O silêncio que fala, ainda mais

    O obscuro. O vazio. Ora um. Ora o outro. Ora ambos.
    Desaparecidos de repente. Volvidos de repente. Sem mudar
    Samuel Beckett 

    Talvez seja hora de silenciar, ainda mais. Costurar e descosturar a forma do silêncio. Como a tela de Anita Malfatti as mulheres costurando, ainda mais. Escrever com e pelo silêncio, ainda mais. O silêncio meditativo o silêncio leitor, ainda mais. Falar vou abrir espaço no outro, ainda mais. Esquecer o outro lembrar a linguagem. Ainda mais. Falar em outro lugar em outra cidade. Atuar com outra roupagem nos olhos, ainda mais, bem fundo. Silenciar para poder respirar e não escutar, escutar apenas o enlace que faz viver, ainda mais. Sentar-se em outra cadeira, uma cadeira menos confortável, em outra casa que não é a sua. Não falar mais sobre a cadeira de Carlos Scliar apenas lembrar a cadeira pintada no fundo azul. Lembrar e esquecer a cadeira, ainda mais. Escrever em uma mesa enorme e um pouco desconhecida, a postura correta, ainda mais. Rever os livros encontrados os livros que ficaram em outra cidade. Uma nova cidade. E de novo o silêncio em nova manhã, como ontem, ainda mais. O silêncio como necessidade. Quando se aproxima o inenarrável, de novo, o silêncio. O silêncio que fala, ainda mais. Atuar e falar, ainda mais. De novo o silêncio da construção e a mão que ampara. Todo o corpo. Imaginar o impossível em abraços, ainda mais. Dizer pedir pensar o impossível. Dizer por favor não atire. Dizer aqui há uma palavra-poema, ainda mais. Dizer por favor não atire! isso é uma liberdade em infinita construção. Amanhã, ainda mais. Dizer por favor não atire. Silenciar falar, ainda mais. Dizer por favor é necessário deixar viver, ainda mais. Nesta nova manhã, tentar construir, ainda mais. Construir a impossível tarefa de segurar poeira com as mãos. Ainda mais.