Finados virtual em tempos de pandemia, por Dora Incontri

Parece que há um amortecimento generalizado em relação à morte de quase 160 mil brasileiros em alguns meses.

Graveyard in sunset with warm light and feeling and shadows falling from trees and headstones

Finados virtual em tempos de pandemia, por Dora Incontri

A sacralidade da morte, os rituais que envolvem a homenagem ao morto – coisas ancestrais da humanidade, que vêm desde a pré-história, foram abalados com essa pandemia. Relatos trágicos de corpos ensacados, de caixões lacrados, a ponto da família não poder ter certeza de que o morto é ele mesmo que está ali, velórios de minutos, valas coletivas… tudo isso complica o luto dos que estão perdendo parentes e amigos nessa pandemia do Covid-19, que já matou mais de um milhão de pessoas no mundo.

Mas essa não é a única situação histórica em que assistimos a algo assim. Houve, por exemplo, a peste negra na Europa no século XIV, que se estima ter matado entre 70 a 200 milhões de seres humanos; a gripe espanhola, mais perto de nós, em 1918, que parece ter matado pelo menos 50 milhões.

E ainda pensemos nas guerras, nas invasões, nos genocídios, como os do holocausto judeu, promovido pelos nazistas, como o morticínio praticado contra indígenas e africanos, em 500 anos de projeto de invasão, colonização e escravidão. Em todos esses casos, a sacralidade da morte é ferida, seja porque ela é provocada em massa pela insanidade dos homens, seja porque as circunstâncias trágicas impedem que os corpos sejam velados, que as homenagens sejam devidamente prestadas.

Tudo isso nos mostra que a senhora morte – que é algo que assombra a existência humana e que deveríamos trabalhar com o tema pedagogicamente desde a escola, para encararmos de frente a nossa finitude – às vezes assume formas bem cruéis de extermínio de pessoas. Todos os dias, tem gente morrendo. Faz parte do ciclo natural da vida. Mas toda morte em massa causa maior impacto, comoção mais profunda.

Ou não? Essa é a questão que nos aflige hoje no Brasil. Parece que há um amortecimento generalizado em relação à morte de quase 160 mil brasileiros em alguns meses. Assim como há uma indiferença enraizada das mortes de jovens negros nas favelas, como há uma histórica normalização do genocídio indígena, que vem sendo praticado desde a chegada dos portugueses nessas terras. Será que criamos uma espécie de mecanismo de defesa psíquica para não pensarmos e não nos doermos por tanta gente que está morrendo e que não precisaria morrer prematuramente, se houvesse mais justiça, mais fraternidade, mais cuidado, mais respeito ao direito à vida?

Justamente a morte nos coloca em pé de igualdade diante de todos: ela é democrática, ela causa a dor da perda na favela ou na mansão, no Brasil ou na China. Por que ela não nos ensina a empatia, o empenho em salvar as vidas que podem ser salvas, em respeitar todas as vidas, sem discriminação de ninguém?

Durante esse ano de 2020, vimos a campanha internacional do #vidasnegrasimportam… Deveríamos diariamente dizer e lutar por isso: vidas pretas importam, vidas indígenas importam, vidas de refugiados importam, vidas de favelados importam, vidas de gays e trans importam, vidas de homens, mulheres e crianças importam, vidas de todos os continentes e de todas as religiões, vidas de todas as formas (e eu incluo a dos animais e da mãe natureza) importam sim!

Para mim, que sou espírita, a vida continua sempre, triunfante depois da morte. Mas enquanto estamos neste mundo, temos de cuidar dela com devoção e respeito, porque ela nos é dada para sermos todos parte de um só sistema de comunhão humana, natural, divina.

Nesse finados virtual, em época de pandemia, pelo menos pensemos nisso e sintamos essas coisas todas, humanizando nossos corações e, ao lembrarmos da morte,  e homenagearmos nossos mortos com a alma, louvemos a vida!

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