Guerra Híbrida: caos provocado e expropriação de riquezas, por Roberto Bueno

No Brasil há uma guerra híbrida em curso, e ela vem em substituição à guerra convencional cujos objetivos também eram de corte geopolítico casados com interesses econômicos.

Guerra Híbrida: caos provocado e expropriação de riquezas

por Roberto Bueno

Poucos sabiam o que era uma guerra híbrida quando ela começou a ser preparada contra o Brasil ainda em meados da década passada. A tradição pacifista brasileira talvez tenha levado ao descuido, mas o fato é que as Forças Armadas brasileiras tinham o tema no seu radar, daí o questionamento dos motivos que as levaram a descuidar da proteção do país em face desta ameaça. Este texto se propõe uma tarefa substancialmente menor, a de esclarecer os termos em que as Forças Armadas analisaram a guerra híbrida.

No Brasil há uma guerra híbrida em curso, e ela vem em substituição à guerra convencional cujos objetivos também eram de corte geopolítico casados com interesses econômicos. É fato que a guerra mudou, os seus padrões e estratégias. Esta substituição ocorreu sem o desprezo completo pelas armas convencionais, mas priorizando a atenção, pesquisa e aplicação de recursos digitais flexíveis e adaptáveis às circunstâncias de combate, mas também ao campo econômico com fins de expropriação de riquezas dos territórios-alvo do ataque.

Malgrado a pulsação e o sentimento compartilhado pela maioria das pessoas, nada há de realmente estranho ou exótico ocorrendo no Brasil da era pós-golpe de 2016: aqui tudo é método, tudo são fases, tudo é estratégia pura, pensada e bem calculada, isto sim, sob o signo do elogio à estultice cuja finalidade não é outra que criar um denso véu, névoa eficiente para que possam ser cumpridos os reais interesses da oligarquia no controle. O que causa estranheza são as estratégias desconhecidas pela grande maioria da população mas que compõe as fases e os métodos de uma guerra híbrida. O que está em curso no Brasil é uma guerra híbrida e cuja força e estratégia direta está voltada a exercer impacto negativo e caótico sobre a vida de cada um dos cidadãos e da sociedade inteira.

O motivo para que o Brasil se tornasse alvo de uma guerra híbrida coordenada pelos EUA tem um objeto central, a saber, o petróleo, mas também outros grandes alvos auxiliares, como os demais minérios valiosos e outras grandes áreas econômicas e de tecnologia que são apropriáveis por estas forças. O Brasil tornou-se definitivamente o alvo eleito para uma guerra híbrida quando a conjunção dos astros definiu que o pré-sal fosse descoberto na administração de um partido com interesses prioritariamente nacionalistas, preocupados em aplicar estes recursos segundo os critérios de políticas econômicas desenvolvimentistas em um cenário internacional de decadência norte-americana em face da emersão do dragão chinês que pavimenta a sua consolidação através da Rota da Seda.

O Governo Lula criou um marco exploratório do pré-sal que favoreceu os interesses do povo e do crescimento econômico do Brasil conectado em matéria de política externa a iniciativas multilateralistas e ao investimento nos BRICs, cujas primeiras baixas provocadas pela potência imperial foram os presidentes Jacob Zuma e Dilma Rousseff. Em nenhum caso a política externa, e a condução interna do Brasil, foi pautada pelos mais estritos interesses dos EUA que enfrentam uma crise energética agravada pelo imparável crescimento da China que coloca o domínio norte-americano em perspectiva, com duração máxima de poucos anos, e já não se trata de declínio hegemônico no hemisfério Sul, mas do ocaso de sua posição de domínio mundial. Washington não pretende ceder facilmente a derrota e a perda de sua posição, e mesmo que fatalmente isto venha a ocorrer, empregará todas as suas forças para retardar ao máximo este fato. E uma das estratégias para isto é apropriar-se do controle das riquezas brasileiras e latino-americanas em geral, como bem podemos observar no caso venezuelano, exceto para aqueles que todavia acreditam que os EUA estão extremamente preocupados com a pobreza neste país, mas em nenhum caso com os pobres de outros milhares de países mundo afora que não tem uma gota de petróleo. Talvez sobrevivam alguns que admitam que se trata de mera coincidência. A articulação neste tempo histórico da pressão sofrida pelo império em seu processo de substituição de sua posição de supremacia planetária conduz as suas forças à buscar recursos que posterguem a sua já inevitável decadência e queda. É este o contexto que levou Washington a eleger o Brasil como alvo de guerra híbrida.

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Para melhor esclarecimento do que deve compreender-se como guerra híbrida sugerimos aqui, sem a pretensão de esquadrinhar por completo o seu conteúdo, resumindo-a de forma muito sintética:  desestabilizar Estados insuflando conflitos domésticos;  derivação disto, colocar no horizonte a divisão radical entre os atores políticos, as autoridades e a população;  arruinar a economia, estrategicamente intervindo sobre os seus pontos sensíveis e de maior produtividade;  interferir e destruir a infraestrutura o quão possível resulte;  concretizar o colapsamento do Estado;  corromper instituições e atores políticos e autoridades centrais;   penetrar no território ou região-alvo de interesse sem forças militares uniformizadas, apresentando-se como “ator-salvador”;  tarefa conexa a anterior, realizar a substituição da(s) liderança(s) local(is) por seus próprios agentes e/ou simpatizantes revelados como absolutamente controláveis e fiéis; 9º  controlar fortemente a mídia central, única capaz de reconfigurar o campo semântico e a opinião pública do território-alvo, o que é feito através de intensíssimos esforços por alterar profundamente o mundo.

O recurso midiático articula a pauta do absurdo como instrumento de causação direta da confusão e imposição do caos, da nebulosidade indispensável para a concretização do projeto de expropriação de riquezas sem que tal projeto mobilize massivamente a reação da sociedade. Para esta iniciativa colaboram fortemente as iniciativas de desorientação típicas de guerras psicológicas úteis para o condicionamento político de base para a consolidação do novo projeto de poder emergente da guerra híbrida. Este conjunto de estratégias desenhadas logo acima é bastante descritivo do cenário de guerra híbrida, muito embora não seja exaustivo e nem tenha a pretensão de explicitar quais são os seus atores centrais usualmente mobilizados para efetivá-los.

A estratégia da guerra híbrida, portanto, pressupõe a divisão interna, e para potencializá-la, torna-se eixo de suas ações a maximização dos conflitos identitários, a provocação dos atores internos à condição de inimizade, para além de mera condição adversarial típica da política em sociedades democráticas. A estratégia da guerra híbrida precisa necessariamente dedicar-se com intensidade a explorar as diferenças de toda sorte que possam mediar a sociedade de um Estado, tais como aquelas de ordem étnica, geográfica, histórica, religiosa, mas também socioeconômicas, opondo estas diferenças a níveis máximos, criando as mais profundas brechas e antagonismos e ali onde resulte possível, criando assim a condição de inimizade radical, capaz inclusive de levar, através de diversas estratégias, ao extermínio. Nesta condição as políticas públicas de “segurança” são importantes como se se tratasse realmente de oferecê-la aos cidadãos, quando não passa de uma estratégia sobreposta de aplicar ainda mais profundamente a receita da violência, da qual apenas resulta a potencialização da própria violência que alegadamente se pretende evitar, e que é o verdadeiro objetivo do projeto que segue aparelhado de sua teoria econômica neoliberal.

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Estas estratégias vêm demonstrando sucessivamente a sua eficiência em desestabilizar, controlar e/ou influenciar os poderes políticos dos territórios-alvo dos quais se pretende expropriar as riquezas, seja por intermédio de um mero enfraquecimento do regime a ponto de que a sua debilidade o coloque em condição de impossibilidade de reagir ou bem por intermédio de uma alteração profunda já não do governo, mas do próprio regime político e jurídico, substituindo posições de manutenção e consolidação da soberania e do nacionalismo desenvolvimentista por posições neocoloniais de franca subserviência, sendo este último precisamente o caso brasileiro. Estas iniciativas abrem as portas para a instauração de formas mais intensas de conflitividade, tais como revoluções e guerras civis, a níveis crescentes capazes de demover as autoridades internas de sua posição de proteger a soberania política e as riquezas nacionais, que poderiam colocar até mesmo os militares em posição de optar por um cenário de contenção de danos em face da alternativa da entrega de riquezas ou enfrentamento militar.

A estratégia de divisão interna no Brasil foi potencializada expressamente através das conhecidas jornadas de 2013, em que pese este não tenha sido o momento fundador do esforço de desestabilização nacional, mas simplesmente o momento de aplicação das forças já constituídas desde aproximados seis anos antes em grupos devidamente alimentados por capital externo. As grandes manifestações de massa precisariam em seu adequado momento convergir com estas forças constituídas em associação com o importante impulso da grande mídia e sua capacidade de ressignificar campos semânticos e destruir reputações ao passo em que voltada a destruir outras, especialmente a das lideranças populares, prévio momento de criminalização sob apoio da seduzida, e convertida, opinião pública.

A desarticulação dos atores centrais do poder cuja ideologia contraponha aos interesses imperiais é algo que foi claramente realizado no Brasil através de etapas, como se fosse a abordagem das camadas de uma cebola, que a mídia operou pavimentando o caminho através da persuasão da opinião pública da legitimidade, e legalidade, da criminalização e final condenação judicial dos políticos nacionalistas e comprometidos com a soberania nacional. A centralidade do ataque realizado ao Partido dos Trabalhadores (PT) – não por acaso o único partido orgânico e com alta capilaridade social e popular no Brasil – é representativo desta estratégia de destruição do poder civil e da representação política popular com o intuito de promover a acefalia política e, logo, ocupar tal espaço com forças autoritárias de pendor neofascista. Parte importante desta estratégia da guerra híbrida aplicada no Brasil foi a espionagem à Petrobrás – atividade extendida às autoridades políticas, econômicas e judiciais – com fins estritamente econômicos e geopolíticos, que exemplifica o objetivo de arruinar a economia ao intervir sobre os seus agentes centrais em um determinado território-alvo.

A modelagem da guerra híbrida aplicada no Brasil tem sua cúpula interna executiva na chamada Operação Lava Jato, cujas operações se deram à parte do marco legal e dos organismos e estruturas estatais hierarquicamente competentes para manter contato com outros Estados, desrespeitando as competências constitucionais e os dispositivos democráticos pertinentes. Esta operação foi realizada com apoio externo no sistema da NSA (agência norte-americana de inteligência), cujos esforços de espionagem ocorrem reconhecidamente em escala global através da mobilização de alta tecnologia e recursos, os quais já foram tornados públicos há muito tempo, embora não devidamente analisados pela grande mídia para esclarecimento popular, opção claramente compreensível em face dos interesses aos quais prioritariamente serve.

O cenário de guerra híbrida não é apenas compatível com a instalação do caos como o requer para o seu êxito. Trata-se da implementação da confusão como método político que todavia permanece no pantanoso território da incompreensão da massa dos indivíduos como por parte expressiva dos representantes políticos. O método pretende inviabilizar a percepção do real projeto em implementação através de múltiplas e radicais ações diversionistas, através da inversão das expectativas causando espanto e perplexidades continuadas. A criação do clímax é a instauração do perfeito caos sob a nuvem de pó abrangente de toda a sociedade, mas controlada perfeitamente desde fora pelos que implementam e coordenam as forças que aplicam as estratégias da guerra híbrida. A gravidade destas medidas não pode ser tergiversada em face de seu ataque decidido contra as instituições constitutivas da soberania e da democracia popular.

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É extremamente importante para o êxito da guerra híbrida a realização de reconfiguração do campo semântico e conceitual em cujos termos a sociedade se compreende a si mesma. Um dos tantos exemplos disto é o vocábulo “terrorismo”. Originariamente o conceito de terrorismo é apresentado como se se tratasse de uma ação inspirada pela marginalidade e o banditismo em sua versão mais pura e cruel. Malgrado encontre nichos que assim possam ser definidos, por outro lado, a sua expansão interessada a outras ações e atores comprometem legítimos territórios do político e os deslocam para o campo da ilegalidade onde os esforços criminalizadores do poderio articulados da guerra híbrida poderá aplicar o direito penal do inimigo.

A nova gramática do poder estruturada pelos articuladores da guerra híbrida precisa recompor o campo semântico da política de sorte a que as reações ao processo expropriatório de riquezas levados a termo sob um renovado e opressivo marco legal possam ser alvo de persecução criminal. As reações sociais que mobilizem legitimamente o uso da violência como forma de garantir tanto os poderes constituídos legítima e democraticamente pelas urnas para implementar políticas de corte nacional-desenvolvimentistas assim como, e decisivo, a própria sobrevivência, é iniciativa que precisará ser contida a qualquer custo, sendo esta a chave do êxito do novo regime.

Este poderio avassalador do império opera com pretensões de domínio que o aproximam às práticas das piores versões históricas das ditaduras, mas desta feita com sofisticações tecnológicas com potencial para ampliar as perdas humanas que é capaz de gerar, posição-alvo ocupada por todos os que resistam às estratégias da guerra híbrida de expropriação das riquezas de seus países. Os organizadores imperiais da guerra híbrida não hesitarão em aplicar todos os recursos para conter a articulação de resistência em todas as esferas possíveis, populares, institucionais e estatais. É apenas sob este cenário que podemos realmente entender a posição ocupada pelos representantes populares no Brasil e quais as ações que devem empreender no sentido de superar a atual derrota da soberania e do projeto democrático brasileiro.

Prof. Dr. Roberto Bueno. Professor universitário.

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6 comentários

  1. Houve um tempo em que os bancos levavam a desgraça às pessoas e suas familias……

    Hoje levam a desgraça para países e povos inteiros……..resta saber como será o basta…

  2. Explanação muito clara sobre o que temos vivido faz uns 100 anos, que serve de base para questões que expliquem porque temos fracassado na instituição de uma sociedade nacional boa a nós mesmos e respeitada por outras instituições nacionais.

    E ofereço, como mero palpiteiro, as seguintes considerações:

    Não se trata exatamente de uma guerra. O que vem acontecendo contra nós são ataques unilaterais. Híbridos, sim, mas ataques. Não provocamos e menos ainda atentamos contra os EUA. Seus ataques contra nós têm o mesmo fundamento de qualquer ladrão, pirata ou horda bárbara: “quero e terei o que você tem, queira você me ceder ou não.”

    Quanto a “o que você tem”, além dos recursos minerais, os EUA nos atacam para tomar nosso território, por questão de geo-política. Mesmo que não tivéssemos petróleo, os EUA nos atacariam para ter poder sobre a administração de nossa localização geográfica.

    Além disso há interesses puramente ideológicos. Quanto mais nosso pais tem adotado medidas de redução dos danos que o capitalismo inevitavelmente causa, a saber: desigualdade de oportunidades, pobreza estrutural e em todos os sentidos – de independência, evolução e realização de potencial pessoal, econômica, científica, cultural e até espiritual -, mais intensamente os EUA nos têm atacado e trabalhado pelo nosso insucesso. Segundo os dogmas dos EUA, nenhuma sociedade que adote redes de proteção a vulneráveis socias deve prosperar para que não sirva de exemplo. Os constantes ataques a Cuba – um país que praticamente só tem recursos humanos – são exemplo da motivação ideológica capitalista. Por isso investe tantos recursos, aquele país, no doutrinação capitalista. O resultado todos conhecemos: um bando de robôs consumindo avidamente, zumbis agredindo-se e sabotando-se mutuamente (sob o pretexto da competição) e repetindo o mantra babado de que qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, que se use para subjugar o outro seja nomeado por “meritocracia”.

    Uma pena esse retrocesso nessa altura do campeonato. Poderíamos – e podemos, de fato – muito mais.

  3. Muito bom!
    Pequeno reparo:
    A presidentA não foi uma “baixa”.
    A vítima foi o Povo Brasileiro.
    A presidentA foi cúmplice!
    Verdade totalmente inconveniente: A gravação da conversa com o Lula (“Bessias”) foi feita no gabinete delA (vide gravação, que se inicia antes do telefonema, registrando conversas dentro do gabinete!).

    • Concordo. A ridicula insistência de Dilma em fazer de conta que a Política não existe manteve nela a honestidade – ao preço de destruir nossa democracia e economia. Desastre ambulante é eufemismo para definir o que ela representou, e ainda saí por aí até hoje distribuindo “alertas”. Ora, vá pra PQP!

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