Edgar Allan Poe, a tortura e a ditadura militar

Dando sequência às adaptações dos contos de Edgar Allan Poe realizadas pelos alunos da disciplina Estrutura de Roteiro da Escola de Comunicações da Universidade Anhembi Morumbi, temos o vídeo “Somos Todos Filhos de Deus”. Inspirado na música “Deus lhe Pague” de Chico Buarque, transpõe o terror e delírio do protagonista do conto “O Poço e o Pêndulo” para os porões da tortura durante os “anos de chumbo” da ditadura militar brasileira. O vídeo consegue captar dois elementos universais do conto de Allan Poe: a manipulação do tempo e espaço como técnica histórica nas torturas e inquisições e o simbolismo metafísico do poço, que o autor norte-americano apenas sugere no conto, mas o vídeo vai explorar até as últimas consequências.

O conto “O Poço e o Pêndulo” do escritor norte-americano Edgar Allan Poe é um típico exemplo clássico do estilo gótico e de terror psicológico no qual era mestre. Ao contrário dos demais autores que se concentrava no terror externo, Poe prestava atenção ao terror originado no interior do próprio protagonista. Como era do seu estilo, o conto inicia com uma descrição objetiva de tempo e espaço que vai, aos poucos, misturando-se com o delírio e terror da gradiente de sentidos do personagem (visual e auditivo no caso desse conto). Tempo e espaço objetivos misturam-se com tempo/espaço psicológicos.

“O Poço e o Pêndulo” narra o julgamento e a condenação de um rebelde que, após receber a sentença dos inquisidores, é atirado inconsciente em um calabouço onde sofrerá diversas torturas físicas e psicológicas. Ao tentar reconhecer o lugar onde estava se depara com um poço que lhe desperta os mais terríveis pressentimentos quanto ao seu destino naquela cela.

Tortura: manipulação tempo/espaço

Podemos especular que a época onde se encontra o personagem é o da Inquisição espanhola em que o Santo Ofício foi o mais rigoroso e cruel em técnicas de torturas. Historicamente sabemos que os monges inquisidores eram senhores absolutos da manipulação do espaço e do tempo para criar ambientes aterrorizantes, claustrofóbicos e imundos. Era uma técnica de aniquilar um homem da forma mais fria e cruel possível: primeiro a morte psicológica para, depois, sem defesas ou resistências, entregar-se à morte física.

O protagonista aos poucos vai percebendo isso entre desmaios e delírios e, principalmente, com a descoberta do pêndulo com a cimitarra (lâmina curva) descendo do teto, como se o seu movimento rítmico fosse uma contagem regressiva para a morte.

A adaptação feita pelos alunos da Universidade Anhembi Morumbi (o grupo  formado por Bruno Nunes, Fabrízio Andrezani, Rafael Araújo, Joyce Rossini, Pedro Mazeto e Sara Nunes) conseguiu captar esse elemento (a manipulação cruel do tempo/espaço) como técnica universal da tortura, transpondo a narrativa para os “anos de chumbo” da ditadura militar brasileira. Sabemos que o baú de crueldades dos torturadores dos porões da ditadura com choques elétricos, afogamentos e muita pancadaria (tudo com a assessoria técnica da Inteligência militar norte-americana) trouxe para o cenário político brasileiro da época essas mesmas técnicas históricas de manipulação.

Assim como no conto de Poe onde os indícios objetivos entre os delírios do protagonista nos ajudam a montar o quebra-cabeças da localização do personagem, da mesma forma o vídeo mostra indícios da época dos chamados “anos de chumbo”: primeira página do “Jornal do Brasil” com a notícia do fechamento do Congresso, narrações da final Brasil X Itália na Copa de 1970 e a música de Chico Buarque “Deus lhe Pague”, que acabou inspirando a adaptação.

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