A primeira noite de um homem, por Caiubi Miranda

A minha primeira mulher, sexualmente falando, chamava-se ou tinha o apelido de Rolinha e, como não podia de ser, tudo aconteceu em Ouro Fino, sul de Minas, a cidade natal da minha família.

Ouro Fino era, na época, uma cidade extremamente pacata – estamos falando de 50 anos atrás, quando eu tinha 13 anos. Tão pacata que nem prostíbulo tinha. A Tipoita pilheriava que um dia foi um circo a Ouro Fino e o leão, ao invés de urrar, falava “Oh! lugar…” imitando o urro do leão.

Pois bem. Foi nessa Ouro Fino que eu perdi a minha virgindade. Quem me guiou nessa vereda foi um amigo, primo torto, chamado Robertinho Barbosa. Apesar de ter a mesma idade que eu, Robertinho já era escolado na área sexual e, mais importante, sabia o caminho das pedras para se ter uma noite de amor em Ouro Fino.

O caminho das pedras era, na verdade, o caminho da casa da Rolinha, na zona rural de Ouro Fino. Lembro-me que saímos logo após o anoitecer e caminhamos pelo menos uma hora na zona rural, passando por pastagens, atravessando cafezais e cercas de arame farpado. No breu da noite, eu literalmente morri de medo. Medo de cobras, de onças que – diziam – existiam por ali, medo de bois bravos que imaginava correndo atrás de mim. Mas meu medo não era maior que minha excitação, que a perspectiva de tocar uma mulher de verdade e não apenas a mulher imaginária de meus momentos de masturbação.

Leia também:  O pistoleiro Billy the Kid e o deputado Eduardo Bolsonaro, por Sebastião Nunes

Vimos de longe uma luz no meio do breu. Robertinho esfregou as mãos de contentamento. Se havia luz, era sinal de que a Rolinha estava em casa. E a nossa festa sexual garantida. Quando chegamos me assustei com o “Palácio do Amor” como dizia uma placa pregada na porta que, à nossa aproximação, foi aberta pela por uma mulher que deduzi ser a Rolinha. Era na verdade, uma casa de pau-a-pique, quatro paredes de bambu e barro, divididas internamente por panos grandes presos em cordas de nylon, dessas que usamos para pendurar varais de roupa em apartamentos. No aposento principal, onde ficava a porta de entrada, chão de terra batida, havia uma mesa tosca de madeira com três cadeiras, uma cristaleira onde se podia ver um pirex, duas ou três panelas, pratos, copos e talheres, tudo em pequena quantidade e no limite do uso, tal o desgaste. Encostado numa das paredes, um fogão de lenha a pleno vapor e, sobre ele, um grande caldeirão.

Rolinha não perdeu um segundo: cadê o dinheiro? O pagamento é adiantado, disse rispidamente. Robertinho, que era o financiador da aventura, meteu a mão no bolso e tirou as notas que já estavam preparadas e entregou-as a Rolinha. Senti, então, que a tensão sumiu dela e ela nos mandou entrar.

Prestei, então, atenção na Rolinha. Era uma mulher vistosa, grande, feições bonitas, mas tal qual seus apetrechos domésticos, estava acabada, no limite do uso. Já devia ter entrado na casa dos quarenta. A maquiagem pesada não escondia o desgaste do rosto e nem as sandálias havaianas escondiam os calcanhares rachados.

Leia também:  Harmônica espera a Primavera, por Rui Daher

Ela explicou ainda que num dos outros dois “quartos” estavam seus filhos dormindo, o maior de cinco anos. O segundo quarto era o ninho de amor onde ela atendia seus clientes, nós dois e outros que viriam mais tarde. Explicou ainda que no caldeirão estava cozinhando uma cabeça de porco, a refeição da família no dia seguinte.

Mas a explicação que ela deu e que era visível é que ela estava grávida de seis meses, maior barrigão! Meu deus! O que fazer? Como ia perder a virgindade com uma camponesa sem glamour nenhum e, ainda mais grávida?

Rolinha não deu tempo para pensar: – Vamos, quem vai ser o primeiro? Não tenho tempo a perder. Eu era o primeiro, tínhamos tirado no par ou impar. E, de repente passaram todos meus receios, minhas dúvidas, meus constrangimentos e mergulhei de cabeça no corpo disforme mas nu de Rolinha. Nunca mais me vi tão fora de mim, tão entregue como naqueles momentos. Vou poupar o leitor dos detalhes.

Alguns minutos estava de volta à sala, meio levitando sem saber direito o que tinha acontecido. Agora era a vez do Robertinho e eu ia ficar esperando da sala. Sentei à mesa ainda assustado e então me ocorreu comer um pedaço da cabeça de porco que ainda estava no fogo. Peguei uma orelha e um belo pedaço de bochecha. Salpiquei com uma farinha que encontrei e comi tudo com voracidade.

Daí a pouco saiu o Robertinho, leve e saltitante como eu. A Rolinha nos despediu, convidou para voltar outro e nos pôs porta afora. Saímos contanto o que tínhamos feito ou não no “ninho do amor” sem nos incomodar se era verdade ou não.

Leia também:  Trilha Sonora, por Janderson Lacerda

Foi então que contei ao Robertinho que tinha comido um bom pedaço da cabeça do porco.  Ele ficou sério, parou e me disse: – olha, quando você estava no quarto e eu na sala, eu subi no fogão e, só de sacanagem, dei uma longa mijada no caldeirão do porco!

Como o Robertinho podia ter um coração maldoso assim!

Caiubi Miranda

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

8 comentários

  1. CAIUBI, VIDA LONGA PARA VOCÊ!

    Caro palmeirense sofredor, tou puto com Vc. O texto é prá lá de ÓTIMO, mas fiquei muito frustrado na parte que fala…”vou poupar o leitor dos detalhes…” Como assim “poupar”??? Exijo a parte 2. 

    Falando sério, Cauiubi, a narrativa é EXCELENTE!

    Lembrou meus tempos de Quixeramobim, com outros personagens. A Rolinha lá era uma burra, chamada carinhosamente de “Tia Núbia” e o lugar era chamado, não sei por que, Capadócio. Mas como eu era bem criança na época não foi a Tia que me iniciou. Aliás, se alguém pode dar um bom depoimento é o compositor Fausto Nilo que, tenho quase certeza, perdeu a virginidades com a burra. Sei que tinha até um barranco para os menores poderem alcançar o priquito da bicha…

    E acho que os cidadães de Quixerambim da época poderiam homenagear a dita cuja com uma medalha “post mortem” na câmara de vereadores pelos bons serviços prestados.

    Abraços e longa vida para VC!

    • Dica

      Meu amigo Magadelmo conta que em Traipu, aqui na margem alagoana do São Francisco, um vaqueiro, amante da égua alazã Goiaba, ensinou a melhor forma de fazer amor com equinas: dentro do rio, com água batendo no peito.

      “Fica fácil para o namorado subir até a anca e se encaixar na altura do animal, e além disso, dentro d’água a bichinha não dá coice”. Sem contar que é higiênico e também mais discreto, não expõe as partes íntimas dos amantes aos olhos dos outros.

       Magadelmo relata que na hora do vuco-vuco, o vaqueiro ficava tão romântico que na exaltação de seu amor, sussurrava para a égua: “Ai, Goiaba, minha fia, se tu não tivesse os pé redondo eu lhe dava dois par de sapato de presente…”  

  2. Pois é. Homem conta com

    Pois é. Homem conta com orgulho da “primeira noite”. Aguardo a narrativa de uma mulher, o que duvido que irá acontecer. Fomos condicionadas a nos envergonhar da nossa sexualidade.

    Desculpe, Caiubi, mas o desrespeito com que você e seu primo trataram a pobre (pobre no sentido de miséria) prostituta revela o motivo porque nós, mulheres, somos condicionadas a nos envergonhar da nossa sexualidade. Um machismo que permite  que homens, ao pagar serviços sexuais para mulheres, se achem no direito de estragar e se apossar até mesmo do seu alimento e dos seus filhos.

    O desrespeito que no Brasil as classes superiores dispensam aos miseráveis ficou escancarado nesse seu relato. Não achei graça nenhuma.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome