Por que a responsabilidade dessa tragédia não pode ser conferida aos “brasileiros”?, por Jean D. Soares

Por que a responsabilidade dessa tragédia não pode ser conferida aos “brasileiros”?

por Jean D. Soares

Há diversos fatores que colaboram para a imensa tragédia que assola o país. Mas alguém poderia dizer que a responsabilidade é dos “brasileiros”, que escolheram “quem está aí” para conduzir o país. Quem diz isso, ao meu ver, uso um argumento falacioso.

Isso por, pelo menos dois motivos, penso: primeiro porque há uma maioria de brasileiros que desacredita o atual governo – cerca 60% a 70% da população, que variou evidentemente nos últimos meses consoante a maré de auxílios, mas se mantém desde a eleição, se somarmos o contingente de pessoas que votaram no PT no segundo turno e quem NÃO votou, isso é, brancos, nulos e abstenções.

O segundo motivo é que essa maioria ou está trabalhando para sobreviver e não tem tempo para a política, ou está com medo de morrer por causa da falta de política pública. Entramos numa aporia difícil, numa escolha infernal: correr o risco de morrer de fome (parando de trabalhar para protestar) ou de coronavírus (indo para as ruas para pressionar).

No meio desse redemoinho, as redes operam um ponto de fuga, mais do que de resistência. De fuga, porque na ausência de movimentos aglutinadores da indignação latente, as redes alimentam a sede por notícias e a esperança por alguma novidade alentadora, algum tipo de salvação a curto prazo que seria enviada pelos jornais.

O governo joga o jogo do “quanto mais falarem de mim, melhor, mesmo que seja o pior”, numa versão trágica do adágio de JK. Usa o discurso da oposição como lenha para a fogueira que assa o pão de cada dia: mentiras falsas fresquinhas pelo whatsapp da família. Cria ondas discursivas novas, como a mais recente questão da proibição dos cultos, como cortina de fumaça para sua incompetência indecente. E não se pode dizer que a comunicação odienta desse governo não alcança seus efeitos. Infelizmente, há um terço (oscilante) da população que cai nessa ladainha negacionista.

Então, é preciso pôr na balança o poder da comunicação, ainda que comunicação de notícias falsas. Tem muita gente iletrada digital e politicamente falando sob a influência das hordas do ódio. É de se considerar também que uma classe de pessoas letradas e instruídas aderiu a esse programa do “quanto pior, melhor”, como abutres financistas. Desde que saber ler as condições da tragédia lhes soe como vantagem, encastelados em seus condomínios ou privilégios de classe (sejam eles quais forem), tudo bem.

A dizer, não se trata de taxar uma nacionalidade, mas pessoas que agem cinicamente diante das câmeras, dos vizinhos ou da história. Há pessoas responsáveis por mitigar a tragédia que assola o país, e há aquelas responsáveis por ampliá-la. O juízo do tempo será implacável para com essas últimas e realinhamento de membros de instituições como o STF prova seu grau de rigor.

O ambiente no Brasil é diferente do de outros países. A tendência a criar aglomerações, as dificuldades de locomoção nos transportes públicos, a desinformação da população, enfim, uma série de fatores dissipa uma resistência mais sistemática e popular a esse governo. A mera acusação de que é “culpa do povo”, que não soube escolher, soa certamente como uma falácia contra a população que mais sofre as consequências desse governo que deixa morrer sistematicamente aqueles que deveria fazer viver. Nessa necropolítica mal-disfarçada, que atua na ribalta das UTIs são os brasileiros, sem medicamentos para anestesiar a dor da perda de milhares de familiares por dia.

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