Sobre os sonhos privados e os pesadelos públicos


    Esta noite tive um sonho que gostaria de compartilhar com os leitores.

    “Vou a padaria comprar um pão. Quando chego lá noto que os pães vendidos são imensos. Alguns deles são maiores do que eu.

    Escolho um filão de um metro de comprimento por trinta centímetros de largura.

    – Corte em dois e coloque no mesmo saco.

    – Pois não!

    Vou até o caixa pagar o pão. Noto, com a visão lateral, que o padeiro o cortou em dois pedaços de tamanhos diferentes. Quando retorno, ele me entrega um saco contendo dois pedaços iguais de pão. Esse malandro está querendo me enganar, penso. Tudo bem, ainda estou levando mais do que o necessário para casa.

    Saio da padaria todo desajeitado carregando um saco imenso. Alguns metros depois noto que o pão está encolhendo. Volto à padaria para reclamar.

    – Pois não!

    – Eu comprei um pão de um metro por trinta centímetros de largura. O padeiro tirou um naco dele antes de me entregar o saco. Há alguns metros daqui o pão encolheu.

    Abro e mostro o conteúdo ao dono da padaria. Noto que o filão tem o tamanho usual e foi cortado em dois pedaços desiguais.

    – Tem certeza de que não foi você que cresceu? Quando o vi pela última vez o senhor era pequenino como uma criança. Vejo-o agora como um homem adulto.”

    No mundo dos sonhos, conceitos como tempo e espaço são irrelevantes. Lá, os nossos sentidos nunca funcionam como quando estamos despertos.

    Entretanto, e isso tem sido objeto de cogitação filosófica há mais de dois mil anos, sabemos que nossos sentidos podem ser enganados. Estados emocionais distintos produzem memórias diferentes em pessoas que partilharam um mesmo evento. A memória não é muito confiável: nós esquecemos algumas coisas, outras vão ganhando versões novas à medida que os fragmentos de memória se embaralham e/ou são modificados pelo ego.

    A perspectiva que temos do mundo se altera à medida que vamos crescendo. O envelhecimento afeta de maneira negativa nossos sentidos. Algumas doenças podem afetar e até mesmo destruir nossa memória.

    A realidade é um sonho? O sonho pode ser real? A realidade pode ser um sonho para muitos mesmo quando é considerada um pesadelo por alguns (foi isso o que ocorreu nos governos Lula e Dilma). Ela também pode se transformar num pesadelo para quase todos e um sonho para muito poucos (é isso que está ocorrendo no desgoverno Bolsonaro).

    No caso do mito, porém, ninguém pode dizer que o pão encolheu ou que os eleitores dele cresceram. Bolsonaro é um pão estragado desde que saiu do Exército para entrar na política.

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