18 de agosto de 2026

Cuba após seis meses de bloqueio petrolífero: a crise e o caminho para a recuperação, por Vijay Prashad

A tarefa imediata é evitar um desastre humanitário. A tarefa mais ampla consiste em substituir a coerção pela cooperação soberana
Havana - Cuba - Reprodução

EUA impuseram bloqueio petrolífero a Cuba há seis meses, causando apagões, falta de transporte e crise em hospitais.
Medidas americanas visam pressionar fornecedores de petróleo a Cuba, afetando economia e abastecimento energético da ilha.
Proposta inclui corredor humanitário para combustível, negociações e investimento em energia renovável para recuperação.

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Cuba após seis meses de bloqueio petrolífero: a crise e o caminho para a recuperação

por Vijay Prashad

Há mais de seis décadas, os Estados Unidos tentam fazer com que o povo cubano pague por sua decisão de seguir um caminho independente e socialista. A última fase dessa guerra econômica mirou na artéria mais vulnerável da ilha: seu abastecimento energético. Seis meses depois que Washington intensificou a pressão sobre os países e as empresas que fornecem petróleo a Cuba, a política não trouxe “democracia” nem melhorou a vida dos cubanos comuns. Ela resultou em casas mais escuras, ônibus paralisados, interrupções em hospitais e maior dificuldade para transportar alimentos do campo para as cidades.

A tarefa imediata é evitar um desastre humanitário. A tarefa mais ampla consiste em substituir a coerção pela cooperação soberana e ajudar Cuba a construir um sistema energético que não possa mais ser estrangulado por uma potência estrangeira.

Seis meses de uma crise cada vez mais profunda

Em 29 de janeiro de 2026, o presidente dos EUA, Donald Trump, emitiu uma ordem executiva que estabelecia um mecanismo para impor tarifas adicionais aos produtos procedentes de qualquer país que fornecesse petróleo a Cuba, direta ou indiretamente. Washington apresentou a medida como uma defesa da segurança nacional dos EUA. Seu objetivo prático era claro: forçar outros países a escolher entre uma pequena nação caribenha em dificuldades econômicas e o acesso ao enorme mercado estadunidense.

As medidas tarifárias autorizadas por essa e outras ordens de emergência expiraram em 20 de fevereiro. No entanto, a emergência declarada continuou em vigor, assim como o sistema mais amplo de sanções, as ameaças contra os fornecedores e a incerteza em torno dos navios com destino a Cuba. O resultado foi descrito como um bloqueio petrolífero efetivo: não necessariamente uma linha permanente de navios de guerra norte-americanos, mas um sistema de pressão indireta capaz de dissuadir governos, bancos, seguradoras, empresas de navegação e comerciantes de realizar comércio legítimo com Cuba. O golpe recaiu sobre uma economia que já se encontrava sob pressão extrema. Cuba dependia há muito tempo do petróleo importado, particularmente da Venezuela, enquanto produzia apenas uma fração de suas necessidades. Os embarques venezuelanos diminuíram após o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela em 3 de janeiro de 2026; os suprimentos mexicanos foram submetidos à pressão norte-americana, e Cuba carecia das divisas necessárias para adquirir combustível suficiente em outros lugares. As usinas termoelétricas obsoletas, a manutenção atrasada, os furacões, a inflação e a perda de receitas do turismo agravaram os danos.

A escassez de combustível se estendeu a todas as esferas da vida social. Falhas técnicas na frágil rede elétrica provocaram repetidos apagões em toda a ilha. Os cortes de energia paralisaram as bombas de água, enquanto os refrigeradores deixaram de funcionar, estragando os escassos alimentos e medicamentos. As famílias foram obrigadas a cozinhar, estudar e dormir sob calor extremo, sem um fornecimento estável de energia elétrica.

O transporte também ficou paralisado. Havia menos ônibus públicos circulando, os postos de combustível fecharam ou racionaram o abastecimento, e os trabalhadores enfrentaram mais dificuldades para chegar aos seus locais de trabalho. Quando não há diesel disponível, não é fácil colher as safras, e os alimentos não podem ser transportados dos produtores rurais até os consumidores urbanos. A coleta de lixo e o saneamento estão se deteriorando. As ambulâncias, os hospitais e as clínicas precisam racionar o combustível dos geradores, mesmo enquanto cresce a escassez de medicamentos e suprimentos básicos. Voos foram cancelados ou redirecionados porque os aeroportos cubanos não podiam garantir o combustível de aviação, o que prejudicou ainda mais o turismo – uma das principais fontes de divisas do país.

O fardo é desigual. As famílias com dólares às vezes conseguem obter alimentos, transporte, baterias ou equipamentos solares; os trabalhadores e aposentados que dependem do peso cubano têm muito menos opções. As mulheres assumem grande parte do trabalho adicional não remunerado de conseguir alimentos e água, bem como o de cuidar de seus familiares. As comunidades rurais, as pessoas com deficiência e os pacientes que necessitam de medicamentos refrigerados enfrentam riscos específicos. As principais vítimas da política dos Estados Unidos são todo o povo cubano.

Uma saída baseada na paz, na soberania e na reconstrução

A saída deve começar com um acordo humanitário imediato na área de energia. Cuba precisa de entregas previsíveis, não de carregamentos ocasionais que dependam de autorizações políticas. As Nações Unidas, juntamente com os governos da América Latina e do Caribe dispostos a colaborar, deveriam estabelecer um corredor de combustível monitorado. Os envios poderiam ser destinados à geração de energia, hospitais, água e saneamento, produção de alimentos, transporte público e preparação para desastres.

Uma isenção não faz sentido se os bancos não processarem os pagamentos, as seguradoras não garantirem os navios e as empresas de navegação temerem ser sancionadas. Os governos participantes devem fornecer garantias de pagamento, seguros e proteção jurídica aos fornecedores humanitários. Os Estados Unidos devem emitir licenças gerais e duradouras, em vez de isenções ocasionais.

Em segundo lugar, a ajuda de emergência deve abrir caminho para uma redução gradual das tensões por meio de negociações. Washington e Havana devem iniciar conversações estruturadas, com o apoio, quando for pertinente, da CARICOM, da CELAC, do México e de outros intermediários de confiança. O princípio deve ser a reciprocidade sem coerção. Os Estados Unidos deveriam suspender as medidas que penalizam o comércio com outros países e estabelecer um cronograma confiável para o levantamento das sanções. A negociação não pode significar exigir uma mudança de regime como o preço a pagar para permitir que uma população satisfaça suas necessidades básicas. Tampouco as necessidades humanitárias devem ficar reféns de cada disputa não resolvida entre os dois governos.

Em terceiro lugar, Cuba já começou a diversificar seus fornecedores e seu sistema energético. Contratos com diversos produtores, compras conjuntas com parceiros caribenhos e reservas regionais de armazenamento poderiam reduzir os custos e amenizar interrupções repentinas. A cooperação técnica poderia ajudar a estabilizar os equipamentos e geradores antigos enquanto se constrói uma nova capacidade energética. A médio prazo, a solução mais duradoura reside na energia renovável e descentralizada. Cuba conta com luz solar abundante e um potencial significativo para energia solar, biomassa e geração eólica cuidadosamente localizada. Assim, sistemas solares instalados nos telhados de clínicas, escolas, fazendas e edifícios residenciais, juntamente com baterias, reduziriam a demanda sobre a rede elétrica nacional. As micro redes comunitárias poderiam manter em funcionamento as bombas de água, a refrigeração e as comunicações quando uma usina importante falhar. O subproduto da indústria açucareira e os resíduos agrícolas podem contribuir para a geração de energia se os projetos forem gerenciados de forma sustentável. E para isso, as energias renováveis não devem tornar-se um slogan que ignore as limitações materiais: os projetos precisam de financiamento, peças de reposição, técnicos capacitados, baterias e sistemas de reciclagem.

Para os países do Sul Global, a difícil situação de Cuba não é uma disputa bilateral distante. As sanções secundárias e as ameaças tarifárias estabelecem o perigoso princípio de que um Estado poderoso pode ditar quais são os parceiros comerciais legítimos de qualquer outra nação. Defender o direito de Cuba de adquirir energia faz, portanto, parte da defesa de uma ordem internacional democrática. O Sul Global deve se opor à coação extraterritorial, apoiar os suprimentos humanitários e a cooperação em matéria de energia renovável, e colaborar com outros Estados para proteger o comércio legítimo das sanções unilaterais.

O povo cubano sobreviveu a seis décadas de pressão graças à organização social, à solidariedade internacional e a uma resistência extraordinária. No entanto, essa resistência não deve ser idealizada. Nenhum povo deveria ser obrigado a viver indefinidamente sem eletricidade, transporte, alimentos ou medicamentos confiáveis para demonstrar seu compromisso com a soberania. A saída justa não é nem a capitulação nem o isolamento. É o fim do castigo coletivo e a cooperação internacional baseada na igualdade. Esse caminho pode devolver a luz a Cuba, ao mesmo tempo em que preserva seu direito de determinar seu próprio futuro.

(*) Tradução de Millena Moreno M.

Vijay Prashad é um historiador e jornalista indiano. É autor de quarenta livros, entre os quais se incluem Balas de Washington, Uma Estrela Vermelha sobre o Terceiro Mundo, As Nações Obscuras: uma história do Terceiro Mundo; As Nações Pobres: uma possível história do Sul Global e How the International Monetary Fund Suffocates Africa, escrito em coautoria com Grieve Chelwa. É diretor executivo do Tricontinental: Instituto de Pesquisa Social, correspondente-chefe da Globetrotter e editor-chefe da LeftWord Books (Nova Délhi). Também participou dos filmes Shadow World (2016) e Two Meetings (2017).

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