Odoya, Iemanjá!, por Mariana Nassif

Então, cara pálida, se quiser celebrar a Rainha, celebre. Há inúmeros e quase infinitos motivos pelos quais, ainda e sempre, temos a agradecer.

Odoya, Iemanjá!, por Mariana Nassif

Chegou o dia de celebrar Iemanjá, a mais embranquecida dos Orixás. Racista adora e não mede esforços pra estar na beira da praia, quem sabe ofertar pentinho e flor e pedir, pedir, pedir, saudando aos quatro cantos: Odoya, Odoya, Iemanjá.

Ela segue preta. Preta, assim como é o candomblé.

Umbanda, minha gente, deriva muito mais do espiritismo europeu etnocentrado na pele branca e na loirice aguda, mesmo que hoje em dia manifeste na vibração dos orixás – uma novidade pra mim mas, de novo e sempre, quem sou eu na fila do pão espiritual (uma yawô de quase dois anos que ainda não pagou o primeiro, essa é quem eu sou na fila do xirê, a única que importa). O fato é que essa Iemanjá branca de vestido azul que vocês celebram não existe e, ainda pior, é agressiva, violenta e desrespeitosa às origens do que pretendem celebrar.

Preto de todas as cores. Apenas parem. Falar sobre a alegria dos orixás sem considerar a negritude do tema, aos meus olhos e especialmente ao meu coração, também passa perto da ignorância, essa que anda de mãos dadas com o medo – ainda que seja o medo de se reconhecer racista, uma dor profunda, nossa senhora como é dolorida a punhalada de se perceber assim mas, então, vamos lá: a percepção é o primeiro passo para a mudança e, gente, se tem uma mudança que é mais do que necessária é essa. Tanto e ainda mais pra quem é de fé.

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O antirracismo há de ser a razão fundamental de um branco pisar no terreiro. Qualquer outra premissa não passa de desejo ego-individual. Penso que só após o processo de descolonizar profundamente o pensamento é que temos direito à experimentar a verdadeira força do axé.

Então, cara pálida, se quiser celebrar a Rainha, celebre. Há inúmeros e quase infinitos motivos pelos quais, ainda e sempre, temos a agradecer. Só ela é capaz de dar o colo necessário pra qualquer mazela, das menores às maiores contentas. Celebre, e não se esqueça, jamais em tempo algum, em todo outro dia do ano, especialmente pra quem mora mais perto do mar: é preta ela, Odoya, Iemanjá.

 

 

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