Caro futuro ministro, universidade pública não é um discurso, por Luis Felipe Miguel

Caro futuro ministro, universidade pública não é um discurso

por Luis Felipe Miguel

O futuro ministro da Educação falou as bobagens de sempre sobre “ideologização” nas escolas. Embananou-se ao defender que a família é a responsável integral pela educação dos filhos, dizendo que ela é a “patria mater” – imagino que tenha querido dizer “celula mater”. Mas vamos dar um desconto, porque, sendo colombiano, talvez ele não domine perfeitamente o latim do Brasil.

Emendou afirmando que a escola não tem responsabilidade nenhuma com a orientação de crianças que tenham problemas em casa: “Amor de pai e mãe ninguém substitui”. Parece só uma besteira, mas não é nada inocente. A equivalência automática entre família e amor é central para que se ignorem os abusos que com frequência ocorrem na esfera doméstica e impedir o reconhecimento dos mais novos como sujeitos de direitos.

Adiante, reclamou que um aluno de universidade pública custaria mais caro do que o de uma privada: “Alguém paga por isso. E no modelo tributário do Brasil é o trabalhador que está sustentando a classe média na universidade pública”. Temos aí a reprodução do mix de mentiras e omissões que sustenta a campanha contra a educação superior pública e gratuita no Brasil.

Primeiro, ele ignora o fato de que a educação superior não é um investimento social que visa a distribuição de bens privados (os diplomas), mas sim a produção de conhecimentos e competências úteis à coletividade. Segundo, a ideia de que o filho do trabalhador não chega à universidade pública desconsidera as políticas de democratização do acesso, que mudaram o perfil do estudantado. Se ele considera insuficiente o resultado alcançado, podia pensar em expandir e aprofundar essas políticas. Terceiro, se é o trabalhador que sustenta, então o ponto é mudar nossa estrutura tributária e fazer os ricos pagarem mais imposto. Ele podia apresentar essa proposta ao Paulo Guedes.

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Por fim, para não me alongar muito, não dá para comparar o custo médio por estudante das universidades públicas e privadas sem colocar na conta: (a) a formação média dos professores; (b) os serviços prestados à comunidade, como hospitais universitários e trabalhos de extensão; (c) o investimento em pesquisa. Afinal, como o futuro ministro deveria saber, a universidade não é só a sala de aula. E, no Brasil, arredondando os números, a universidade pública responde por 100% da pesquisa, contra 0% das privadas.

Luis Felipe Miguel – Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades. Pesquisador do CNPq. Autor de diversos livros, entre eles Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Feminismo e política: uma introdução (com Flávia Biroli; Boitempo, 2014).

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5 comentários

  1. Que pena!
    Pena que o tal nem vai ler este excelente aartigo, pois já deu mostras de ser um perfeito analfabeto funcional.

  2. Foi eleito
    O “bolso”, o coiso foi eleito pelo povo.
    Falando de outro jeito: o povo elegeu o “coiso”.
    Foi um golpe: com povo -omisso-, com coxinhas, com “milicos”, com congresso, com mídia, com supremo, “com tudo!”
    Tudo dentro e com força!
    Esse é o resultado. Agora aguentem, agora resistam, agora é hora de pensar e acordar e agir….
    Da próxima vez tem que fazer como Macunaíma:
    – come bosta, mas não aposta!

  3. Alguns apontamentos fora do ponto (assim mesmo).

    Então, a autonomia universitária já tem entendimento do STF, por exemplo, desde fins dos anos 1970.

    O problema é aquela “argumentação irradiada”, ou aquela indução forçada.

    Veja, por exemplo, a USP e a sua autonomia universitária. O Rodas gastou mal, Zago e o Conselho Universitário cortaram na carne (administrativa básica, não na deles, e as fundações vão de vento em popa). Nem prestar contas direito a USP presta. Quer uma quente? A FUSP tinha que prestar contas para a USP no primeiro semestre deste ano e ainda não prestou! Ninho de pombo é mais limpo que isso.

    Não vamos ser tolos. Pro cidadão comum, faz diferença a autonomia universitária se a joça não presta contas direito. Vamos para o básico e vamos sair do salto: não serve. A primeira coisa que vão dizer é que é desculpa pra esconder as contas. 

    E é um caldo difícil de digerir. O cidadão é ensinado e é obrigado a falar que doutor tem razão, os ricos e/ou os estudados. A educação é precária, a Universidade é mais distante que descobrir a ponta do infinito (assim mesmo, não se estrebuche na cadeira, caro leitor). Falar de autonomia universitária não lhe faria sentido. Ele mal consegue estudar. Se é vista como uma máquina onerosa (como, é claro, precisa esmiuçar), esse cidadão vai ficar revoltado, até com uma parcela de razão (eu pago e não tenho escola). 

    Quero ver como a classe média e parte da elite vai se virar com esse embrulho.  

  4. arredondamento?

    Seu artigo é fundamentalmente correto. É sempre importante lembrar que os recursos da universidade pública são gastos não apenas em salários, mas em pesquisa e extensão, incluindo hospitais universitários. Entre aluno e professor, passei na USP cinquenta anos, Conheço bem todas as atividades, mesmo a extensão, tão valiosa e desprestigiada. As comparações de seus gastos por aluno com as de outros países são descabidas, pois a composição de custos e recursos é diferente para cada um. Mas você faz uma grande injustiça com as boas universidades particulares. Não tenho agora os dados, mas a pesquisadas universidades não públicas é significativa, especialmente a que é feita nas universidades comunitárias, católicas como as PUCs e Unisinos, metodistas, como a UNIMEP, fundações como a FURB, e muitas outras que também fazem extensão. Recebi como alunos e orientandos pessoal formado por elas, e alguns alunos nelas trabalham. São pontos de excelência no grande mar de fábricas de diplomas que Bolsonaro agora quer premiar, acabando com o exame da OAB e revalida para médicos brasileiros, premiando as fábricas da Bolívia e do Paraguai. Quanto ao arredondamento para zero, o ônus da prova é  do acusador (na maior parte do mundo, não na moraria). Sugiro que faça uma retificação indicando o número exato da percentagem das pesquisas que o levou ao tal arredondamento e a fonte.

    • Radical
      O Miguel realmente foi radical e até preconceituoso nessa afirmação sobre as particulares. Destaco as PUCs do Rio, de São Paulo, de Minas, do Paraná, a Unisinos, a de Caxias do Sul, entre outras. Em tempo, também sou docente de IFES.

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