Ecos do dia dos pais – 1

Por Waldyr Kopezky

Vi este post tardiamente…Já não é dia dos pais. Mas quero falar do meu.

Meu pai é meu homônimo. Ou sou dele, sei lá. Foi ator, dramaturgo, escritor e diretor de teatro e cinema em SP. Por força de suas convicções – era anarquista, mas convivia lado a lado com socialistas, trotskistas, marxistas no Teatro de Arena, no antigo Centro Cultural e na cena artística de São Paulo – teve uma postura contrária ao Golpe de 64. Quase foi preso no Sindicato dos Bancários na data fatídica da repressão (junto com tanta gente), mas conseguiu se livrar por milagre. Não era revolucionário, muito menos uma ameaça: era um intelectual (com todos os prós e contras que tal alcunha carrega) que escrevia bem. Só. Foi preso em 1968, no DOPS, quando do AI-5. Ficou duas semanas lá, nunca falou o que ocorreu lá dentro, mas tremia toda vez que via um PM na rua. A vida inteira. Ficou na lista negra do rádio, da TV, e acabou fazendo filmes eróticos e pronográficos na Boca do Lixo, para sobreviver (é só digitar no Google o nome dele e está a filmografia lá). Minha infância não foi fácil por isso, passei algumas privações, o peso do custeio da vida ficou para minha mãe (hoje professora aposentada). Não chorei sua morte (o que foi errado) e só o entendi algum tempo atrás: nos amou do seu jeito, da forma que entendeu ser a melhor para expressar sua emoção (não trazia dinheiro, mas levava um café com leite na minha cama, toda manhã). Foi um avô maravilhoso para meu filho (hoje com 17 anos). Por isso, reproduzo um poema que escrevi para ele, depois de reconhecer que, depois do Golpe de 64, ele foi uma mera sombra, pálida reprodução do notável homem que poderia ter sido:

Título: Em Abril (In Memoriam)

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Em abril

Meu mundo morreu

Minha vida ruiu

Deixei de existir.

Em abril

Desvaneceu

Sucumbiu

O sonho de um porvir.

Em abril

Ninguém esqueceu

O que se perdeu

E eu busquei pra tudo um elixir.

Em abril

Morreu a esperança

Mataram a criança

Que era o futuro que poderia existir.

Em abril

Fechou-se a cadeia

Inexorável teia

Que amarrou meu futuro existir.

Em abril nasci, vivi e morri.

Waldyr Kopezky

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