as fontes citadas, destroços de drones, mísseis com guiagem térmica e munições guiadas de fabricação chinesa e emiradense que teriam sido fornecidos às Forças de Apoio Rápido.
Veículos blindados
Também foi documentado o uso, pelas Forças de Apoio Rápido, de veículos blindados NIMR Ajban fabricados nos Emirados Árabes Unidos.
3. Evidências documentais e de campo
Passaportes e documentos de identidade
Reportagens baseadas em documentos apresentados ao Conselho de Segurança da ONU relataram a descoberta, entre os destroços de veículos militares em Omdurman, de passaportes emiradenses que, segundo essas fontes, pertenciam a integrantes da inteligência dos Emirados Árabes Unidos.
Evacuação de feridos
Comandantes de alto escalão das Forças de Apoio Rápido feridos nos combates teriam sido evacuados por aeroportos da região para receber tratamento médico em hospitais dos Emirados Árabes Unidos.
4. Redes financeiras e empresas de fachada
Estruturas financeiras em Dubai
Autoridades dos Estados Unidos e da Europa impuseram sanções a uma rede de empresas sediadas em Dubai — incluindo Al Junaid e Al Qatra — acusadas de atuar como estruturas financeiras para movimentar recursos provenientes de minas de ouro controladas pelas Forças de Apoio Rápido, financiar a aquisição de armas e facilitar a contratação de combatentes estrangeiros.
5. A disputa diplomática
Denúncias do Sudão ao Conselho de Segurança da ONU
O governo sudanês apresentou diversas denúncias oficiais ao Conselho de Segurança da ONU, acompanhadas de mapas e coordenadas de voos, nas quais acusa os Emirados Árabes Unidos de violarem a soberania do Sudão e o embargo de armas imposto a Darfur.
De Karari às sanções: a longa sombra da relação entre Sudão e Reino Unido
A relação entre Sudão e Reino Unido carrega uma memória histórica marcada por conflitos, dominação colonial e disputas de poder. Para alguns críticos, a atual política britânica em relação ao país evoca, por outros meios, antigas assimetrias de influência e controle.
Essa interpretação estabelece um paralelo entre o massacre de Karari, símbolo da superioridade militar britânica durante o período colonial, e as recentes sanções britânicas relacionadas ao Sudão. O aniversário daquele episódio histórico — associado a 2 de setembro — passou a coincidir simbolicamente, na visão apresentada neste texto, com a adoção de novas medidas contra indivíduos e entidades sudanesas.
Na história militar moderna, a Batalha de Karari, também conhecida internacionalmente como Batalha de Omdurman, permanece como um exemplo emblemático do poder destrutivo do armamento moderno diante de forças tradicionais em campo aberto.
Travada em 2 de setembro de 1898, ao norte de Omdurman, a batalha colocou frente a frente as forças do Estado Mahdista, lideradas pelo califa Abdallahi ibn Muhammad, e o exército britânico invasor comandado pelo general Herbert Kitchener.
O episódio é lembrado localmente como o “Massacre de Karari” devido à enorme disparidade entre os armamentos utilizados e à devastação resultante. Estima-se que entre 10 mil e 12 mil combatentes sudaneses tenham sido mortos, mais de 13 mil tenham ficado feridos e milhares tenham sido feitos prisioneiros.
O pacto de conveniência entre Londres e Abu Dhabi
Uma série de reportagens da imprensa, relatórios de inteligência e documentos das Nações Unidas foi consultada nesta investigação como base para a análise do papel atribuído ao Reino Unido na oferta de cobertura política aos Emirados Árabes Unidos e de sua possível contribuição indireta para a continuidade do apoio às Forças de Apoio Rápido e do conflito no Sudão.
1. A possível responsabilidade internacional dos Emirados
A análise jurídica da professora Jenny Maddocks, publicada no portal especializado Just Security, examina a possibilidade de responsabilização internacional dos Emirados Árabes Unidos em relação às ações das Forças de Apoio Rápido (RSF) e de grupos associados no conflito sudanês.
Segundo Maddocks, embora as evidências disponíveis publicamente até o momento não sejam suficientes para atribuir diretamente ao governo dos Emirados todos os atos cometidos pela RSF, elas indicam a existência de possíveis fundamentos jurídicos para investigar a responsabilidade do país, especialmente no caso de violações cometidas por contratados colombianos que teriam atuado em apoio às operações da milícia.
A jurista fundamenta sua análise nas normas de responsabilidade internacional dos Estados previstas nos Artigos sobre Responsabilidade dos Estados por Atos Internacionalmente Ilícitos da Comissão de Direito Internacional da ONU, examinando principalmente os artigos 4, 5 e 8, que tratam da atribuição de condutas de atores não estatais a um Estado.
No caso dos contratados colombianos, Maddocks avalia que pode haver uma base jurídica mais consistente para examinar uma eventual responsabilidade dos Emirados, caso seja demonstrado que empresas privadas autorizadas pelo governo emiradense exerceram funções de natureza pública ou militar em nome do Estado.
A análise examina, com base no Artigo 8 dos Artigos sobre Responsabilidade dos Estados da Comissão de Direito Internacional e nos critérios estabelecidos pela Corte Internacional de Justiça nos casos Nicarágua e Bósnia, se a responsabilidade pelas ações das Forças de Apoio Rápido poderia ser atribuída aos Emirados Árabes Unidos.
Segundo o estudo, haveria uma base jurídica mais sólida para investigar a responsabilidade dos Emirados por possíveis violações cometidas por contratados colombianos enviados para combater ao lado das Forças de Apoio Rápido, com base no Artigo 5 das mesmas normas.
O argumento se apoia, entre outros elementos, em cinco documentos de autorização emitidos por autoridades governamentais emiradenses para a empresa Global Security Services Group (GSSG), apontada como responsável pelo recrutamento dos contratados colombianos, além de evidências relacionadas à facilitação de suas viagens e treinamentos.
A análise também discute uma possível responsabilidade dos Emirados Árabes Unidos pelo descumprimento do dever de prevenir o genocídio, previsto no Artigo I da Convenção sobre Genocídio, além de uma eventual violação da proibição do uso da força pelo fornecimento de armas e apoio militar às Forças de Apoio Rápido.
De acordo com o estudo, esses elementos poderiam fornecer uma base para discutir a responsabilização dos Emirados à luz dos precedentes estabelecidos pela Corte Internacional de Justiça no caso Nicarágua contra Estados Unidos, de 27 de junho de 1986, e no Caso do Genocídio — Bósnia e Herzegovina contra Sérvia e Montenegro —, de 26 de fevereiro de 2007.
Maddocks conclui que a invocação da responsabilidade internacional dos Emirados Árabes Unidos seria uma das formas pelas quais o Sudão e outros países poderiam chamar atenção para o papel de Abu Dhabi no conflito e pressionar o país a interromper condutas consideradas prejudiciais.
2. Diplomacia dupla e proteção no Conselho de Segurança
Blindagem dos Emirados Árabes Unidos contra condenações
Como penholder — país responsável por conduzir as negociações e elaborar os projetos de resolução do Conselho de Segurança sobre o Sudão —, a Grã-Bretanha foi acusada de intervir repetidamente para alterar ou dificultar a aprovação de resoluções que poderiam condenar diretamente o suposto envolvimento dos Emirados Árabes Unidos no conflito e o eventual fornecimento de armas às Forças de Apoio Rápido.
Reuniões não divulgadas
Jornais britânicos, incluindo The Guardian, revelaram que diplomatas britânicos realizaram reuniões e conversas não divulgadas publicamente com líderes das Forças de Apoio Rápido.
Críticos dessas iniciativas afirmaram que esses contatos poderiam conferir legitimidade política a uma força acusada de cometer crimes de guerra e representar uma tentativa de contornar a posição internacional de oposição ao grupo.
3. Vendas de armas britânicas e falhas de fiscalização
Equipamentos militares encontrados com as Forças de Apoio Rápido
Relatórios de especialistas da ONU e de organizações como a Campaign Against Arms Trade indicaram que equipamentos militares fabricados no Reino Unido — incluindo motores para veículos blindados, sistemas de mira e equipamentos de treinamento — foram identificados em áreas de conflito onde atuavam as Forças de Apoio Rápido.
Exportações de armas para os Emirados Árabes Unidos
O governo britânico continuou concedendo licenças de exportação de armas no valor de bilhões de libras para Abu Dhabi, enquanto críticos questionavam se os mecanismos de controle adotados eram suficientemente rigorosos para impedir que esses equipamentos e tecnologias chegassem ao Sudão por meio de redes de fornecimento ligadas aos Emirados Árabes Unidos.
4. Interesses econômicos e estratégicos
Prioridade aos interesses econômicos
Análises políticas sugerem que a ampla parceria econômica entre Londres e Abu Dhabi, assim como os investimentos emiradenses em setores estratégicos do Reino Unido, podem ter influenciado a postura do governo britânico na preservação de sua relação com os Emirados, mesmo diante da crise humanitária no Sudão.
Considerados em conjunto, esses elementos levantam questionamentos sobre uma possível convergência entre interesses políticos e econômicos britânicos e a atuação dos Emirados no conflito sudanês. Para críticos dessa postura, a Grã-Bretanha teria acabado ocupando uma posição de parceira indireta no agravamento da guerra e na oferta de cobertura política ao apoio externo destinado às Forças de Apoio Rápido.
Como o MI6 se submeteu a considerações políticas que afetaram um povo inteiro?
E qual é a semelhança entre a atuação do MI6 e a forma como a CIA lidou com informações de inteligência sobre armas no Iraque — uma abordagem que acabou contribuindo para uma guerra que devastou o país?
A decisão de invadir o Iraque em 2003 é hoje considerada um dos maiores fracassos de política externa da história recente dos Estados Unidos.
A invasão foi construída, em grande medida, com base em informações de inteligência que posteriormente se mostraram equivocadas ou imprecisas.
Um dos aspectos mais graves dessa falha foi a falsa alegação sobre a existência de armas de destruição em massa.
O governo do presidente George W. Bush afirmou que o regime de Saddam Hussein possuía armas químicas e biológicas e buscava desenvolver armas nucleares.
No entanto, após a invasão e extensas inspeções, nenhum arsenal desse tipo foi encontrado.
Também houve uma falsa associação com o terrorismo. Washington promoveu a alegação de que existia uma relação entre o regime de Saddam Hussein e a Al-Qaeda, organização responsável pelos ataques de 11 de setembro.
Essa afirmação foi posteriormente contestada, inclusive por relatórios produzidos pelas próprias agências de inteligência dos Estados Unidos.
As falhas não se limitaram às justificativas usadas para iniciar a guerra.
Também houve um grave fracasso no planejamento sobre o que aconteceria após a invasão. Autoridades americanas difundiram a ideia de que as tropas dos Estados Unidos seriam recebidas com “flores”, subestimando o caos que se seguiria à queda do regime, ao colapso das instituições estatais e ao surgimento de grupos armados.
Essa decisão, baseada em informações posteriormente questionadas, resultou em enormes perdas humanas e materiais, desestabilizou a região por muitos anos e causou sérios danos à credibilidade dos Estados Unidos no cenário internacional.
Também houve a politização das informações de inteligência.
O governo dos Estados Unidos se baseou em fontes pouco confiáveis — incluindo o depoimento de alguns membros da oposição iraquiana que viviam no exterior — e selecionou informações de inteligência que favoreciam a opção pela guerra, ignorando dúvidas e alertas levantados por analistas e inspetores internacionais de armas.
É justamente nesse ponto que surge o paralelo entre o episódio da Guerra do Iraque e a decisão britânica de impor sanções a indivíduos e entidades sudanesas.
A atuação britânica no caso do Sudão levanta questionamentos sobre o uso de informações fornecidas por empresas com ligações com os Emirados Árabes Unidos e sobre a possibilidade de que avaliações de inteligência tenham sido influenciadas por fatores políticos.
Empresas privadas, informações contestadas e decisões de grande alcance
O Reino Unido anunciou anteriormente um novo pacote de sanções contra redes de comércio de ouro e financiamento ilícito no Sudão, afirmando que as medidas tinham como objetivo interromper as fontes de financiamento da guerra.
As sanções incluíram empresas ligadas às Forças Armadas Sudanesas. A Grã-Bretanha também impôs medidas contra três empresas estatais de mineração do Sudão — Omdurman Mining Company, Ariab Mining Company e Sudamin Limited — alegando que elas estariam relacionadas ao financiamento do Exército.
As sanções também atingiram Ahmed Abdullah, identificado no texto como Mak Abdullah Khalafallah Abshangar, que, segundo o governo britânico, seria um responsável por aquisições ligado ao Exército sudanês e suspeito de ajudar a obter armas, equipamentos e financiamento para as forças militares.
As medidas também incluíram autoridades ligadas às Forças de Apoio Rápido.
A análise apresentada neste texto questiona a qualidade e a independência de parte das informações utilizadas para fundamentar essas decisões, apontando que elas teriam sido fornecidas por empresas com relações comerciais e institucionais nos Emirados Árabes Unidos.
Kharon
O governo britânico teria utilizado, entre outras fontes, informações produzidas pela Kharon, empresa privada sediada nos Estados Unidos especializada em análise de dados, inteligência de risco e conformidade com sanções internacionais.
A empresa mantém presença no mercado dos Emirados Árabes Unidos e um escritório em Dubai dedicado às operações no Oriente Médio e Norte da África. A unidade é dirigida por William G. Rich, ex-adido financeiro do Tesouro dos Estados Unidos nos Emirados Árabes Unidos e em Omã.
A plataforma também mantém colaboração com a Dubai International Financial Centre Academy, oferecendo análises especializadas e workshops voltados a ajudar instituições financeiras e empresas de Dubai a compreender e evitar riscos relacionados a sanções internacionais e crimes financeiros.
Como plataforma de inteligência de risco utilizada por bancos e instituições internacionais, a Kharon acompanha redes de evasão de sanções, ativos digitais, criptomoedas, cadeias de fornecimento, embarcações e empresas comerciais.
A existência dessas atividades e relações institucionais, por si só, não comprova alinhamento político com o governo emiradense. O questionamento apresentado é se eventuais vínculos regionais ou institucionais poderiam ter influenciado a produção ou a interpretação de informações relacionadas ao Sudão.
Sayari
A Sayari é uma empresa norte-americana especializada em inteligência de risco baseada em inteligência artificial e conformidade comercial, com atuação em áreas como combate à lavagem de dinheiro e monitoramento de cadeias de fornecimento.
A empresa anunciou sua entrada no mercado do Oriente Médio por meio dos Emirados Árabes Unidos e realizou eventos em cooperação com a Embaixada dos Estados Unidos em Abu Dhabi e o Consulado-Geral dos Estados Unidos em Dubai, com participação de autoridades governamentais e instituições financeiras.
A plataforma Sayari Graph oferece acesso a registros corporativos, dados de transporte marítimo e informações alfandegárias em mais de 250 jurisdições. Bancos e autoridades reguladoras utilizam esses dados para rastrear estruturas complexas de propriedade, identificar empresas de fachada, avaliar riscos de conformidade e evitar violações de sanções internacionais.
A empresa também administra operações regionais a partir de Dubai.
Assim como no caso da Kharon, a existência dessas relações comerciais e institucionais não demonstra, por si só, submissão da Sayari ao governo dos Emirados Árabes Unidos. O ponto central levantado é a necessidade de verificar a precisão das informações específicas utilizadas para fundamentar as sanções aplicadas contra Ahmed Abdullah.
O caso Ahmed Abdullah: informações contestadas
As acusações feitas pela Kharon e pela Sayari, que teriam sido utilizadas pelo governo britânico como base para a imposição das sanções, sustentavam que o cidadão sudanês Mak Abdullah Khalafallah Abshangar, identificado pelas autoridades britânicas como Ahmed Abdullah, trabalhava com o Serviço Nacional de Inteligência e Segurança do Sudão (NISS) e teria anteriormente fornecido armas às Forças Armadas Sudanesas.
As acusações também incluíam informações segundo as quais ele teria fornecido veículos de combate e equipamentos avançados ao Exército sudanês.
A Brown Land News, veículo de comunicação independente sudanês dedicado à cobertura de política, guerra, direitos humanos e questões sociais relacionadas ao Sudão, à África e à região, entrevistou Mak Abdullah Abshangar dentro do Sudão enquanto ele participava de uma atividade social na condição de uma das principais lideranças da Administração Nativa do país.
Como o governo britânico sabe, a Administração Nativa é uma parte fundamental do sistema de governança do Sudão. Ela remonta ao período colonial do país, quando a administração britânica apoiou o estabelecimento dessas estruturas como uma forma de ampliar a autoridade governamental sobre o vasto território sudanês.
O encontro ocorreu durante uma cerimônia de casamento coletivo financiada pessoalmente por Mak Abdullah.
Questionado sobre sua relação com os órgãos de segurança sudaneses, ele negou categoricamente ter trabalhado para o serviço de inteligência do Sudão ou para o Sistema de Indústrias de Defesa em qualquer função. Segundo ele, qualquer parte interessada poderia verificar e confirmar essa informação.
Sayari e as informações contestadas
Questionado sobre a Protex Trade, empresa que, segundo a Sayari, teria facilitado o fornecimento de equipamentos militares ao Exército sudanês, Mak Abdullah afirmou que o banco de dados da companhia continha informações falsas ou que a própria empresa teria sido induzida ao erro.
“Eu não era o proprietário da Protex Trade naquela época. Isso contradiz completamente aquilo em que a Sayari se baseou. Eu também nunca fui funcionário ou integrante do Serviço Nacional de Inteligência e Segurança.”
E quanto às antenas?
Abdullah afirmou que realizar atividades comerciais envolvendo produtos de uso dual é uma prática legal e não possui, por si só, relação direta com a guerra atual.
“Os documentos anexos comprovam que as antenas de transmissão foram importadas para o Sudão para um projeto de televisão e comunicação em 2015, por meio de um contrato legal. Então, como eu poderia saber naquela época que elas poderiam ser classificadas como crime em 2026?
“Se elas constituem um crime, como essas antenas foram utilizadas no conflito atual? Que uso elas poderiam ter na guerra do Sudão?
“Repetimos: a Sayari forneceu informações imprecisas que criaram a impressão de que esses equipamentos eram de natureza militar.”
Os simuladores: seguindo o rastro das acusações
Questionado sobre os simuladores mencionados nas acusações, Abdullah respondeu:
“Por favor, revisem os documentos anexos relacionados aos simuladores. Eles não são equipamentos de defesa. São simuladores de direção utilizados para treinar pessoas a dirigir caminhões Ural e veículos Toyota e fazem parte do nosso projeto de autoescola.
“Eles nunca foram utilizados pelas Forças Armadas Sudanesas (SAF) nem pela Diretoria de Inteligência e Segurança (DIS). Eles estavam armazenados na Zona Franca de Qari, próxima a Cartum, como mostram as fotografias e os documentos anexos.
“Essas máquinas nunca foram utilizadas pelo serviço de inteligência, pelas forças armadas ou por qualquer parte envolvida nos combates.
“Elas continuam hoje no armazém. Foram importadas em 2018 — cinco anos antes do início da guerra.”
Kharon e as informações contestadas
Seguindo a mesma linha, a investigação aponta que a Kharon apresentou como evidência equipamentos que descreveu como militares, avançados e de alta eficácia.
No entanto, segundo a apuração da Brown Land, os equipamentos identificados seriam, na verdade, incineradores destinados ao tratamento de resíduos médicos, instalados no Hospital Central de Omdurman e que permaneceriam no local até hoje.
Então, o que esses incineradores têm a ver com a guerra no Sudão?
Segundo a apuração apresentada, nenhuma relação direta teria sido identificada. Caso essa conclusão seja confirmada, o episódio levanta questionamentos sobre a qualidade dos dados utilizados em avaliações de inteligência e na adoção de medidas de sanção.
Um possível escândalo de inteligência
Rifles de caça apresentados como armas militares
A plataforma se baseou em informações segundo as quais Ahmed Abdullah teria fornecido armas ao Exército sudanês.
A investigação contesta essa interpretação e afirma que os armamentos citados eram rifles de caça, importados como parte de um projeto de turismo relacionado às atividades empresariais de Abdullah no Sudão.
Abdullah afirmou:
“Importamos rifles de caça para o Sudão. Que possível relação eles poderiam ter com a guerra sudanesa?”
Uso de informações desatualizadas
A plataforma também anexou um relatório que relacionava Ahmed Abdullah a uma empresa chamada AA Magellan, da qual, segundo documentos obtidos pela Brown Land, ele havia saído em 2016.
Abdullah afirmou que deixou a empresa naquele período.
Caso os documentos apresentados confirmem essa informação, o episódio levanta questionamentos sobre a atualização e a verificação das fontes utilizadas como base para impor sanções contra Ahmed Abdullah.
Quanto à minha irmã
Além do que Abdullah descreve como uma atuação dos Emirados Árabes Unidos contra interesses e conquistas sudanesas, ele afirma que famílias sudanesas sem qualquer relação com o conflito também foram alvo de medidas destinadas a prejudicar suas reputações e pressioná-las a aderir à narrativa promovida pelo governo emiradense.
Entre essas famílias, foram adotadas medidas legais contra a irmã de Ahmed Abdullah, sob a acusação de que ela teria ocultado ativos pertencentes a ele nos Emirados Árabes Unidos.
Abdullah afirmou:
“Apresentamos um pedido ao departamento jurídico do Dubai Multi Commodities Centre (DMCC) e aos tribunais dos Emirados Árabes Unidos informando nosso desejo de substituir meu nome como representante oficial da empresa, porque sanções haviam sido impostas contra mim.
“A substituição foi solicitada exclusivamente para permitir que os trabalhadores recebessem seus pagamentos e fossem liberados de seus vínculos com a empresa, já que a empresa havia sido bloqueada. A carta está anexada.
“Isso significa que nem eu nem minha irmã tivemos qualquer intenção de ocultar ou esconder meus ativos.”
Como as sanções transformaram Ahmed Abdullah em símbolo para parte da comunidade Ja’ali
O nazir, líder tradicional do grupo Ja’ali, disse à Brown Land que Abdullah é uma liderança e uma figura ativa dentro da comunidade, cuja população é estimada entre 2,5 milhões e 4 milhões de pessoas.
Segundo o líder tribal, Abdullah lançou uma iniciativa de apoio à comunidade local em 2024. Seus esforços incluíram a construção de escolas, o apoio a projetos de abastecimento de água e atividades voltadas aos jovens, além da organização de um casamento coletivo para 170 jovens.
Ele também apoiou mais de 12 khalwas — escolas tradicionais de ensino do Alcorão — e forneceu equipamentos e materiais para oito clubes juvenis, além de apoiar mais de cinco hospitais locais.
A acusação de alinhamento com o governo dos Emirados Árabes Unidos
Ainda não está claro por que a Grã-Bretanha impôs sanções contra Ahmed Abdullah um ano e oito meses após as medidas adotadas pelos Estados Unidos, especialmente em um momento em que, segundo Abdullah e a apuração apresentada, ele já não exercia atividades comerciais e estava concentrado em apoiar pessoas afetadas pela guerra em sua região.
A Brown Land argumenta que uma possível explicação estaria relacionada a um alinhamento da política britânica com os interesses do governo dos Emirados Árabes Unidos. Essa hipótese, contudo, representa uma interpretação da investigação e não uma conclusão comprovada de forma independente.
Segundo essa interpretação, as medidas fariam parte de uma estratégia mais ampla de enfraquecimento do Sudão por meio da pressão sobre indivíduos inseridos em comunidades locais, contribuindo para a fragmentação do tecido social sudanês.
Mohamed Saad Kamel, editor-chefe da Brown Land News (BLN), veículo de comunicação independente sudanês, fundado em 2019, dedicado à cobertura de política, guerra, direitos humanos e questões sociais relacionadas ao Sudão, à África e à região mais ampla.
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