A Farsa e a Tragédia, por Nadejda Marques

Podemos dizer que a morosidade da justiça estadunidense e consequências lenientes para  com seus insurgentes pode ter servido como motivador aos terroristas brasileiros.

A Farsa e a Tragédia

por Nadejda Marques

German Lopez escreve no boletim do New York Times de ontem, 10.01.2023, um texto sobre as semelhanças entre os ataques ao Capitólio em 2021 nos Estados Unidos e os ataques as sedes dos três poderes em Brasília, em 8 de janeiro. Até aí, nenhuma novidade. As semelhanças entre o discurso e ações de Trump e Bolsonaro assim como o modus operandi das tentativas de golpe da extrema direita nos EUA e no Brasil são tantas que não surpreenderia a ninguém se aqueles que escreveram a cartilha e financiaram essas ações nos dois países fossem os mesmos. O problema é que Lopez conclui seu texto com a velha arrogância do império decadente. Segundo ele, a grande diferença entre os ataques de 6 de janeiro e os ataques em Brasília é que a democracia brasileira, nos seus 38 anos de idade, seria muito mais jovem e menos consolidada do que a democracia nos EUA, a qual ele chama de “democracia americana.”  Pasmem! Lopez não para por aí. Ele segue “explicando” que a democracia brasileira sofre com escândalos sérios de corrupção na sua fundação e por isso seria mais vulnerável a forças antidemocráticas.

“(…)Brazil’s 38-year-old democracy is much younger and less established than America’s. It has dealt with serious corruption scandals, including one that temporarily landed Lula, who also previously served as president, in prison. With such a shaky foundation, Brazil is potentially more vulnerable to antidemocratic forces.”

Vamos por partes. Quantos anos tem a democracia nos Estados Unidos? Acho que seria prudente começar qualquer tipo de contagem somente após o Voting Rights Act de 1965 assinado pelo Presidente Lyndon B. Johnson visando remover as barreiras legais nos estados e municípios que impediam afro-americanos de votarem. E, por falar em barreiras, até hoje nos Estados Unidos são comuns as práticas como a restrição no horário da eleição, poucos locais de votação com acesso restrito e requerimentos de identificação que visam impedir ou dificultar o voto de seus cidadãos de cor ou eleitores jovens.

Escândalos de corrupção também são abundantes na terra do Tio Sam. Dentre os vários casos de corrupção que podemos citar lembro, por exemplo, que, em 2019, Trump foi acusado de viabilizar $400 milhões de dólares do orçamento do congresso em ajuda militar à Ucrânia em troca de informações comprometedoras sobre o filho do então candidato à presidência Joe Biden.

Em dezembro do ano passado—quer dizer, mais de 23 meses depois da insurreição de 6 de janeiro de 2021—finalmente, o Comitê do Congresso Americano designado para investigar a atuação dos grupos da extrema direita americana que invadiram o Capitólio numa tentativa de golpe, publicou seu relatório final e, com ele, a recomendação de que o ex-presidente Donald Trump deveria ser indiciado criminalmente. O relatório final do Comitê, nas suas mais de 800 páginas que incluem milhares de entrevistas e dezenas de audiências públicas pode até ser um primor, mas levou muito tempo para provar o óbvio e, o resultado disso, são prisões de poucos gatos pingados que não incluem o alto escalão, nem organizadores, nem financiadores. Os congressistas que apoiaram o golpe nos EUA agora tem maioria na Câmara dos Deputados e já estão fazendo valer seu novo poder. Ontem, tiraram poderes do Comitê de Ética para que não investigue George Santos (brasileiro) pela fraude descarada que ele perpetrou para se eleger congressista pelo partido Repúblicano. E, Trump? Continua solto ameaçando a democracia americana cogitando voltar à presidência na próxima oportunidade.

Podemos dizer que, de certa forma, a morosidade da justiça estadunidense e consequências lenientes para  com seus insurgentes pode ter servido como motivador aos terroristas brasileiros. Os tupiniquins acharam que sairiam impunes. Não contavam com o fato de o Brasil ter um presidente que é um dos maiores líderes da classe trabalhadora do mundo e um Supremo Tribunal Federal independente que sim zela pela Democracia e o Estado de Direito.

Como as coisas se apresentam, é possível que uma investigação eficaz e punição exemplar no Brasil de quem participou nos atos terroristas assim como quem promoveu e financiou esses atos não só servirão para defender a democracia brasileira como também ajudarão nos esforços democráticos nos EUA que apesar de sua prepotência tem sido incapaz de responder às ameaças graves que enfrenta.

Nadejda Marques é escritora e autora de vários livros dentre eles Nevertheless, They Persist: how women survive, resist and engage to succeed in Silicon Valley sobre a história do sexismo e a dinâmica de gênero atual no Vale do Silício e a autobiografia Nasci Subversiva.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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